quarta-feira, agosto 21, 2013

Relações entre Brasil e Argentina estão ‘fracas e instáveis’, diz ex-secretário argentino

Ronaldo D’ercole
O Globo

Dante Sica, economista que serviu ao governo Eduardo Duhalde, diz que intervenções argentinas na economia geram conflito com o Brasil

Divulgação / Fundação Taeda 
Dante Sica: ex-secretário do governo Duhalde
 defende medidas para tirar o Mercosul da apatia 

SÃO PAULO - As relações entre Brasil e Argentina nunca foram tão fracas e instáveis, o que levou à estagnação do Mercosul e deixou os países do bloco distantes da nova dinâmica de comércio internacional, que tem avançado movido por novos acordos entre blocos regionais. A avaliação é do ex-secretário de Comércio do governo de Eduardo Duhalde, entre 2002 e 2003, o economista argentino Dante Sica. Segundo ele, a forma como a Argentina gerencia seus problemas econômicos com elevados graus de controles e intervenções, torna sua economia fechada e gera conflitos com o Brasil, seu “principal sócio estratégico, o Brasil”.

Além das restrições às exportações brasileiras, diz Sica, há barreiras regulatórias que impedem as empresas brasileiras instaladas no país vizinho de remeterem seus lucros às matrizes.

— Isso fez com que as relações entre os dois países caminhassem a uma situação de percepções muito distintas entre si. Representantes do governo brasileiro esperam que a Argentina recue, ao mesmo tempo em que outros agentes acabam que o país está próximo de um colapso e terá de pedir ajuda ao Brasil. E na Argentina acredita-se que o Brasil está próximo de uma crise. Ambas visões equivocadas — diz. — A falta de diálogo e percepções como essas levaram a um forte esfriamento nas relações.

Essa situação paralisa há pelo menos dois anos o Mercosul, que segundo Sica, tem avançado em negociações política para “salvar a si próprio”.

— Temos hoje um bloco mais complexos, com problemas políticos (decorrentes da incorporação da Venezuela e da suspensão do Uruguai), com problemas operacionais (já que a Venezuela, mesmo na presidência do bloco, até agora não adotou nenhum dos seus regulamentos técnicos), e temos um problema estrutural, de estarmos paralisados em um mundo que avança e que está dando resposta à emergência dos países asiáticos — diz, citando ainda a declaração conjunta do bloco ao protestar contra a recente interceptação do avião do presidente boliviano, Evo Morales, na Europa.

O economista lembra que enquanto o Mercosul tem tratados bilaterais de comércio com apenas 7% do PIB mundial, os países da Aliança do Pacífico (Chile, Peru, Colômbia) têm acordos com 78% do PIB mundial.
Imersa na solução de sues problemas econômicos, com forte controle sobre o câmbio para combater desequilíbrios fiscais e de conta corrente, a Argentina deve continuar crescendo pouco nos próximos dois anos, prevê Sica. E as dificuldades do Brasil, na sua avaliação decorrentes da perda de competitividade e de um modelo de crescimento que estaria chegando ao seu limite, são um problema, uma vez que significa menos exportações ao seu país.

Acordo Brasil e UE
Mesmo com o Mercosul a deriva, Sica acha improvável que o Brasil consiga aval de seus pares no bloco para avançar num acordo bilateral de comércio com a União Europeia (UE), como defendem alguns setores empresariais brasileiros. O governo argentino, diz, é contra um eventual acordo Mercosul com a UE e tende a vetar uma inciativa unilateral brasileira nessa direção.

Hoje diretor da consultoria abeceb.com, o economista Dante Sica considera que tanto o Brasil e Argentina perderam o bonde dos anos favoráveis da década passada para sanar deficiências estruturais de suas economias e hoje pagam o preço da baixa competitividade.

— Isso agora compromete bastante o desenvolvimento de ambos. Entramos num novo ciclo internacional que, se vinha sendo favorável aos países da região, não será mais como nos últimos anos.

Sica lembra que hoje os fluxos de comércio concentram-se mais no Oceano Pacífico que no atlântico, daí a necessidade de o Mercosul ter “uma maior conexão” com economias com as do Chile e do Peru.

— Um frete de navio de Santos a Lima, ou de Buenos Aires a Lima, sai mais caro que mandar um contâiner da China ao Peru. Temos fortes problemas de competitividade e integração regional — insiste.

Uma saída para tirar o Mercosul da apatia, defende Sica, seria buscar acordos como os que o bloco tem com o México, pelo qual se acerta um termo geral de comércio, mas cada país negocia acordos bilaterais segundo seus interesses.

— Teremos que abandonar a ilusão de que um dia seremos uma união aduaneira e aceitar a realidade de que somos uma zona de livre comércio. Precisamos começar a abrir uma série de negociações internacionais. Não há como impulsionar o desenvolvimento dos países do Cone Sul se não tivermos acordos regionais inteligentes.