Alvaro Gribel e Valéria Maniero
O Globo
Ainda há tempo de evitar o rebaixamento da nota de crédito do Brasil. Mas o governo continua cometendo os erros que mudaram o olhar, sobre o país, da principal agência de risco do mundo. A S&P repetiu ontem, em evento no Rio, o que muitos economistas vêm alertando. O maior problema é a política fiscal: gastos públicos elevados, principalmente em custeio, baixo investimento e falta de transparência.
Há vários indicadores que mostram que pouca coisa mudou desde que a Standard & Poor’s colocou sob viés negativo a nota de crédito brasileira, em junho. A queda das ações da Petrobras, ontem, está diretamente ligada à falta de transparência na política de preços da empresa. Na política fiscal, o superávit primário acumulado no ano fica menor a cada mês, o déficit nominal sobe, e, o mais grave, os números desmentem o discurso de austeridade, provocando uma crise de confiança. No Congresso, projetos que aumentam gastos têm apoio da base governista.
A presidente da Standard & Poor’s do Brasil, Regina Nunes, é clara quando se refere ao país. Diz que a agência tem confiança na nossa economia, que é possível evitar o rebaixamento e que o período de revisão pode durar até 24 meses. Mas o foco do problema, na visão da agência, é a política fiscal, e a queda do superávit primário pode acelerar o processo.
— A discussão voltou para o macroeconômico. É como se você tivesse dado três passos para trás. O compromisso com o superávit primário tem que ser contínuo, a crise de credibilidade não veio por acaso. Você parou de fazer seu compromisso de primário e continuou fazendo o contracíclico, que não foi capaz de fazer o país crescer — disse Regina Nunes, em evento organizado pelo jornal “Valor”, FGV e Firjan.
A revisão do PIB de 2012, que será divulgado hoje pelo IBGE junto com o dado do terceiro trimestre, vem em má hora, na avaliação da S&P. Serão incluídos dados da pesquisa de serviços, que ainda geram dúvidas sobre como serão incorporados na conta. Para a agência, o momento de rever não é o melhor, já que o país sofre com a desconfiança:
— Discussões sobre o passado, a não ser que se estivesse em um bom momento, trazem um sentimento ruim. Mesmo que tenham bases sólidas para serem feitas. Hoje a gente não deveria estar discutindo isso. Estamos colocando mais um ponto que talvez vá trazer um problema no próprio fiscal, que é o recálculo do salário mínimo.
"Um fiscal acima do esperado certamente traria o Brasil de volta para estável, e um fiscal piorado certamente vai acelerar esse declínio da classificação.”
Regina Nunes, presidente da Standard & Poor’s do Brasil, sobre a política fiscal do governo e o risco de rebaixamento da nota do país.
Governos devem reduzir a incerteza
O tombo da Petrobras na bolsa mostra como o momento é de incerteza. As ações ON da maior empresa do país caíram 10,3% em um único dia. Na avaliação do economista Carlos Langoni, da FGV, a função dos governos, hoje, é “gerenciar expectativas e administrar incertezas de forma que não contaminem as decisões de consumidores e empresas”. Mas não é o que tem acontecido por aqui.
Em evento em que se discutiu a reavaliação de risco do país, Langoni comentou que o grande papel do gestor macroeconômico é esse. Na visão do economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros, “o Brasil vive uma recorrente crise de confiança independentemente do governo de plantão”:
— E tem uma peculiaridade: é o emergente onde identifica-se a mais baixa tolerância dos investidores com qualquer desvio de conduta na área macro.