Letícia Lins
O Globo
Promessa era de mais 12 embarcações para o EAS, o que acabou não acontecendo
Navio Zumbi dos Palmares é lançado com presença de Dilma
Hans von Manteuffel / Agência O Globo
A presidente Dilma visita o navio petroleiro Zumbi dos Palmares
no Estaleiro Atlântico Sul, no Porto de Suape
IPOJUCA, Pernambuco e RIO – Com atraso de apenas 23 dias — a entrega anterior ocorreu um ano depois do prazo — o Estaleiro Atlântico Sul deu início as operações do navio Zumbi dos Palmares, o segundo petroleiro entregue à Transpetro, após uma série de dificuldades técnicas e mudanças de comando e controle acionário do estaleiro. Em meio a balões coloridos e chuva de papel prateado e com direito à presença da presidente Dilma, ele zarpou do cais de acabamento do EAS, no complexo industrial portuário de Suape, com destino a Bacia de Campos, de onde levará um carregamento de petróleo para São Sebastião, em São Paulo. A expectativa do empresariado e dos operários do EAS, no entanto, não se concretizou: alardeada por toda semana, a retomada dos contratos das encomendas de 12 navios ao EAS pela Transpetro acabou não acontecendo.
O navio lançado ao mar é um Suezmax, com capacidade para transportar 1 milhão de barris, 45% da produção diária do combustível no país. Além dos dois petroleiros, o EAS já havia entregue à Petrobras uma plataforma de produção semi-submersível P-55. Ao todo, foram três encomendas já concluídas. No momento, o estaleiro produz mais quatro embarcações: são três navios do Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota da Transpetro) e a primeira plataforma de perfuração que será construída no Brasil.
A presidente Dilma fez um breve histórico da retomada da indústria naval do país, e lembrou que, quando ministra, recebeu do então presidente Lula a incumbência de criar condições para o ressurgimento da atividade no país. Salientou que o Brasil, que já foi uma potência no setor, tinha em 2003 apenas 2 mil operários empregados na indústria naval, e que hoje, eles somam 54 mil, no que definiu como “uma história de conquistas”.
— No primeiro navio do Atlântico Sul, tivemos que fazer um retrabalho (correção) de 40 por cento, que foi reduzido em doze por cento no Zumbi dos Palmares e que passará a três por cento no Dragão do Mar — disse, referindo-se a um outro petroleiro em construção no estaleiro.
Dos 49 navios encomendados pela Transpetro a estaleiros — no valor de R$ 10,8 bilhões — e que devem ser entregues até 2016, 15 não têm data de conclusão.
Silêncio sobre os impactos da MP dos Portos
Durante a cerimônia, tanto a presidente Dilma Rousseff quanto o governador Eduardo Campos (PSB) evitaram falar sobre a Medida Provisória aprovada na semana passada para privatização dos portos. O governador era contra a privatização, por achar o novo modelo tiraria a autonomia do estado no que diz respeito ao complexo industrial portuário, que é um dos principais polos de desenvolvimento de Pernambuco.
Suape, que fica em Ipojuca, no litoral sul do estado, possui 100 empresas instaladas, 50 em implantação, gera 25 mil empregos direitos e mais de 50 mil na construção civil, em obras como a refinaria Abreu e Lima. Sem fazer nenhuma referência à MP, Campos lembrou, no entanto, que o complexo é resultante do esforço de várias administrações estaduais. Mas que foi no governo dele onde mais se investiu mais do que em toda a história do porto.
— Nos últimos seis anos fizemos parcerias com o governo federal, com investimentos de R$1,8 bilhões. De todos os investimentos diretos do porto de Suape, R$1,3 bilhão veio do governo do estado, R$500 milhões do governo federal, sendo cerca de R$300 milhões do governo Lula e R$200 milhões do governo Dilma – afirmou o governador, acrescentando que R$ 100 milhões seriam aplicados ainda este ano.
Colaborou Ramona Ordoñez
******COMENTANDO A NOTÍCIA:
Se os leitores puderem recuperar o discurso da presidente nos portais dos principais jornais, seria interessante que comparassem aquela bazófia toda com o quadro acima descrito quanto as entregas em atraso, mudanças de comando e controle acionário, e a incerteza quanto ao restante das encomendas. Chega ser patético o tom ufanista de Dilma confrontado com a realidade.
Uma indústria naval não se constrói nem com saliva, nem com decretos de boa vontade, tampouco sem tecnologia avançada e profissionais qualificados e em quantidade suficiente. A presidente poderia, por exemplo, tomar como modelo o trabalho desenvolvido pela EMBRAER, o tempo que demandou para chegar ao seu estágio atual de desenvolvimento e, nunca esquecendo, as parcerias que a companhia precisou firmar para desenvolver aeronaves dotadas de alta tecnologia e de acordo com as exigências do mercado.
Fosse uma pessoa menos arrogante, e a presidente, certamente, teria dado ao seu discurso um outro tom, mais humilde e menos presunçoso. E talvez teria evitado aquele beiço imperial com que aparece na foto.
