terça-feira, agosto 27, 2013

Biruta de aeroporto

Míriam Leitão e Valéria Maniero 
O Globo

As empresas aéreas não precisam de ajuda do governo, precisam de boa gestão, atenta regulação e boa infraestrutura aeroportuária. Mas foram pedir ajuda ao governo porque Brasília é o caminho favorito das empresas brasileiras de terra, mar e ar. Números da Anac mostram um crescimento espantoso de passageiros e de receita líquida desde 2004. Agora, o vento é contra.

Vento contra sempre haverá. É da vida das voadoras. Elas têm a maior parte das suas despesas em dólar porque fazem leasing de avião em empresa estrangeira, têm dívida externa e a Petrobras não perdoa: de 15 em 15 dias tem reajuste de querosene de aviação.

Quando o dólar ficou baixo, tão baixo que o ministro Guido Mantega levantava imposto de importação e punha IOF em entrada de capital, as empresas tiveram uma baixa de custo. Isso durou bastante tempo. Coincidiu com o período de maior crescimento da renda e da ampliação da classe média no governo Lula. Após uma queda de 5,9% no ano do ajuste de 2003 (no qual houve, apesar disso, aumento de receita de 7,6%), a demanda por transporte aéreo de passageiro cresceu todos os anos a nível chinês. Eu disse chinês? Foi mais. Em 2010, a medida do setor, RPK, que é bilhetes vendidos multiplicado por quilômetros voados, chegou a aumentar 23,8%. Naquele ano superou a China. O número de passageiros transportados atingiu a marca dos 100 milhões, informou a Anac.

Veja o gráfico abaixo do aumento ano a ano da demanda de transporte aéreo de passageiro. Na receita líquida das companhias aéreas também o saldo é positivo. Houve de 2003 para cá três anos negativos (2006: -8,1%; 2007: -0,6% e 2009: -7,6%), mas a queda foi totalmente superada. Em 2004, o crescimento foi de 12,3%; 2005, 3,3%; 2008, espantosos 27%; 2010, 25%; 2011, 14%; 2012, 12,7%. Na receita líquida, a Anac agrega o transporte de passageiros, carga e mala postal, mas não o táxi-aéreo.

Os números são sólidos: o mercado cresceu, a receita aumentou na maioria dos anos na última década e o número de empresas do mercado é muito pequeno e concentrado. É praticamente um duopólio que começa a perder participação pelo crescimento das menores, mas houve fatos como a compra da Webjet pela Gol. A empresa comprada foi fechada logo depois. Em qualquer país do mundo, a lei antitruste impediria isso. O mercado é restrito para as estrangeiras.

Elas podem reclamar que a Petrobras tem duas políticas de preço: um de reajuste quinzenal para os preços não visíveis, e outra de preços que só sobem quando o governo deixa. Mas numa época em que o imposto sobre carbono começa a recair sobre algumas voadoras do mundo, principalmente na Europa, não faz sentido incentivar querosene de aviação. Aliás, subsídio a combustível fóssil não faz sentido algum, apesar de o Brasil usar em outras modalidades de transportes e até no automóvel por puro populismo.

Quem voa no Brasil tem do que reclamar. Espaços encurtaram, lanches ficaram raros e na Gol só água é de graça. Quem compra passagem e se arrepende meia hora depois tem que esperar três meses para receber o dinheiro de volta. Quem antecipar a viagem paga mais, quem quer postergar também. A milhagem raramente pode ser usada. Os voos atrasam e nada acontece. Tudo aguentamos, mas dar dinheiro público no ano de vento contrário, após anos de vento de cauda, é pedir demais aos senhores passageiros.


***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Para aqueles que visitam o blog regularmente, sabem nossa posição sobre a política da aviação comercial brasileira conduzida pelos governos petistas, e nossa crítica contra as nossas companhias com uma abusiva prática de concorrência predatória, que  já deveria ter sido coibida pela ANAC que a tudo assiste sem tomar uma miserável medida contra o abuso. 

O resultado é que a aviação comercial é cada dia mais concentradora, e o constante aumento de custo não é acompanhada por administrações mais eficientes pela duas maiores companhias, obrigadas que estão pelo governo petista a manter tarifas abaixo do custo para aumentar o números de pobres viajando de avião. 

Semana passada, o Secretário de Aviação Civil chegou ao cúmulo de afirmar, de forma irresponsável, que os aeroportos irão se transformar em rodoviárias, dado o constante crescimento da demanda. Contudo, e pelo andar da carruagem, acabará é faltando companhia sobrevivente para atender este fluxo crescente, em razão dos elevados prejuízos que TAM e Gol vem acumulando nos últimos anos. 

Acompanha a posição da Miriam Leitão que o governo não deve jogar dinheiro público para socorrer as companhias aéreas. Deve é mudar sua política e liberar a uma prática de tarifas que estejam em consonância com os seus altos custos operacionais. 

Se o governo deseja ver aumentado o números de voos para interior do país, aumentando o números de usuários do transporte aéreo, deve incentivar e permitir que surjam companhias de menor porte que possam atender esta meta, impedindo que sejam incorporadas pelas duas gigantes (então, Lei antitruste para quê?), e não jogar dinheiro público para amparar sua ideologia política.