Celso Ming
O Estado de São Paulo
O comportamento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre foi decepcionante: caiu 0,5% em relação ao anterior. Tão decepcionante, ou ainda mais, é a reação de nossas autoridades.
Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não há nada de errado nesses resultados. Eles são até melhores do que os do ano passado…
“O consumo cresceu apenas 1,0% sobre o trimestre anterior porque o crédito desacelerou”, disse ele. Ora, o crédito vai crescendo a 14,7% ao ano, o que não é pouca coisa, e só não está crescendo mais porque a inadimplência (calote) aumentou. Isso significa que, há alguns meses, o crédito já tinha avançado demais. Os bancos não haviam levado em conta o excessivo endividamento das famílias. Como essa situação não será revertida tão cedo, também não dá para aceitar a projeção do ministro Mantega, que, outra vez, não passa de torcida, de um quarto trimestre muito melhor.
Outra afirmação esquisita do ministro é a de que o resultado ruim do terceiro trimestre favorece um bom resultado no último trimestre do ano. Por essa lógica, se, em vez de ter caído apenas 0,5%, o PIB do terceiro trimestre tivesse despencado, digamos, para menos 4,0% ou menos 5,0%, o crescimento do trimestre seguinte seria ainda mais favorecido.
Há pouco mais de uma semana, em entrevista ao diário espanhol El País, a presidente Dilma declarou que a revisão das Contas Nacionais pelo IBGE corrigiria para 1,5% o crescimento do PIB em 2012, avaliado em apenas 0,9%. Pois veio a correção anunciada, não para 1,5%, mas para apenas 1,0%. Ou seja, a presidente Dilma errou o chute em 50%. Mas, aparentemente, isso não tem importância, fica o dito pelo não dito…
É leviano atribuir o mau desempenho da economia a fatores fortuitos. A baixa capacidade de voo da galinha não acontece porque suas penas estão encharcadas de graxa. A galinha tem asas atrofiadas; não tem estrutura física para voar como os gansos selvagens. O PIB está se arrastando porque a política econômica está desequilibrada e vai produzindo distorções. Não é apenas o setor produtivo que segue queimando óleo. A inflação está à altura dos 6% ao ano; o rombo das contas externas (déficit em conta corrente) vai subindo para 4,0% do PIB; a poupança nacional é insuficiente (de apenas 15%) e, por isso, o investimento não pode ser muito maior do que isso. E não havendo investimento de pelo menos 23% ou 24% do PIB, também não dá para garantir um avanço de mais de 3,0% ao ano, como quer o governo.
Ainda que haja alguma reação no quarto trimestre, o crescimento da economia neste ano não deverá ser superior a 2,2% (veja o gráfico).
A presidente Dilma vem deixando claro que não quer correções de rumo, porque teme seu impacto sobre as eleições de 2014. E isso também aponta para novo desempenho medíocre no ano que vem (veja ainda o Confira).
Mas, afinal, para que mudar? Nem uma economia atrapalhada nem um governo atrapalhado conseguem tirar a presidente Dilma da ponta das intenções de voto.
CONFIRA:
Aí vai a evolução do PIB a cada trimestre sobre o trimestre anterior.
Não foi tudo isso.
O governo deve ter ficado decepcionado com a revisão das Contas Nacionais. A aposta do ministro Mantega era a de que o setor de serviços fosse bem maior do que vinha sendo estimado e que essa diferença seria suficiente para aumentar o tamanho do bolo nacional. Refeitos os cálculos, a participação dos serviços no PIB cresceu apenas de 68,5% para 68,7%. A redução da importância da indústria no PIB também foi pequena. Havia sido avaliada em 26,3% e passou a 26,0%.
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