domingo, junho 23, 2013

AFIRMAÇÃO ESTÚPIDA: ‘Antipartidarismo violento é prejudicial à democracia’

Sérgio Matsuura 
O Globo

Cientistas políticos destacam, porém, que partidos também têm responsabilidade pelo descrédito atual

RIO — A presença de bandeiras de partidos e sindicatos é comum em manifestações públicas, mas na última quinta-feira elas foram expulsas, violentamente, dos atos que reuniram mais de um milhão de pessoas em diversas cidades do país. Para especialistas consultados pelo GLOBO, atitudes como essa representam um risco para a própria democracia.

O cientista social e professor da FGV Fernando Lattman-Weltman prega o respeito à posição apartidária, mas afirma que o acirramento das reações violentas aos militantes pode prejudicar a continuidade dos protestos.

— Uma coisa é ser apartidário. Acreditar que os partidos não representam o movimento. Isso é absolutamente legítimo. Agora, o antipartidarismo violento é prejudicial para a democracia e acaba afastando a população que fica assustada com a confusão — afirma.

— A população tem motivos para desconfiar, mas os partidos políticos são parte fundamental do processo democrático. Contudo, os próprios partidos são culpados por estarem na lata do lixo — avalia o professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira.

Discordâncias internas prejudicam mobilização
A violência contra militantes de partidos levou o Movimento Passe Livre (MPL), organizador dos primeiros protestos, a abandonar a mobilização dos atos. Para o cientista social e pesquisador da FGV Fernando Lattman-Weltman, as organizações políticas têm o direito de participar das discussões sobre o futuro das manifestações, até para ajudar na elaboração de novas pautas. Na sua opinião, a atitude tomada por alguns manifestantes demonstra a falta de conhecimento sobre a estrutura política do país.

— Para a democracia funcionar, ela precisa dos partidos. Uma coisa é reduzir o preço da passagem, outra é discutir a fundo o problema do transporte público. É muito bonito colocar milhões de pessoas nas ruas, mas isso não resolve a questão — afirma.

No início, o movimento pedia a redução das tarifas de ônibus, objetivo que foi alcançado em quase 60 cidades. No vácuo de uma proposta concreta e tangível, surgiram diversas bandeiras, muitas delas antagônicas. Para o cientista político, a definição de novos objetivos é essencial para a continuidade dos protestos.

Segundo Lattman-Weltman, o movimento passa por um processo de polarização, tanto interno como externo, que pode culminar com o esvaziamento dos atos. No momento, explica, surgem propostas e táticas divergentes, assim como um recrudescimento dos atos violentos contra a polícia e as instituições públicas.

— As manifestações tendem a uma radicalização inicial, mas depois devem refluir. Com tantas pautas e interesses, o movimento pode entrar em crise. Tem gente contra e a favor do aborto, por exemplo — diz o pesquisador.

A presença de pequenos grupos organizados provocando atos de vandalismo e violência também pode prejudicar o andamento dos protestos. O diretor do IFCS/UFRJ, Marco Aurélio Santana, relata que após a manifestação de quinta-feira centenas de pessoas, entre estudantes e militantes, buscaram abrigo no prédio da faculdade temendo ações da polícia e agressões de outros manifestantes.

Por outro lado, os partidos, em especial os que ocupam altos cargos na administração pública, precisam ouvir os gritos que vêm das ruas. Segundo o professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira, está faltando uma resposta à altura dos poderes constituídos. A redução das tarifas de ônibus em algumas cidades foi o primeiro passo, mas a classe política deve compreender que a população está descrente com as instituições.

— Enquanto a população está na rua, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara está votando a “cura gay”. Isso é um deboche. As instituições não estão ouvindo as manifestações.


***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Vale aqui o mesmo comentário feito no post anterior.

Mas é preciso fazer uma observação adicional. A violência não partiu dos manifestantes, ela partiu da negligência de toda a classe política que simplesmente ignorou as necessidades reais do país. Como, ainda, esta mesma violência é praticada pelo governo dedicado em torrar dinheiro público em desperdícios, ao invés de investi-lo na melhoria da qualidade dos serviços públicos.

Quem tem sido violentado, ao longo dos últimos anos, tem sido justamente a população brasileira que paga uma fortuna de impostos sem o retorno devido. O povo não quer políticos alinhados ao seu discurso das ruas. Eles deseja apenas ser ouvido e que governantes tratem de cumprir com sua obrigação.  O recado das ruas não é dirigido a um ou outro partido, a um ou outro político, especificamente. É endereçado a todos os políticos de todos os partidos. Simples assim. E isto, em momento algum, prejudica a democracia brasileira. Pelo contrário, só a fortalece na medida em que o povo passou a exigir de seus representantes maior respeito. A cobrança popular é parte indispensável a qualquer regime democrático.  Ao final da edição retornaremos a este tema.