domingo, junho 23, 2013

Ninguém precisa de partido político para ser cidadão

Adelson Elias Vasconcellos


Chega ser irritante a tentativa de se desqualificar as manifestações – as pacíficas, que fique claro que, segundo informam, colocou nas ruas de mais de 450 municípios, mais de 2 milhões de pessoas - pelo lado da sua “despolitização” com que estes brasileiros se apresentaram para reivindicar, como se para ser cidadão, e assim exercer seu livre direito de se manifestar e se expressar, alguém precisasse, antes, assinar uma ficha de filiação partidária.

Ou seja, quem condena as manifestações pelo lado da sua despolitização ou não entendeu qual o recado que está sendo passado, ou é militante partidário querendo impor cabrestos aos manifestantes, e em consequência, aproveitar-se politicamente.

Ora, a brasileirada, aqui e lá fora, pede o quê, mesmo? Educação, saúde, menos corrupção, mais segurança, criticando, veemente,  os excessivos gastos com as tais copas, que se enterre a PEC 37 – apelidada convenientemente de PEC da Impunidade. Pergunto: qual partido irá resolver estas questões? 

Pelo lado do governo, saúde e educação, apesar de carrearem crescentes recursos, que acabam se perdendo pelos gargalos da burocracia e da corrupção, com muito pouco chegando a quem de fato interessa, TODOS os partidos políticos podem fazer uma mea culpa. Cada um, do seu jeito, quer tirar uma parte para si. O jogo de interesses na liberação de verbas é um escândalo, caso de polícia, uma vergonha nacional.

Não, o Brasil pode berrar em favor das bandeiras diversas que compõem as demandas da população, sem que politize a discussão. O que importa aqui é dar o recado à classe política como um todo e o recado é o seguinte: não é este o Brasil que nos satisfaz. Ponto final.

Cabe, isto sim, aos políticos brasileiros, de todos os partidos,  ouvir o recado, adequar suas  plataformas ao que está sendo feito errado – e é o povo quem está dizendo o que há de mais errado – e, a partir daí ,desenhar projetos e propostas de melhora. 

A garotada não está pedindo mais ou menos política, não está invocando um golpe de estado ou nas instituições,  porque ela sabe que não é ela quem toma decisões nestes níveis. Porém, ela ouviu muitas promessas de campanha, e muitas vezes acreditou nas falsas promessas. Assim, parte da multidão está, na verdade, cobrando de seus representantes a fatura. 

Durante décadas ouço que o povo brasileiro é pacífico e passivo demais, que não exerce seu direito de cobrar, de exigir, de reclamar. E, aí quando ele resolve fazê-lo, o que acontece? Aqui e ali aparecem os profetas do caos para desqualificar o ruído das ruas. 

Reparem: estamos há de um ano das eleições, ok? Tempo suficiente para o governo federal corrigir a rota, para o Congresso parar de fazer besteira e dar atenção ao que realmente  interessa à população (afinal, se elegeram sob tal bandeira, certo?),  deputados, governadores, senadores começarem a direcionar suas políticas para atender as deficiências mais sensíveis ao povo, que se sente roubado por pagar tanto imposto e, receber em troca, serviços públicos essenciais de péssima qualidade, quando não indignos.

Lá na frente, durante a campanha, o povo vai fazer um balanço do que foi feito e do que não foi, e dará seu veredicto nas urnas. Para isto, este povo precisa de partido? Desde quando? 

Acho uma aberração dizer que a rejeição aos partidos e políticos coloca em risco à democracia. Nunca ouvi nada mais bestial. A população está a indicar que a vida partidária até agora, preocupou-se muito mais consigo mesma, com sua sobrevivência na vida pública, em aumentar seus privilégios,  em cometer vilanias dos mais diferentes graus, do que, de fato, em dirigir e concentrar seus esforços em melhorar a qualidade de vida do nosso povo.

É claro que  há chance das manifestações fugirem do escopo que as fizeram ser o que são, dando as mãos ou até sendo lideradas por grupos políticos, o que seria ruim, porque tornariam o desencanto ainda maior. Não é a política, meus caros, que está errada ou que deve ser odiada. Mas seus agentes, seus condutores, aquele gente  que privatizou o Estado brasileiro para si, e o resto que fique com as migalhas. Mas este tema merece e precisa ser tratado em outro texto. 

Mas, pelo que se viu até aqui, e apesar da estranheza de muitos, a meu ver, estes blocos nas ruas tentam passar apenas seu descontentamento com o Brasil que temos. E o que temos, convenhamos,  é muito pouco, para não dizer ruim.  De certo modo, garantem um futuro, mas não um futuro melhor. Garante sobrevivência, mas não qualidade de vida melhor. Olhem o recém inaugurado programa Minha Casa Melhor: vergonhosamente, clonaram um programa similar lançado na Venezuela por Hugo Chavez, o rei do populismo vagabundo, que nem para múmia serviu. Desde quando o que é bom  para Venezuela, é bom e pode ser aceito no Brasil? Será que descemos a tamanha indigência?

Entendo que a hora de politizar as manifestações deva ser outubro de 2014. É lá que deve desaguar a reação das massas. É lá que devemos dar o recado final. Insisto em afirmar que não teremos mudanças alguma, apenas maquiagem e perfumaria, se não mudarmos também os atores que fazem a política brasileira ser a porcaria que é. Por certo, como em tudo na vida que representa sucesso, não deixarão de aparecer aproveitadores, manipuladores,  falsos profetas  e até alguns messias. Distingui-los, acreditem,  não será tarefa impossível. Mas até lá, políticos e partidos devem desenhar suas plataformas para se alinharem às vozes das ruas.

Aqui mesmo no blog, e em função daqueles a quem chamo de “gigolôs da nação”, abri uma campanha sob o slogan “faça um político trabalhar, NÃO O REELEJA”. Ora, quantos dias na semana o Congresso se reúne para trabalhar? Agora mesmo, durante as festas juninas, quantos comparecem ao parlamento para justificar o que ganham?  E, nem por isso, em seus salários se vê algum desconto por ausentar-se do serviço para “festar”.

O Congresso Nacional  é, sem dúvida, o mais caro do mundo. Um parlamentar, isoladamente, nos custa mais de R$ 130 mil considerando salários, verbas de gabinete, assessores, carros, etc., etc., etc.  E poucos, muito poucos procuram honrar o quanto custam aos cofres públicos. Pois bem, qual a renda média do trabalhador brasileiro? Mais: comparem o quanto trabalha, de fato qualquer político e o lhe rende de aposentadoria, com o trabalhador privado após 35, 40 anos de vida dura!

Um detalhe, que talvez poucos perceberam: lembram das desculpas cretinas dadas pela equipe econômica e até o Mercadante embarcou na canoa furada, sobre o baixo crescimento do PIB? Pois então, o governo dizia que o crescimento do PIB não é tão importante e que o povo estava feliz, e coisa e tal, e blá-blá-blá. Será que eles mantém as mesmas respostas agora que o povo os desmentiu? É a velha mania de se distorcer a realidade, tentando encaixar a opinião do povo naquilo que ELES  gostariam que o povo pensasse. Eis aí: o povo não aceita o cabresto e disse o porquê! 

É contra este sistema, cheio de privilégios e concessões para uma diminuta classe de privilegiados, e entupido de carências e necessidades não satisfeitas  que os brasileiros, politizados ou não, se indispõem. Ela só quer ser ouvida, apresentar suas queixas, afirmar e reafirmar que não é este o Brasil que queremos. O resto compete aos políticos em geral, atenderem. Ou faz, e os eleitores reconhecerão nas urnas, ou continua omisso e negligente, e o protestos das ruas se encaminharão para as urnas, expurgando que não se encaixam no perfil que passou a ser o oficial.

Portanto, parem de coagir os protestos, de desqualificar as manifestações. Como disse, para ser cidadão, ninguém precisa de partido político. Porém, é obrigação dos partidos canalizar as demandas da população e trabalhar em nome dela por um país melhor. Não
 aceitamos é que políticos continuem a trabalhar apenas para si mesmos, para construir um Brasil onde apenas eles sejam os beneficiados. Este tempo, e é das ruas que vem este grito, já passou e se esgotou.

Como se vê, o tempo agora é de ter olhos de ver, e ouvidos de ouvir. E, claro, coragem para agir.