Editorial
O Globo
Monarquias do Golfo temem ventos da Primavera Árabe e preferem manter a Irmandade Muçulmana longe do poder
O Egito está em marcha à ré acelerada. Com o golpe militar, os avanços da Primavera Árabe foram para o espaço. Com a soltura, se ocorrer, do ex-ditador Hosni Mubarak, é como se o tempo não tivesse passado. Mas, entre o movimento popular que levou à derrocada de Mubarak, no início de 2011, e a volta dos militares ao poder, houve um governo islâmico eleito e cerca de mil egípcios mortos. Por volta de 900 nos últimos dias.
São poderosas as forças que trabalham para que o Egito permaneça sob ditadura. Elas têm nome e endereço: Arábia Saudita, Kuwait e Emirados Árabes Unidos (EAU). Tão logo as forças do general Abdel Fatah al-Sisi derrubaram o presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, as monarquias do Golfo, agradecidas, se dispuseram a apoiar o governo militar com nada menos que US$ 12 bilhões. Diante da perspectiva de EUA e Europa reexaminarem a ajuda, o governo saudita afirmou ter condições de cobrir qualquer redução do auxílio externo.
As monarquias temem a instabilidade causada pela Primavera Árabe, com suas reivindicações democratizantes, e, principalmente, a Irmandade Muçulmana. A família real saudita (e a do Kuwait, e a dos EAU) tem ojeriza à república islâmica preconizada pela Irmandade, que iria contra o caráter hereditário das monarquias. Para elas, é música o que os militares egípcios estão fazendo: quebrar a espinha da Irmandade, adiando ou inviabilizando a possibilidade de governos islâmicos conviverem com a democracia na região. Ontem, o guia espiritual da Irmandade foi preso, o que não aconteceu nem na era Mubarak.
A organização, enquanto esteve no poder a partir de 2012, jogou fora grande chance. Mursi prometera um governo de consenso com as forças políticas, e não fez nada. Meteu os pés pelas mãos e iniciou uma islamização acelerada. Os setores que nele tinham votado, menos os islâmicos, é claro, voltaram às ruas, mas para pedir o retorno dos militares. Eles o fizeram com a truculência de sempre e pulverizaram a resistência islâmica, com 900 mortos. A posição mais delicada é a dos EUA: teoricamente, condenam o golpe militar (que não chamam de “golpe”) contra um governo legitimamente eleito; na prática, acham mais fácil lidar com um governo forte, capaz de manter o Canal de Suez aberto, o tratado com Israel em vigor e os islâmicos longe do poder. Isto tem saído relativamente barato: US$ 1,3 bilhão por ano para os militares.
O povo egípcio está desiludido com o rumo da revolução. Ele quer governo eficiente e honesto, investimentos na economia e serviços públicos e, principalmente, empregos. O pior dos mundos será a volta pura e simples dos militares ao poder. Os EUA e a comunidade internacional devem pressionar os generais para que incluam todos os setores num diálogo nacional. A Irmandade Muçulmana não pode ficar fora.