Comentando a Notícia
Com o título acima, o jornalista Ricardo Noblat escreveu e publicou em seu blog, um artigo que, entendo, está equivocado tanto na forma quanto em seu conteúdo.
Confesso ter por Noblat o maior respeito. Juntamente com o jornalista Reinaldo Azevedo aprendi e conheci esta forma de comunicação – blog - que a internet oferece a todos, não só a jornalistas, a expressarem publicamente suas opiniões, ajudando a difundir a informação a públicos que a imprensa tradicional nãoa consegue alcançar, de forma quase instantânea.
Sou, portanto, leitor assíduo de seu blog e, por várias vezes, reproduzi no Comentando a Notícia seus artigos, sempre bem apanhados, sobre diferentes matérias.
Porém, desta vez Noblat se excedeu e se equivocou. Não sei em que águas ele bebeu as informações sobre as quais baseou sua crítica aos críticos do programa Mais Médicos do governo federal.
Reproduzo a seguir o citado artigo para, em seguida, comentar e repor alguns pontos que Noblat deixou de lado, mas que deveriam ter merecido uma avaliação mais criteriosa.
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Sem tolices, por favor. Queriam o quê? Que precisando contratar médicos para fixar no interior do país o governo não o fizesse só por que os nossos têm outros planos? Ou então que contratasse estrangeiros, mas não cubanos por que eles vivem sob uma ditadura?
Com quantas ditaduras o Brasil mantém relações? Sabe em que governo o Brasil reatou relações diplomáticas com Cuba? No do conservador José Sarney. Pois não é?
Desembarcaram por aqui no último fim de semana os 400 médicos cubanos que aceitaram trabalhar durante três anos nos 701 municípios rejeitados por brasileiros e estrangeiros em geral inscritos no programa “Mais Médicos”.
São municípios que exibem os piores índices de desenvolvimento humano do país, 84% deles situados no Norte e no Nordeste. Os nossos médicos brancos e de olhos azuis não topam servir onde mais precisam deles.
Médicos brancos e de olhos azuis... (Olha o racismo aí, gente!) O que eles querem mesmo é conforto, um consultório para chamar de seu e bastante dinheiro. Igarapés? Mosquitos? Casas de pau a pique? Internet lenta? Medicina, em parte, como uma espécie de sacerdócio? Argh!
Mas a Constituição manda que o Estado cuide da saúde das pessoas. E para isso ele lançou um programa. Acusam o programa de ter sido concebido sob medida para reeleger Dilma. E eleger governador de São Paulo o ministro Alexandre Padilha, da Saúde.
Outra vez suplico: “sin tonterías, por favor”. Queriam o quê? Que podendo atender o povo e ganhar uns votinhos eles abdicassem dos votinhos?
Sarney (ele insiste em voltar!) inventou o Plano Cruzado em 1986 para manietar a inflação. Manietou-a tempo suficiente para vencer a eleição daquele ano. Com a falência do plano foi apedrejado no Rio.
O Plano Real elegeu Fernando Henrique. O que restou do plano o reelegeu.
O Bolsa Família reelegeu Lula, que elegeu Dilma, que terá de suar a camisa para se reeleger. Andar de moto não sua...
Ah, mas um programa ambicioso como o “Mais Médicos” deveria ter sido discutido exaustivamente pela sociedade antes de começar. Deve ter sido discutido, sim, pelo governo, ouvidos também seus marqueteiros.
Importa que funcione bem. Do contrário a gente mata a bola no peito e sai por aí repetindo até perder a voz: “Eu não disse? Não disse?”
Outra coisa: quem sabe o fracasso do programa não derrota Dilma? Hein? Hein? Ela é tão fraquinha... Não fará falta. Se comparado com ela, Lula faz. No mínimo era mais divertido.
Médico cubano não fala português direito! (Ora, tenham dó. Eu passo.) Não podem ser tão bem preparados. Podem e são. Estão em dezenas de países. Até no Canadá. Até na Inglaterra.
Ministro da Saúde, José Serra foi à Cuba conhecer como funcionava o sistema de atendimento médico comunitário. Voltou encantado.
No final dos anos 90, o governo do Tocantins importou 210 médicos, 40 enfermeiros e oito técnicos cubanos. Sucesso total.
Sei: coitado do médico cubano! A maior parte dos R$ 10 mil mensais a que terá direito ficará com o seu governo. E ele não poderá trazer a família. Os demais médicos estrangeiros poderão trazer a mulher e até dois filhos.
Também tenho pena deles. E deixo aqui como sugestão: entre tantas passeatas marcadas para 7 de setembro por que não fazemos uma pedindo o fim da ditadura cubana? Ou pelo menos melhores salários para os médicos da ilha? Já pensou? Abrindo a passeata, representantes de entidades médicas. De jaleco. Atrás, um mar de bandeiras vermelhas para animar a turma. Fechando a passeata, o bloco dos vândalos. E tudo filmado pelos ninjas!
Compartilho o receio de os médicos estrangeiros se frustrarem com a carência de equipamentos no Brasil. Se eles faltam até nas maiores cidades, imagine nas terras do fim do mundo? Se faltam remédios... Ainda assim é melhor ter médicos a não tê-los.
Em certos casos só se resolve problema criando problema. E haverá sempre o recurso à passeata. Se negarem o que pedimos... Se rolar grossa pancadaria...
Cuide-se, Dilma!
***** COMENTANDO A NOTÍCIA:
Semana passada, Noblat já havia levado uma sapatada de Miriam Leitão quando baixou o sarrafo em Joaquim Barbosa, presidente do STF, em termos digamos... não muito respeitosos. Até reconheço sua coragem e discernimento ao reproduzir o texto da Miriam em seu blog. Agora tá querendo o quê, levar outras tantas sapatadas com este artigo desconjuntado sobre os críticos do programa Mais Médicos?
A maioria que tem se posicionado com críticas ao programa, principalmente no tocante a importação de médicos, não é contrária à importação em si, senhor Noblat. É contrária a forma como está sendo feita esta importação. Qualquer profissional acadêmico formado em universidade brasileira, que queira exercer sua profissão no exterior, terá que se submeter lá fora a revalidação de seu diploma. Ponto.
Por conta do quê os estrangeiros não podem se submeter, no Brasil, ao mesmo critério? Por que os estudantes formados no Brasil precisam ser “avaliados” no exame Revalida daqui, e os estrangeiros ficam isentos? Em nome da necessidade? Da urgência?
Ora...
Sabe-se que a contratação dos cubanos está sendo costurada há mais de um ano. Pergunto: além desta contratação, neste mais de um ano de idas e vindas da negociação com o governo de Cuba, que outra medida séria e honesta o governo Dilma tomou para minorar os problemas da saúde no país? Quanto foi investido na recuperação de hospitais? Na ampliação de leitos? Ou ao menos em equipar com o essencial que, em muitas unidades, estão em falta? E quais medidas concretas foram tomadas para ampliar o número de profissionais formados pelas universidades brasileiras?
Ora, se há mais de um ano o governo já conhecia a carência de profissionais, por que não tratou de desengavetar o projeto de carreira federal para os médicos brasileiros como forma de incentivo à interiorização destes profissionais? Lembro, para constar, que este projeto foi engavetado em 2006, pelo então presidente Lula.
Assim, não se critica a importação, mas a forma como ela está sendo feita que, aliás, é ilegal. Tente qualquer empresa no país contratar empregados pela triangulação que agora se dá com o governo cubano, para ver com quantos fiscais do Ministério do Trabalho terá que lidar às portas de suas organizações! Ou de quantas multas precisará recorrer!
Quanto à visita que Serra fez à Cuba, quando esteve à frente do Ministério da Saúde, no governo FHC, o fato de ter ficado satisfeito com o que viu, não o autorizou a firmar com o governo cubano contrato de importação dos profissionais daquele país, justamente por saber que, se o fizesse, estaria covalidando o regime de escravidão a que eles estão submetidos pelo regime dos Castro, além de ferir a legislação trabalhista brasileira.
Quanto as carências dos municípios brasileiros, a boa causa de supri-las não pode nem deve servir de manto a acobertar tanto uma ditadura, que agora contará com financiamento brasileiro, tampouco a validar ilegalidades trabalhistas.
Noblat afirma em seu artigo que, “...Em certos casos só se resolve problema criando problema...” Perdoe-me o jornalista, há uma total falta de senso e de lógica nesta afirmação. Quando se cria um problema para resolver outro, estamos é diante do caos. Um problema se resolve com soluções, não com mais problemas. Quando se cria um problema para resolver outro, no fundo, estamos empurrando a solução com a barriga.
Repito: não é o ato em si, justificado pela emergência da situação ruim da saúde brasileira, mas a forma como ela foi feita. O Plano Real, por exemplo, foi fruto de ampla discussão entre profissionais da área. E ele deu certo justamente porque se tratou de um amplo programa com começo, meio e fim. Já o Plano Cruzado, era um plano emergencial, sem discussão nenhuma, que visava apenas ganhar eleição. Não tinha metas de longo prazo. Daí sua prematura duração. O Bolsa Família não teve começo como Bolsa Família. Foi resultado de um leque de programas sociais lançados pelo governo FHC, em que se tinha para cada um, metas muito claras e definidas. Foi a partir deles que se verificou acentuada melhora dos indicadores sociais do país. O Bolsa Família, basta que se leia o decreto de sua criação, foi a junção de cinco programas dentre os doze então existentes. E sua universalização só deu a partir do afrouxamento das regras para inscrição e adesão e do desaparecimento das portas de saída, razão pela qual, dez anos depois, ao invés de ver reduzido o número de beneficiários, o que se constata é seu crescimento contínuo, o que configura um programa não mais do que assistencialista, jamais programa social digno do nome.
Portanto, melhor faria o senhor Ricardo Noblat se se detivesse em avaliar apenas os predicados do programa Mais Médicos e não tentar justificá-lo com uma mistureba de outros programas com avaliações superficiais e de péssimo gosto. Além de inoportunos.
Que ele não veja na forma de contratação dos médicos cubanos nenhuma ilegalidade (e elas são muitas), vá lá. Cada um tem o direito às avaliações superficiais e unilaterais que preferir Porém, respeite ao menos os críticos quando estes estão apontando o modo como esta importação está sendo feita.
São improvisações como estas que mais geram frustrações do que soluções. O governo Dilma teve tempo, recursos suficientes e vozes especializadas o bastante para tentar encontrar o melhor caminho. Se a importação se mostrou inevitável, e até a maioria dos críticos acredita que sim, o modo como está sendo feita no caso dos cubanos, é que o ponto de discórdia. Cubanos, argentinos, espanhóis, portugueses ou profissionais de qualquer outro país e de qualquer área, são e serão sempre bem vindos. Isto é histórico. Não se trata de questão recente. Que o digam os imigrantes alemães, italianos, japoneses, poloneses dentre outros. Enriqueceram nossa cultura, ajudaram a construir o Brasil que temos hoje.
Porém, vieram para cá cumprindo nossas leis, e aqui ganharam seu sustento sem precisar dividi-lo com os governos de seus países de origem. E tiveram o direito de trazer junto seus familiares. E podiam gozar do direito de ir e vir. Não podemos dizer o mesmo dos médicos cubanos.
Deveria o jornalista Noblat ampliar um pouco mais seu horizonte de análise neste específico caso. A emergência, seja ela qual for, não tem o dom de justificar a ilegalidade e o retrocesso. O Brasil está convalidando uma ditadura e ajudando a manter sobre o regime da servidão e escravidão seres humanos que merecem mais respeito e tratamento mais digno de sua condição. Durante o Império, os políticos tupiniquins justificavam a mão de obra escrava vinda do continente africano de diferentes maneiras, todas elas inconcebíveis e estúpidas. Uma delas dizia que o fim da escravidão quebraria o pais. O Brasil não quebrou. Até pelo contrário, cresceu. E, tendo crescido, não pode agora retroagir no tempo para justificar a escravidão do povo cubano. Deveria era exigir de Cuba a libertação de seus profissionais, para que pudesse trabalhar livremente, receber seus salários diretamente de quem os contrata, sem a obrigatoriedade de ficar apenas com a parte menor. Poderia ter exigido que tivessem a liberdade de trazer consigo seus familiares. Fez isto? Não, optou por se curvar a uma política ditatorial e que irá impor regras a trabalhadores em solo brasileiro.
Podíamos ter escolhido um caminho inverso. Podendo ter contribuído para a liberdade do povo de Cuba, estamos é nos aliando e financiando, com esta forma de contratação espúria, que o povo cubano continue oprimido e escravo. Ou seja, entre a liberdade e a opressão, o governo brasileiro fez a pior das opções. Razão pela qual, o artigo de Ricardo Noblat não passa de libelo atualizado do mesmo discurso que proferiam nossos escravocratas do século XIX. Infelizmente.
