domingo, junho 23, 2013

Só não precisava mentir...

Adelson Elias Vasconcellos


Ainda sob o calor e a barulheira das ruas, escrevi que me preocupava o fato de estarmos muito longe das eleições. Um ano e uns quatro meses e meio é tempo suficiente para que o governo Dilma e o petismo ensaboado possam reverter a situação de total desconforto em que ficaram.

Claro que lá atrás, quando o tal Movimento do Passe Livre para a Estupidez Utópica deu as caras, a estratégia do petismo e do Planalto (leia-se Gilberto Carvalho) era dar uma rasteira em Geraldo Alckmin, azeitando uma imensa avenida por onde passaria engalanada a escola de samba Unidos Contra São Paulo, para plantar mais um poste na vida pública brasileira.

O que eles não contavam era que pudesse haver no seio do povo brasileiro , um sentimento de enorme insatisfação contra os políticos em geral, e o governo federal  .   E aproveitando-se de um clamor modesto, redução das tarifas de transporte em R$ 0,20, esta insatisfação explodiu no colo de dona Dilma. (Prá que serve a ABIN, afinal de contas?)

Na semana passada, falando numa cerimônia de lançamento do ainda projeto de um novo Marco Regulatório para a Mineração, Dilma, devidamente comandada e instruída por Lula e o marqueteiro João Santana, já tentara se descolar do alarido das ruas. Falamos muito sobre isso.

Contudo, parece que tentara apagar incêndio com querosene. A insatisfação restrita a passeatas com algumas poucas ações de vandalismo aqui e acolá, transformou-se em imensa revolta nacional com muita baderna, vandalismo e depredação, até resultar em dezenas de feridos e dois mortos. E isto se deu mesmo com  a redução das tarifas em praticamente todas as cidades do país onde ela havia aumentado.

Na quinta à noite, já era visível a falta da presença da soberana. Seu silêncio, se mantido, levaria a situação a uma total perda de controle.

Novamente, devidamente comandada por seu  gurus, Dilma preparou-se ao melhor figurino de campanha e veio a público. Depois de 10 minutos, me convenci de duas coisas: o movimento inicial, urdido nos porões do submundo do partido,  vai tentar retomar o comando das manifestações populares. Prepara algumas maquiagens em lançamentos de programas (um é o da Mobilidade Urbana, ponto nevrálgico das manifestações), levará adiante a ideia de importação de médicos (para aliviar o caos da saúde), e vai chamar as lideranças (quais, além do MPL?), para conversar e tentar, ao melhor estilo bolivariano, colocar no poder os movimentos populares (aqueles que historicamente sempre foram ligados ao petismo),  para através deles pressionar o Congresso a aceitar a submissão. Ou seja, o governo criará projetos e enviará os tais movimentos populares para rua para revirar do avesso o país caso o Congresso não se ajoelhe no milho para aprovar aquilo que é desejo exclusivo do governo, mas que será rotulado como “de interesse do povo”. 

Assim, com maquiagem, coação e chantagem, o governo Dilma parecerá atuante, invertendo toda a lógica do momento, abrindo caminho para a sua reeleição. E o batalhão de insatisfeitos, enrolados e embrulhados para presente, constatarão, daqui um certo tempo, mas sempre depois da eleição (ou melhor, reeleição) que foram enganados, mais uma vez.

Mas quais projetos de interesse exclusivo do petismo interessa aproveitar o momento para forçar o Congresso aprová-los? Um, a própria Dilma já falou: a tal reforma política, sonhos dos sonhos de Lula e que terá por baliza, eternizar os petistas no poder.  Outro,  também sonho de todo petista e esquerdistas em geral, é trazer para seu lado argumentativo os tais movimentos “populares” para aprovar uma lei de regulação de mídia, ou, mais claramente, ressuscitar a censura embalada num rótulo tão colorido quanto mentiroso. Em nome da democracia e de mais liberdade de expressão, tentarão calar a imprensa independente. Uau!!!

Ao afirmar que convocará governadores e prefeitos, mais uma vez, o governo federal  irá usar a promessa da liberação de recursos abundantes e em condições especialíssimas, desde que seus partidos se aliem à sua candidatura em 2014. Pura coação, vergonhosa coação. Será mais uma oportunidade para tentar aniquilar e eliminar adversários. Aliás, o projeto que restringe a criação de novos partidos navega neste imenso oceano de imposturas arquitetadas e fixadas no projeto de poder dos petistas.

Dilma fala nas dificuldades da saúde. Ok, então por que vetou o parcelamento das dívidas das Santas  Casas? Por que não aparelha melhor a rede pública? Por que não remunera em condições dignas os profissionais de saúde? Dez anos de PT, e o que era ruim, não só agoniza, mas entrou para a UTI.

Depois, falou em transparência. Mas por que decretou sigilo sobre suas despesas de viagem, verdadeiro desperdício de pura ostentação?

Mas uma coisa a imprensa precisa denunciar: a mentira sobre o não emprego de recursos do Tesouro na construção dos estádios. Tem dinheiro do Tesouro sim. E o que é pior: a diferença entre o custo dos recursos que o BNDES toma no mercado, contra o que recebe dos tomadores destes recursos para as obras da Copa, é custo que sequer vem sendo contabilizado.E ela vem falar de transparência? De quem, poderia explicar?  Aliás, esta distorção acontece sempre que o Tesouro capitaliza o BNDES, o Banco do Brasil e Caixa. E, mesmo que não contabilize a diferença, ela precisa ser paga. E, claro, acaba sobrando para o contribuinte. Como sempre! 

Poderia lembrar a presidente sobre outro decreto que impôs censura às despesas com os tais cartões corporativos, verdadeira caixa preta onde se escondem gatos e ratos!

O grande truque foi citar “dificuldades econômicas e políticas” para atender a população. Errado, dona Dilma. As dificuldades não estão nem pelo lado econômico tampouco político.  O que seu governo mais faz é desperdiçar dinheiro público em inutilidades. O que há de gordura que pode ser eliminada  é um espanto.  E. no plano político, desde a redemocratização, nenhum outro presidente contou com uma base de apoio legislativo como o seu governo. Por estas bandas, portanto, o que existe são muitas facilidades, não dificuldades.  O que faltou ao seu governo é gestão, competência, um projeto de país. 

Quanto ao tal Plano Nacional de Mobilidade Urbana, será mais um daqueles lançamentos em que se prometem mundos e fundos e que, a exemplo do PAC, se arrastará através dos tempos sem nunca sair do lugar, a não ser na propaganda oficial. Teremos mais uma campanha de marketing cheia de efeitos especiais, porém de resultados ridículos ou fictícios.

A fala toda é de uma suprema vigarice. Dilma tenta se descolar daquilo que a atinge diretamente: a má gestão de seu governo no plano dos serviços essenciais de responsabilidade ...da União. E, de sobremesa, tenta se postar à frente do movimento de insatisfação para, além de concordar com ele, dizer:” é isso aí, eu sou a força”!

Claro que a moçada que saiu às ruas para gritar contra a corrupção, mais saúde e educação e menos Copa, e que nem quer, neste momento, ouvir falar em partidos e políticos, precisa ficar atenta a um detalhe: quem quer  mudanças, e elas não virão nem do governo Dilma nem dos políticos, tem a seu favor a melhor e fatal arma a ser utilizada: o título de eleitor. E pode descarregar toda a sua insatisfação nas urnas. Já disse que a melhor campanha nas redes sociais que se poderia fazer é começar pelo slogan “faça um político trabalhar, não reeleja  nenhum”.  Aí sim, estaríamos dando um enorme passo para a mudança. Porque, gente, enquanto os atores forem os mesmos que já estão aí, alguns com 10, 15, 20 anos ou mais de vida pública, e não alimentam o menor interesse em mudar aquilo que os favorece, nada sairá do lugar.  Para esta gente, o povo é mera massa de manobra para mantê-lo no poder, não há a menor chance das mudanças acontecerem em favor da população. Portanto, façamos das urnas a nossa hora de dar-lhes o troco. 

Mas é preciso que Dilma e os petistas abram bem o olho em um certo movimento: aquele que tem por objetivo livrar a cara dos mensaleiros. Se acontecer um mínimo gesto nesta direção, dona Dilma e os petistas estarão colocando a corda no próprio pescoço. A sociedade não irá tolerar esta palhaçada. 

Não se iludam com o artificialismo que está sendo arquitetado nos porões do Planalto. Esta gente tem uma enorme capacidade de resistência e empenharão até a alma, se necessário, para não acontecer nada que os desestabilizem e os expurguem da vida pública. 

Um detalhe: fui um dos que pediram que a presidente se pronunciasse. Esta era sua missão, tratar de serenar os ânimos antes que a instabilidade se instalasse de vez. Mas meu pedido era de natureza protocolar, política sem ser partidária, sincera sem ser vigarista e mentirosa. 

Vamos ver o que virá daqui prá frente. Mas é indispensável que a mobilização de agora se mantenha acesa até outubro de 2014. Como é importante, também, trabalhar no silêncio, aguardando o melhor momento para darmos nossa resposta e mandar esta gente toda de volta de onde vieram.  Se depois de tanto tempo eles só produziram coisas ruins, não será agora que conseguirão, no espaço de 1 ano, o que não conseguiram,  não quiseram e nem se interessaram realizar em dez anos ou mais que estão no poder.