quarta-feira, maio 22, 2013

Pragmatismo ajuda Maduro, mas é insuficiente


Editorial
O Globo

Governo se aproxima de empresários, mas ainda fica devendo diálogo com a outra metade da Venezuela, a que votou na oposição

Os venezuelanos vão se dando conta da realidade que, em parte, o histrionismo e a retórica retumbante de Chávez ocultavam. Restam-lhes os pouco inspirados arroubos do presidente Nicolás Maduro, as decisões descabeladas do presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, a escassez de alimentos, produtos de higiene e de consumo, a violência, cortes de energia e inflação de 30% ano ano.

Editorial do jornal “El Nacional”, de Caracas, assinalou que “o primeiro mês da gestão de Maduro se caracterizou pelo desconcerto, a falta de coordenação e a improvisação que reina no governo”. O que ficou evidente diante do inesperado anúncio de que as autoridades realizarão, de urgência, uma importação de 50 milhões de rolos de papel higiênico, artigo raro num dos países mais ricos em petróleo. Tragicômico.

Em 14 anos de governo, em nome do socialismo bolivariano, o chavismo ampliou desmesuradamente a estatização e dificultou ao máximo a vida do setor privado, usando o inacreditável argumento de “caçar os tubarões e pôr os meios de produção nas mãos do poder popular”. O resultado é uma economia destroçada. O país, que já era grande importador, passou a comprar fora praticamente tudo. A inflação em abril foi de 4,3%, a maior em três anos, e o índice de desabastecimento bateu recorde, com 21,3%. Aproxima-se uma hiperinflação.

Em um mês de gestão, completados hoje, não seria justo esperar milagres de Maduro. Afinal, como já se repetiu tantas vezes, ele não é Chávez. Nem pode, por óbvio, atribuir qualquer desacerto ao governo do pai da pátria. Mas o herdeiro parece ter uma característica que pode ajudá-lo: o pragmatismo. Ele destacou 3 mil militares para ajudar no combate à violência na Grande Caracas, uma das capitais mais inseguras do mundo. Algo claramente insuficiente, mas que pelo menos sinaliza a intenção do governo de fazer alguma coisa.

Após ataque furibundo à empresa Polar, maior produtora venezuelana de alimentos, respondido à altura pelo presidente da companhia, Maduro decidiu promover um encontro dele com a equipe econômica do governo, e os dois lados chegaram a um compromisso em relação ao abastecimento do país e decidiram não mais politizar o assunto. A ver. Outra mudança para melhor foi a reunião do ministro das Finanças, Nelson Merentes, com 400 empresários, “para criar canais de diálogo que permitam combater a escassez e a inflação”, segundo o ministro.

É um começo, mas insuficiente para frear a derrapagem acelerada para uma grave crise econômica e, provavelmente, para um impasse político. Melhor fará Maduro se tiver a grandeza de dividir a responsabilidade pela recuperação do país com a metade não chavista, os quase 50% de venezuelanos que votaram no oposicionista Henrique Capriles. Só um diálogo nacional conterá o radicalismo e lançará as bases para a volta à prosperidade.