Editorial
O Globo
No Estado do Rio, índices de infestação são críticos em 11 cidades, e, no país, dobrou o número de municípios com risco de epidemia da doença
A combinação de períodos prolongados de chuvas e altas temperaturas em novembro antecipou a chegada da estação de sazonalidade da dengue no Estado do Rio. Levantamento distribuído há duas semanas pelo Ministério da Saúde informa que 11 municípios fluminenses apresentam áreas com índice de infestação pelo Aedes aegypti, o principal vetor de transmissão da doença, acima de 4% (o equivalente a 40 imóveis, em mil, com foco do mosquito). A taxa é considerada alta pelas autoridades sanitárias. Outras 26 cidades estão em estágio de alerta, com percentuais de infecção entre 1% e 3,9%. É perfil de verão, quando os indicadores costumam alcançar o ponto máximo de contaminação da população.
O Rio não é o único estado brasileiro vítima do ataque do mosquito. De acordo com o ministério, o mesmo levantamento constatou que, em todo o país, dobrou o número de municípios com risco de epidemia de dengue. Mas, pelas características meteorológicas do seu território, oAedes aegypti encontrou no Estado do Rio um terreno particularmente propício à proliferação do vetor — e, por conseguinte, à disseminação sazonal da doença. Não por acaso, desde o início da década passada, municípios fluminenses passaram por grandes epidemias ou, quando nada, por ciclos de infestação acima dos padrões aceitáveis (2002, 2008, 2011 e 2012).
A dengue assusta em vários continentes. A Organização Mundial de Saúde estima que entre 50 milhões e cem milhões de pessoas sejam infectadas todo ano pela doença em cem países, uma média resultante do aumento em 30 vezes dos índices de contaminação no planeta. Dois terços da população mundial são suscetíveis aos vetores de transmissão.
São números que, longe de justificar como sendo inevitáveis os constantes picos de epidemia no país, se prestam a alertar para a necessidade de o Brasil, nas suas áreas mais propensas ao desenvolvimento da doença, tomar cuidados especiais e permanentes contra a ação do mosquito. Isso vale para políticas de redução de danos, com o desenvolvimento de programas de tratamento, e de prevenção, para conter o avanço dos vetores — preocupação que implica também atenção especial para áreas de fronteira, geralmente de grande circulação de pessoas contaminadas.
No caso do Rio de Janeiro, os índices inquietantes sugerem que é hora de poder público e população, cada qual com suas responsabilidades, adotarem as medidas de prevenção de um protocolo já conhecido (ações sanitárias, eliminação de resíduos propícios à proliferação do mosquito etc). Tais iniciativas são, em particular, fundamentais porque o potencial epidemiológico se agrava pela circunstância da chegada do vetor DENV4, praticamente inédito no estado — o que torna quase toda a população fluminense suscetível de contrair a doença. Os números são preocupantes. É preciso que cada um faça a sua parte para contê-los e evitar o flagelo de nova epidemia.