quarta-feira, dezembro 04, 2013

Rússia de Putin projeta sombras sobre Ucrânia

Editorial
O Globo

País vive impasse entre se aproximar da União Europeia ou continuar submisso a Moscou, no velho estilo soviético

O governo da Ucrânia sobreviveu a um voto de confiança provocado por sua decisão de voltar atrás na assinatura de um acordo comercial e de integração com a União Europeia. Mas a crise política parece longe de terminar: milhares de manifestantes pró-UE continuam nas ruas em Kiev, a capital, inclusive bloqueando prédios públicos. E o próprio resultado da votação foi estranho: o governo precisava do apoio de 226 dos 450 parlamentares, mas obteve apenas 186 votos, já que 135 não votaram, 12 se abstiveram, cinco votaram contra o governo, dois se tornaram independentes e o restante não compareceu.

A Ucrânia se tornou independente em 1991, com o fim da União Soviética. Desde então, o país parece viver uma perigosa dualidade. Sua parte ocidental fala ucraniano, é nacionalista, progressista e pró-integração com a UE. Já a porção oriental fala russo e é pró-Moscou. A Revolução Laranja, de 2004/2005, que pôs centenas de milhares de manifestantes nas ruas das principais cidades, já refletia isso. Protestavam contra fraudes nas eleições de 2004 em prejuízo do candidato oposicionista pró-Ocidente, Viktor Yuschenko, beneficiando o favorito do Kremlin, Viktor Yanukovytch. A eleição foi anulada e Yuschenko proclamado presidente. Mas a pressão russa é muito forte e Yanukovytch é o sobrevivente político e atual presidente.

Ele namorou a UE até as vésperas da assinatura do acordo comercial e de integração, de importante significado para a frágil economia do país e esperança de melhoria futura das condições de vida da população. Mas aí entra em cena Vladimir Putin, presidente da Rússia, com seu método tradicional de negociação: a truculência. Desejoso de manter as instituições democráticas e o modo de vida europeu longe de sua área de influência, Putin, à maneira dos czares, ameaçou tornar insuportável para Kiev o pagamento da conta do gás que fornece à Ucrânia. Por outro lado, prometeu um pacote de bondades se o ucraniano confirmasse a lealdade ao Kremlin —, o que foi feito. Ficou no ar se Yanukovytch se utilizou da carta europeia para negociar melhores termos com a Rússia.

A atitude russa mostra que Putin não leva em conta a autodeterminação de países da Europa Oriental e seu direito de adotar políticas que melhor beneficiem a população. Para o líder russo, o importante é manter na sua esfera de influência as áreas da antiga URSS, mesmo que a ferro e fogo, como fez com a Geórgia.

O dever do Ocidente é dar total apoio aos ucranianos que lutam por tudo que uma associação com a UE representa para eles: comprometimento com a democracia, com o império da lei, governo honesto, direitos humanos e um futuro melhor. O que têm tido até agora é um governo dominado por corruptos e uma economia dependente de oligarcas, uma dualidade que defende os próprios interesses, bem ao estilo do Kremlin.