quarta-feira, dezembro 04, 2013

‘É possível mais desabastecimento e desemprego na Venezuela’

O Globo
Gaspar Ramírez, El Mercúrio

Segundo Jorge Roig, controles impostos por Maduro têm cunho político e visam à eleição municipal de 8 de dezembro

Líder sindical diz que não há nenhum incentivo para o setor de negócios e prevê 2014 difícil

JORGE SILVA / REUTERS 
Venezuelanos fazem fila para entrar 
numa loja de departamentos em shopping de Caracas 

CARACAS - Obcecado com o que acredita serem planos desestabilizadores contra seu governo, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, apontou neste mês um suposto único culpado para a "guerra econômica" no país: o sindicalista Jorge Roig, presidente do grupo de empresários reunidos na Fedecámara - a Federação das Câmaras de Comércio da Venezuela.

Nesta semana, Maduro ganhou do Congresso o sinal verde para governar por decreto durante um ano. Entre as primeiras medidas de seu governo, estava a intervenção em lojas de eletrodomésticos, limitando os lucros das empresas e levando à prisão os comerciantes. O líder sindical diz ser "absolutamente impensável" que tenha dado ordens a empregados para suspender a produção ou aumentar os preços a fim de derrubar um governo.

- De guerra econômica, não sabemos absolutamente nada; nós não somos soldados. O que sabemos é produzir, produzimos empregos geradores de bem-estar - afirmou Roig em conversa com o "El Mercurio"

Como vê as medidas econômicas do governo?
JORGE ROIG: Mais do que medidas econômicas, foram medidas de caráter político. Em consequência dos números desastrosos da economia venezuelana (54,3% de inflação nos últimos 12 meses e índice de escassez de 22,3%, segundo o Banco Central), o governo tem que culpar alguém e não pode culpar o governo que o antecedeu. Este é o resultado de 15 anos de más políticas econômicas. A solução mais simples é responsabilizar os empresários por todos esses males, que são estruturais da economia venezuelana.

O que acha das medidas contra a especulação?
JORGE ROIG: Na Fedecámaras estamos totalmente de acordo com a perseguição a especulação e defendemos que as más práticas sejam punidas. Mas isso é uma coisa, e outra é que estas inspeções violem o Estado de Direito. Eles se apresentam em empresas, sem que os comerciantes tenham chance de defesa, e instigam a baixar os preços sem qualquer consideração. É mais um show midiático-político do que um estudo sério do que está acontecendo em algumas empresas. As práticas ilícitas não podem ser generalizadas como se fossem parte de todos os empresários venezuelanos. Pelo contrário, elas são uma amostra muito pequena.

O que Maduro pode fazer com seus superpoderes?
JORGE ROIG: A Lei Habilitante dá poderes extraordinários ao presidente para tomar medidas contra a corrupção. É importante saber se isso vai servir para enfatizar uma espécie de caça às bruxas contra o empresariado ou se realmente serve para localizar os corruptos. Todos os venezuelanos se perguntam se a lei vai servir para destravar o jogo econômico.

Até quando podem aguentar e que estímulos têm para continuar produzindo?
JORGE ROIG: Neste momento não há nenhum estímulo; muito pelo contrário, há muitos reveses para o setor empresarial. Nos últimos dez anos, 4.000 indústrias e cerca de 218 mil negócios geradores de emprego desapareceram. O investimento estrangeiro é negativo. Todos esses sinais que dá o Executivo contra os empreendedores afastam os investimentos.

Então, o que querem do governo?
JORGE ROIG: Nosso pedido é para que sentemos à mesa para discutir. Eu, como presidente da Fedecámaras, não pretendo mudar um modelo econômico, mas se for evidente que este modelo do presidente Chávez,a gora continuado pelo presidente Maduro deu péssimos resultados para a sociedade venezuelana... Então, acho que vale a pena revisar essa abordagem econômica, que sob todas as luzes se vê muito infeliz.

Qual sua explicação para a suposta guerra econômica que denuncia o governo?
JORGE ROIG: Pode-se pensar nas acusações como políticas. Segundo pesquisas recentes, 75% da população não acreditam que nós, empresários, sejamos os culpados das políticas econômicas equivocadas do governo. O fracasso deste governo é a falha de todo o sistema empresarial. Nós gostaríamos de trabalhar em conjunto com o Executivo, sentar, olhar, discutir, com as diferenças conceituais e ideológicas que temos, um modelo econômico melhor, que nos permita encontrar nosso espaço privado dentro das limitações do sistema ideológico.

Há empresários presos. O senhor teme ir para a cadeia?
JORGE ROIG: Neste momento, o Estado de Direito é bastante precário no país. Sou o presidente do setor de negócios. A Fedecámaras representa mais de 450 câmaras de comércio de todo o país, com ligações com a Organização Internacional do Trabalho. Mas não considero os ataques pessoais, mas ataques contra a instituição.

O que estão fazendo contra as detenções?
JORGE ROIG: Muitos dos comerciantes detidos sequer conhecíamos. Muitos comerciantes surgiram da noite para o dia; não são empresas com uma trajetória formal, que pertencem à Fedecámaras. Ao contrário, acho que muitos desses empresários podem ter votado em Chávez e, certamente, Maduro. Não há empresários afiliados diretamente à nossa instituição detidos.

Como os 15 anos de chavismo afetraram o empresariado?
JORGE ROIG: As condições econômicas para a iniciativa privada estão muito restritas na Venezuela. Aparemos em 181 entre 184 países avaliados pelo ranking Doing Business do Banco Mundial, que mede a facilidade para fazer negócios. O Chile é o primeiro na América Latina, em 34º lugar. É evidente que para nós é difícil fazer negócios, mas isso não haja. Significa apenas que é muito mais complexo que em outros países.

Seu antecessor, Jorge Botti, disse no ano passado que 2012 foi um ano político e que 2013 seria econômico. Como vê 2014?
JORGE ROIG: Nós também dissemos que 2012 seria o último ano do boom econômico, e assim foi. Este foi um ano marcado pela agenda econômica, o que não significa que as decisões tomadas não tenham caráter político. Há eleições em duas semanas, e está claro que muitas das decisões econômicas são tomadas em função das eleições municipais, que deveriam ter pouca importância, mas tornaram-se uma espécie de plebiscito. Numa economia moderna, as decisões econômicas deveriam ficar longe das políticas. Infelizmente, não aconteceu.

E a projeção para o próximo ano?
JORGE ROIG: Vai depender do que comecemos a fazer hoje. O início do ano não vai ser bom. Com as empresas fechando por causa dessas invasões e auditorias, é muito possível que, no primeiro trimestre, o desabastecimento seja ainda maior. Todos os indicadores apontam para isso. Provavelmente também enfrentaremos mais uma crise do emprego, porque muitos estabelecimentos não abrirão suas portas por não conseguir repor seus estoques e não ter investimentos garantidos.