Josias de Souza
Pelo segundo dia consecutivo, Dilma Rousseff viu-se compelida a responder à acusação de Marina Silva de que seu governo é um “retrocesso” na economia. Nesta terça (15), após solenidade em que liberou verbas para as obras do metrô de Salvador, a presidente foi abalroada pela pergunta de um repórter que ecoou Marina: “O tripé macroeconômico foi abandonado”?
A resposta, disponível acima, veio ensaiada: “Meu querido, jamais foi abandonado o tripé macroeconômico no governo. Inflação sob controle, contas públicas absolutamente sob controle, inclusive com queda, como participação do PIB, dos três principais itens do orçamento público federal, a saber: Previdência, pessoal e pagamento de juros. Terceiro, quando que o Brasil teve US$ 378…, entre US$ 376 e US$ 378 bilhões de reserva? Por isso, queridos, nunca foi abandonado! Um abraço.”
O tripé, você sabe, é a política econômica que combina superávit fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação. Valendo-se de meias verdades, Dilma tenta proteger-se da luz do Sol com uma peneira.
Nos últimos dois anos, o governo perdeu a capacidade de produzir superávits fiscais de 3,1% do PIB. Em 2013, reduziu a meta para 2,3% do PIB. E talvez não entregue mais do que 2%. A taxa de câmbio, cuja apreciação já ajudou a segurar a carestia, hoje é depreciada. E a meta de inflação, de 4,5% ao ano, roda nas cercanias do teto da margem de erro, de 6,5%. Os juros sobem e a taxa de inflação é falseada pelo represamento de preços monitorados –a gasolina, por exemplo.
Há 21 dias, falando para investidores estrangeiros em Nova York, Dilma informou: “Queremos rigor fiscal”. Disse isso para tentar aplacar a certeza do mercado de que seu governo conspira a favor do contrário. Num esforço para soar convincente, a presidente anunciou aos investidores sua decisão de impor limites à expansão dos bancos públicos brasileiros.
“A orientação que nós tomamos é que essas instituições, as nossas instituições públicas, retornem às suas vocações naturais”, disse Dilma. “Trata-se, portanto, de um reposicionamento dos bancos públicos na expansão do crédito ao investimento.” Ela não declarou. Mas trata-se também de uma tentativa de “reposicionar” o Tesouro Nacional, de onde saem os recursos que financiam a expansão dos bancos oficiais.
O Tesouro possui junto às instituições financeiras estatais um crédito estimado em R$ 440,4 bilhões. Desse total, R$ 383 bilhões foram empurrados para dentro das arcas do BNDES. Dali, migraram para caixas registradoras companheiras, num processo que tem a transparência de um cristal Cica.
Para restaurar integralmente o tripé, Dilma teria de servir remédios cuja acidez não orna com a atmosfera doce que antecede as eleições. Assim, ela faz um ajustezinho aqui, uma correçãozinha ali, e vai deixando a coisa como está, para ver como é que fica. Nesse contexto, 2015, independentemente de quem seja presidente, vai se consolidando como o ano do reencontro com a verdade.