domingo, dezembro 01, 2013

Para crescer, empresas brasileiras cortam R$ 17 bilhões em custos. Já o governo Dilma...

Bruno Rosa 
O Globo

Aperto já atingiu 103 das 305 companhias listadas na Bovespa neste ano, aponta pesquisa

RIO - Com a desaceleração da economia brasileira e as incertezas em relação ao cenário internacional, as companhias brasileiras decidiram apertar o cinto, cortando custos e despesas. De acordo com levantamento feito pela Economatica, a pedido do GLOBO, a redução dos gastos já atingiu 37% das empresas nos nove primeiros meses deste ano. Juntas, 113 das 305 companhias listadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) cortaram R$ 17 bilhões só neste ano.

Mas o número pode ser ainda maior, se levar em conta os planos que estão sendo conduzidos por algumas companhias para evitar a alta dos custos, que não são contabilizados em seus balanços financeiros. É o caso da Petrobras com o Programa de Otimização das Atividades Operacionais (Procop). Neste ano, até setembro, a empresa já deixou de gastar R$ 4,8 bilhões, superando a meta de R$ 3,9 bilhões em economia prevista para 2013. Sem isso, o lucro operacional da estatal, de R$ 26,4 bilhões, teria sido 18% menor.

Especialistas destacam que a redução das despesas envolve uma série de iniciativas como renegociação com fornecedores, revisão das despesas administrativas, menos investimentos e, em menor grau, demissões. José Paulo Rocha, sócio-líder da área de finanças corporativas da Deloitte, lembra que, como havia uma expectativa maior de crescimento da economia, as companhias estão se ajustando:

- Hoje, as empresas não conseguem enxergar um forte avanço da economia e estão replanejando seus investimentos. Por isso, estão postergando aumentos de capacidade e apertando as negociações com os fornecedores, que tentam repassar a inflação nos contratos. Empresas como Vale e Petrobras vêm apostando nesse ajuste e isso é importante, pois essas companhias são as locomotivas do país. Para 2014, essa tendência vai continuar.

No caso da Vale, a empresa conseguiu acumular corte da ordem de R$ 5 bilhões nos nove primeiros meses deste ano. A maior parte da redução, segundo a companhia, veio do recuo dos gastos operacionais, administrativos e de vendas, além de despesas com pesquisa.

- É importante salientar que o corte de custos não se encerrou. Existem muitas iniciativas em andamento que, ao longo do tempo, vão reduzir custos com manutenção de nossas operações, com serviços terceirizados, custos operacionais em geral de minas e plantas e custos de investimentos em projetos. No médio prazo, a lavra de novas minas de minério de ferro e a entrada em operação do projeto S-11D (em Carajás) serão também uma importante fonte de contração de custos operacionais - disse Roberto Castello Branco, diretor de RI da Vale.

Ao lado da Vale, a Petrobras lidera o corte de custos, diz a Economatica. Mesmo com o reajuste de 4% na gasolina e de 8% no diesel, anunciado na última sexta-feira, a estatal, que ainda sofre com a diferença de preços dos derivados comprados no exterior e vendidos no mercado interno, continua vendendo ativos para gerar caixa: até agora, já arrecadou US$ 7,4 bilhões. A estatal destacou que a meta é economizar R$ 34 bilhões até 2016. Em nota, a companhia diz que o objetivo é “fazer mais com os mesmo recursos”.

Segundo Fabio Pires, sócio de Transações Corporativas da EY (ex-Ernest & Young), a principal preocupação passou a ser otimização das operações. Para ele, é hora de “apertar os parafusos”.

- Há uma sensação de que a receita não venha tão forte. Só neste ano vemos essa reação das empresas no Brasil. No exterior, as companhias já estão assim há quatro anos. Aqui, o dólar maior em relação ao real pressiona os custos. Por isso, as empresas estão voltadas para a sua operação, estão olhando internamente, para aumentar a produtividade - disse Pires.

A lista de corte de custos atinge o setor siderúrgico. A Usiminas diz “racionalizar” as despesas. Assim, registrou queda nos gastos administrativos com a diminuição das despesas com pessoal, reflexo da readequação do quadro de funcionários, e revisão de contratos de terceiros. Com isso, disse Julián Eguren, presidente da empresa, a Usiminas “está consolidando uma cultura de maior disciplina operacional e foco em produtividade”. Já a CSN reduziu só no terceiro trimestre suas despesas gerais e de vendas em 17% ante o segundo trimestre.

- As empresas estão muito endividadas e há uma expectativa menor de crescimento. Isso ocorre em diferentes setores como o de alimentos, vestuário, celulose e telefonia, entre outros. Só reduzindo os custos para manter a geração de caixa - diz Pedro Galdi, analista da SLW.

Souza Cruz: otimizar é parte do negócio
A Souza Cruz reduziu as despesas operacionais em 18% no ano, diz a Economatica. Segundo a companhia, “a otimização de custos faz parte do negócio”. Disse ainda que, assim, “mantém seu alto nível competitivo e um bom retorno aos seus acionistas”. O setor de aviação também é lembrado. Eles citam o caso da Gol, que sofre ainda com a alta do dólar e a cotação internacional do petróleo. Em nota, a aérea diz que trabalha para elevar a rentabilidade. Para isso, reduziu a quantidade de voos. Assim, conseguiu diminuir as despesas operacionais e reduzir a dívida líquida em 23,8% no terceiro trimestre deste ano ante ao terceiro trimestre de 2012.

- O setor de aviação como um todo tem sofrido com a alta do dólar e, assim, com a maior pressão dos custos. De forma geral, as empresas do setor têm recorrido ao corte de pessoal para lidar com esse cenário desafiador - disse o analista-chefe da corretora Ativa, Marcelo Torto.

Torto cita ainda a telefonia, destacando os cortes de 6% feitos pela Oi no último trimestre, desde a chegada de Zeinal Bava no comando da tele, em junho. Como já disse Zeinal, recentemente, o momento agora é “fazer mais por menos”.