O Globo
Repetência está associada a abandono escolar, falta de compromisso e demora para concluir ensino fundamental
Resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos foram divulgados nesta terça-feira pela OCDE
RIO — Mais de um terço (36%) dos estudantes de 15 anos já repetiram pelo menos uma vez no ensino fundamental ou médio no Brasil, de acordo com os dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa 2012), divulgados nesta terça-feira (2). É uma das taxas de repetência mais altas entre os países que participam da avaliação. Segundo o levantamento, a repetência no Brasil está associada negativamente ao desempenho em matemática e é mais acentuada entre os alunos desfavorecidos socioeconomicante.
Entre 2003 e 2012, diminuiu a proporção de adolescentes de 15 anos que tinha repetido uma série no ensino fundamental, mas a taxa de repetência aumentou no ensino médio. Na média entre as duas etapas da educação básica, o índice se manteve estável. O problema tem sido associado a taxas elevadas de abandono escolar, altos níveis de falta de compromisso, e a média superior a 12 anos que os alunos demoram para completar oito séries do ensino fundamental. Somam-se a isso um currículo não envolvente e a necessidade ou desejo de trabalhar.
De acordo com o estudo, “é importante reduzir a repetência, encontrando outras formas mais eficazes para trabalhar com estudantes de todo o espectro de desempenho, e para o estabelecimento de grandes expectativas para todos os alunos, a fim de motivar e oferecer oportunidades para todos os alunos”.
Entre 2003 e 2012, a diferença de desempenho entre as escolas públicas e privadas se estreitaram no Brasil. Segundo o Pisa 2012, cerca de 13% dos estudantes de 15 anos de idade frequentam colégios particulares. Em média, as escolas privada apresentam melhor desempenho na avaliação.
“Enquanto seus alunos esmagadoramente vêm de famílias abastadas, a vantagem de desempenho é evidente. Para as famílias mais ricas, as escolas privadas — que oferecem acesso a melhores recursos educacionais, melhor infraestrutura física, e têm menor percentual de alunos por professor — estão associadas a melhores resultados de aprendizagem”, diz o estudo.
Nesse sentido, a recomendação do relatório é de que “o Brasil precisa encontrar formas de apoiar escolas desfavorecidas socioeconomicamente com maior intensidade, a fim de estabelecer a igualdade de condições para todos os alunos”.
Os resultados do Pisa mostram uma relação positiva entre os recursos investidos na educação e desempenho até certo ponto. O Pisa mostra também que em todos os níveis de gastos, os países de melhor desempenho tendem a distribuir recursos educativos de forma mais equitativa entre as escolas socioeconomicamente favorecidas e desfavorecidas.
Entre os países da OCDE, 26% dos estudantes desfavorecidos — o equivalente a 6,5% de toda a população estudantil pesquisada — são considerados “resilientes”, o que significa que eles superam as expectativas de desempenho apesar das dificuldades socieconômicas. Em Hong Kong, China, Coreia, Macau-China, Cingapura e Vietnã, mais de metade de todos os estudantes desfavorecidos, ou 12,5% do total da população estudantil, são considerados resilientes. No Brasil, esse percentual é de apenas 1,9%, proporção que se manteve estável desde 2003.
País tem segundo maior crescimento de matrículas
Ao longo da última década, o Brasil tem ampliado número de matrículas nos ensinos fundamental e médio. Em 2003, 35% dos adolescentes de 15 anos não estavam matriculados na escola na 7ª série ou superior; até 2012 esse percentual havia diminuído para 22%.
Entre o Pisa 2003 o Pisa 2012, o Brasil teve um acréscimo de mais de 425 mil estudantes no total da população de jovens de 15 anos matriculados na 7ª série ou superior, um aumento de 18%. É a segunda maior taxa de crescimento, atrás apenas da Indonésia.
As taxas de escolarização para jovens de 15 anos aumentou de 65% em 2003 para 78% em 2012. O perfil dos estudantes também mudou bastante entre as duas avaliações. Muitos dos alunos que agora estão incluídos no sistema escolar vêm de comunidades rurais ou famílias socioeconomicamente desfavorecidas, segundo o relatório do Pisa 2012.
Atrasos e faltas
Em média, nos países da OCDE, 35,3% dos estudantes relataram que chegaram atrasados na escola nas duas semanas anteriores aos testes do Pisa. Além disso, 14,5% contaram que, no mesmo período, tinham “matado” um dia inteiro de aulas ou mais. No Brasil, o percentual de atraso relatado foi inferior (33,7%), mas um quinto dos alunos (20,7%) admitiu ter “matado” aula durante um dia inteiro ou mais.
Segundo o documento, as relações negativas entre professores e estudantes estão fortemente associadas à falta de pontualidade dos alunos. Entre 2003 e 2012, houve queda de 3% na taxa de atraso de estudantes no Brasil, mostrando “que o envolvimento dos alunos com a escola melhorou no período”.
Felicidade, satisfação, condições ideais e motivação
Pela primeira vez, o Pisa pediu aos alunos para avaliar as suas felicidade e satisfação no ambiente escolar, refletindo sobre se ele se aproxima de uma situação ideal. Entre os países da OCDE, cerca de 80% dos alunos se sentem felizes na escola, 78% estão satisfeitos com ela, e 61% acreditam que as condições são ideais para o seu colégio. No Brasil, os percentuais de alunos felizes e satisfeitos também são altos: 85% e 73%, respectivamente. No entanto, apenas 39% acreditam que as condições são ideais para a sua escola.
A pesquisa também perguntou aos estudantes se eles se sentem como estranhos ou são deixados de fora de atividades, se fazem amigos com facilidade ou se sentem sozinhos. O retatório destaca que “é preocupante que o sentimento de pertencimento dos alunos em relação à escola no Brasil tenha se deteriorado: por exemplo, enquanto em 2003, apenas 8% dos estudantes relataram que se sentem solitários, essa proporção mais do que duplicou (de 19%) em 2012”.
Estudantes brasileiros apresentam maior motivação do que os estudantes dos países da OCDE, em média. Por exemplo, 53% dos estudantes dos países da OCDE concordaram ou concordaram totalmente que estão interessados no conteúdo que aprendem em matemática. No Brasil, esse percentual é de 73%.
No entanto, a proporção de estudantes que relataram altos níveis de preocupação com matemática no Brasil ficou acima da média da OCDE. Enquanto nos países da OCDE 31% dos alunos, em média, informaram que ficam muito nervosos ao fazer problemas matemáticos, esse percentual no Brasil foi de 49%.