domingo, junho 23, 2013

Diagnóstico errado: ação que expulsou partidos da marcha foi organizada.

Comentando a Notícia

O texto a seguir, do Roldão Arruda, foi publicado no Estadão. Ele se alinha à certas opiniões que se dizem especialistas de povo, mas que ainda não conseguiram entender o que se passa. Acham que o fato das pessoas rejeitarem a presença de políticos nas passeatas é uma ação antidemocrática. Nada disso. Até porque quem começou com as manifestações foi um grupo organizado sim, mas financiado por estatais e com íntima ligação com o PT.

Dali em diante, explodiu foi uma imensa onda de insatisfação que o povo brasileiro vinha suportando até aqui, contra as mazelas dos parlamentares e governantes que deixaram apodrecer a qualidade dos serviços públicos. Esta onda tem  diversas causas. 

Que não se venha inventar inimigos ocultos e ver chifres em cavalo de cavalo. O povo cansou, seu limite de tolerância chegou a um ponto de máxima saturação.

O engraçado que esta gente sempre criticou o mesmo povo por não reagir, por se mostrar passivo diante do descalabro da vida política. E aí, quando o povo e reclama, querem desqualificar as manifestações. Ou será que o senhor Roldão está satisfeito com a educação, saúde, insegurança e corrupção brasileiras?  

Segue o texto sobre o diagnóstico distorcido do Roldão Arruda. Voltaremos ao final .

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Às 17h30 da quinta-feira, 20, a esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta era uma festa. Vinha gente de todo lado com cartazes defendendo causas e causas. Alguns eram sofregamente improvisados ali mesmo, nas calçadas, com cartolina e pincel atômico. Os mais divertidos e criativos eram os que atacavam o pastor Marco Feliciano e seu projeto de lei sobre a “cura gay”.

Foi mais ou menos nessa hora que apareceu o grupo de representantes de partidos e sindicatos, com suas bandeiras e bumbos. Eram poucos, pouquíssimos para o tamanho da manifestação, e foram recebidos com vaias e gritos de “Oportunistas” e “Sem partido”.

Eu estava ali por acaso. Havia ido ao Conjunto Nacional para uma entrevista com dois antigos militantes de esquerda, os dois torturados pela ditadura, hoje atuando em movimentos de direitos humanos. Ao encerrar a conversa, fomos para a esquina, ver a manifestação organizada pelo Movimento do Passe Livre para comemorar a redução das tarifas de ônibus na cidade.

Os dois falaram com entusiasmo da mobilização popular. Diante das vaias, dirigidas sobretudo ao PT, um deles, que já militou no partido, comentou: “Isso é bom. O PT precisa aprender, precisa ver o quanto se distanciou dos movimentos sociais.”

Os dois foram embora e eu fiquei. Acompanhei, da calçada, o grupo de sindicalistas e militantes partidários.
Ele foi hostilizado a cada passo. Sempre que alguém puxava palavras de ordem contra sua presença na marcha, imediatamente surgiam vozes dispostas a repicar. Logo se ouvia: “PT, vai tomar no cu”, “Puta que o pariu, o PT é a vergonha do Brasil” e “Mensaleiro” .

Mas não foi só grito à distância. Desde que entrou na Paulista, o grupo teve no seu encalço, quase colado, um bloco de pessoas dedicado a insultá-lo e provocá-lo.

Às vezes saltava desse bloco algum manifestante. Geralmente bem mais forte que a média, aparentando indignação desmedida e falta de controle, fazia provocações cara a cara, xingava, erguia o punho, até ser contido por alguém de seu próprio grupo ou por manifestantes defensores da não violência.

Os pró-partido fingiam ignorar, protegidos por um cordão humano, cujos integrantes tentavam não se descontrolar. Cheguei a imaginar que, em algum momento, chegaria algum reforço. Mas ele não veio. Na verdade, o grupo encolheu na caminhada.

Reconheci vários rostos entre os militantes que caminhavam de costas – para poder encarar as investidas do bloco antipartido. Já estive com eles em entrevistas e coberturas de ações de movimentos populares. Em sua maioria são pessoas ligadas à luta pela reforma agrária, por moradia, direitos dos indígenas, direitos humanos. Gente que fica mais à esquerda, critica as alianças do PT com setores conservadores e defende a presença dos manifestantes na rua.

O bloco dos antipartido, em determinados momentos se aproximava, depois recuava. Parecia uma tática para aumentar o medo. A certa altura, o bloco foi dividido: de maneira organizada, uma parte passou para a outra pista da Paulista e se alinhou ao grupo pró-partido. Começou a provocá-lo pela lateral.

Em três momentos da minha caminhada, que foi da esquina da Augusta ao Edifício Cásper Líbero, entre as alamedas Campinas e Joaquim Eugênio de Lima, presenciei palmas e urros de vitória ao redor de rodas que surgiam do nada. Nas três vezes o motivo era o mesmo: bandeiras subtraídas à força dos militantes pró-partido estavam sendo rasgadas e queimadas. De todos os lados se erguiam mãos empunhando celulares para registrar a cena.

Nas proximidades do Edifício Cásper Líbero, a marcha parou. Me afastei um pouco do grupo, para ver o que ocorria adiante e encontrei um bloco isolado, ameaçando seguir para a sede da Assembleia Legislativa. Na linha de frente, esses manifestantes estendiam a faixa mais bem produzida que vi na marcha, uma espécie de banner com quase cinco metros de comprimento. Dizia: “Lula, o câncer do Brasil”.

Ao voltar, só encontrei confusão.

O grupo antipartido que havia saído pela lateral retornara à pista original, mas dessa vez à frente do pró-partido. Com essa manobra, conseguiu cercar e isolar os militantes e desfechar o ataque final. Após quase duas horas de humilhações, o grupo pro-partido se retirou, sem bandeiras, sob chutes, socos e gritos.

Entre os agressores, muitos traziam o rosto coberto com máscaras e toucas ninja. As bandeiras que eles arrancavam das mãos dos militantes eram destruídas sob aplausos e celulares.

Um militante da turma petista, a mais perseguida, me contou depois que levou vários socos e só conseguiu escapar porque partidários do PSOL o acolheram como se fosse um deles.

Ao buscar meu carro, num estacionamento da Alameda Santos, encontrei a moça do caixa assistindo à marcha pela TV. Antes de me atender, ela comentou com o chefe, atrás dela: “Viu? Não sei o que esse PT foi fazer na Paulista. Tudo isso que está acontecendo é contra eles, não é?”

***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Se alguma “organização” houve foi a convocação dos jovens via Facebook, além dos vândalos que se infiltraram para a prática de todo tipo de violência. O resto é pura lorota.

O resumo da ópera é o seguinte: para o exercício da cidadania, ninguém precisa de partido político.  Neste sentido, e para reclamar ou protestar contra os maus políticos e maus governantes, ninguém precisa assinar ficha de filiação partidária. Agora que “eles” ouviram a voz do povo, que tratem de justificar seus mandatos, do contrário...

A falácia do Roldão Arruda segue na mesma direção de “especialistas” que ainda não entenderam o que está se passando no país. 

O povo não quer governar, não quer golpe institucional, não quer derrubar as instituições. Quer apenas um Brasil melhor e, neste sentido, demonstra a sua insatisfação com a porcaria que está aí. Tentar desqualificar o movimento apenas porque rejeita os políticos e o modo como eles fazem política, é balela. As manifestações apartidárias não representam perigo à nossa democracia. Pelo contrário: só tende a fortalecê-la na medida em que os políticos terão um pouco mais respeito com o povo que os elegeu e os sustenta, antes de tomarem qualquer decisão.