Carlos Chagas
Tribuna da Imprensa
Na reunião do PT na noite de terça-feira, em Porto Alegre, o Lula exagerou. Disse que a imprensa é inimiga dos governos do PT e inverteu a equação, transformando-se em inimigo número um dos meios de comunicação, que acusa de “inventar” candidatos contra Dilma Rousseff. Será que foram “inventados” Aécio Neves, Marina Silva, Eduardo Campos e agora até o pastor Enivaldo? Caso Joaquim Barbosa venha a ser lançado, será resultado de alguma “invenção”?
O primeiro-companheiro foi adiante. Declarou que os meios de comunicação fazem crítica às conquistas sociais do seu governo e da sucessora. Também não é assim, porque o que se faz é cobrar pelo que não foi conquistado.
O perigo aberto pelo ex-presidente é de levar o PT e a presidente Dilma a concordarem com suas divagações emocionais, aumentando ainda mais a temperatura no relacionamento entre a candidatura e o partido, de um lado, e a mídia, do outro. Será mais material para a tentativa de controle da imprensa, proposta sempre presente nos conciliábulos petistas. Em boa coisa não vai dar essa provocação.
Muita gente fica pensando se não são os companheiros que começam a duvidar da reeleição de Dilma, apesar de seus amplos índices de aceitação e popularidade. Estaria em desenvolvimento uma trama digna do Capeta, para desestabilizar a conquista do segundo mandato promover aquilo que no fundo grande parte dos petistas espera, no caso a substituição de Dilma pelo próprio Lula? Comprar briga com a imprensa nunca deu certo, exceção dos períodos em que ela foi censurada e sufocada. Apesar de nossos erros e vícios monumentais, ainda prevalece a natureza das coisas, ou seja, fatos são fatos. Como candidaturas são candidaturas.
SENADORES EM SACRIFÍCIO
É sempre a velha história: a Câmara demora o tempo que quer na apreciação e votação de projetos, mas quando os prazos vão ficando fatais, transfere a responsabilidade para o Senado trabalhar pressionado pelo tempo.
Era de indignação o clima entre os senadores, ontem, que terão até a meia-noite de hoje para aprovar ou rejeitar a Medida Provisória dos Portos, recebida ontem no Senado.
O rolo compressor dos interesses do governo tem prevalecido, mas um dia a corda arrebenta. Vale aguardar como se desenvolverá a questão, hoje, mas se os senadores deixarem de votar a MP antes que ela caduque, a responsabilidade não terá sido deles.
INCÓGNITA JURÍDICA
A qualquer momento o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, poderá apresentar a seus colegas a questão dos embargos apresentados pelos réus do mensalão. Para ele, não há hipótese de esses recursos darem início a um segundo julgamento dos mensaleiros. Ministros como Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes pensam diferente. Entendem que as sentenças poderão ser revistas, de acordo com a argumentação constante dos embargos.
Barbosa poderá decidir de forma monocrática ou dividir a responsabilidade com os demais ministros. Coisa para os próximos dias ou as próximas horas.
OS LIMITES DE GÓES MONTEIRO
É grande o folclore sobre o general Góes Monteiro, todo-poderoso chefe militar de 1930 a 1945, responsável pelo sucesso do movimento que derrubou a República Velha, depois ministro da Guerra, sustentáculo da ditadura do Estado Novo e, por fim, algoz de Getúlio Vargas. Acabou senador.
Quando o Brasil ainda oscilava diante do apoio à Alemanha Nazista ou aos Aliados, Góes Monteiro foi convidado de honra a visitar o exército alemão. Para demonstrar como a disciplina era férrea, diante da tropa formada, um general teria chamado um soldado e ordenado que ele empunhasse seu revólver e desse um tiro no ouvido. Assim aconteceu.
De volta ao Brasil, Góes Monteiro tentou fazer o mesmo, mas o recruta, diante da ordem, exclamou: “mas tão cedo assim, general, e o senhor já bebeu?…”
A historinha se conta a propósito do que aconteceu na Câmara, na noite de terça-feira, quando o líder Eduardo Cunha tentou obrigar deputados do PMDB a votarem contra o governo…
