Gabriela Valente, Eliane Oliveira, Catarina Alencastro e Geralda Doca
O Globo
Nesta terça-feira, Mantega e Tombini conversaram várias vezes para combinar ações para conter a escalada da moeda americana
BRASÍLIA - A alta do dólar e seus efeitos sobre a economia brasileira estão no centro das preocupações do governo. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, conversam nesta terça-feira várias vezes por telefone para combinar as ações para conter a escalada do dólar. A estratégia de atuar em conjunto no mercado, bem sucedida nesta terça, deve ser mantida, mas a avaliação da equipe econômica é que ainda é cedo para novas medidas, embora não estejam descartadas.
A missão de interlocutores da equipe era acalmar os ânimos. E também avisar que grandes apostas na alta do dólar pode gerar prejuízo no setor privado. Para o governo, a preocupação principal é com o impacto do câmbio na inflação. No entanto, na visão de técnicos da equipe econômica, isso só deve acontecer em seis meses e a economia morna pode brecar parte do repasse aos preços.
No esforço para enfrentar um dos momentos mais turbulentos desde a grande crise de 2009, o Ministério da Fazenda e o Banco Central não apenas têm atuado juntos, como afinaram o discurso. Mas dentro da equipe econômica, há técnicos que defendem que apenas o BC fale de câmbio no Brasil, já que é órgão que opera no mercado e que tem a credibilidade menos arranhada no governo.
Na terça-feira, até o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, externou a preocupação do governo com a valorização da moeda americana.
— Quando a gente olha o Brasil, a gente costuma olhar como é que está o PIB, como é que está o dólar, que agora está preocupando porque está subindo, a bolsa. A gente costuma olhar esses fatores como aqueles que dão mais otimismo ou mais pessimismo — disse, durante cerimônia sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio no Palácio do Planalto.
Na equipe econômica, há um esforço para que propagar a mensagem de que a questão cambial não sairá do controle e o país passa apenas um movimento especulativo. Segundo interlocutores, Mantega argumenta que o Brasil não tem problema de fluxo de moeda americana, mesmo com os registros no vermelho desde junho, por causa das saídas líquida de dólares.
A equipe econômica tem medidas na manga, mas o cardápio de opções não é grande. O BC pode usar dinheiro das reservas internacionais para irrigar o mercado à vista de câmbio. Há ainda a possibilidade de reduzir alíquotas de importação para insumos. Outras duas medidas são polêmicas: aumentar compulsório sobre posição comprada dos bancos, ou seja, penalizar a instituição que aposta na alta da moeda americana e a retirada do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre capital de curto prazo para atrair recursos especulativos. Segundo fontes, essa seria a última opção do governo para abrandar o dólar.
Há ainda o receio com a possibilidade de o Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) anunciar a elevação dos juros americanos, com a esperada substituição de Ben Bernanke no próximo mês. Técnicos acreditam que um aumento na taxa básica de juro no Brasil é uma questão de tempo.
Informalmente, uma fonte calculou o seguinte: se o Federal Reserve (Fed), elevar os juros para um patamar entre 0,5 ponto percentual e 1,5 ponto percentual, o Banco Central terá de promover um acréscimo na Selic de 2,5 ponto percentual a 3,5 ponto percentual. Acredita-se que, se nada for feito, o dólar pode atingir R$ 3,00 na virada do ano.
Outro temor do governo é com o represamento das tarifas de preços públicos. Segundo uma fonte, existe a sensação de que os ajustes deveriam ter sido feitos no primeiro trimestre deste ano. No comércio exterior, a expectativa é positiva. A aposta é que a elevação da moeda americana será sentida com mais intensidade já no início de 2014. Além do câmbio atual deixar as exportações de produtos industrializados mais competitivas, há otimismo entre os técnicos da equipe. Nos bastidores, uma avaliação é que a Petrobras, por exemplo, poderá expandir suas vendas no exterior e ter maior rentabilidade em reais.