domingo, dezembro 01, 2013

Mais de 3.700 crianças sírias refugiadas vivem separadas dos pais

Elisa Martins 
O Globo

Acnur divulga relatório inédito sobre condição dos menores sírios na Jordânia e no Líbano
Entre os entrevistados, alguns expressaram desejo de voltar à Síria para lutar no conflito que já dura quase três anos

Divulgação/Acnur 
Noura, de 7 anos, mora no Vale de Bekaa, no Líbano: com uma boneca improvisada
 com um pedaço de madeira, ela diz que sente saudade dos brinquedos e dos amigos que ficaram na Síria 

RIO - Nos acampamentos que abrigam milhões de sírios fugidos de um conflito que já dura quase três anos, mais da metade dos refugiados não tem idade nem condições para suportar uma guerra. São 1,1 milhão de menores deslocados - 75% deles com menos de 12 anos - em campos nos países vizinhos, submetidos a uma situação precária de moradia, estresse psicológico, violência e trabalho precoce. Mais de 3.700 estão desacompanhados ou separados de um ou ambos os pais. A escola não faz parte do cotidiano: estima-se que mais de 200 mil crianças sírias em idade escolar no Líbano permanecerão longe das salas de aula até o final de 2013. Os índices, preocupantes, integram um amplo relatório feito pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) sobre as crianças sírias deslocadas - o primeiro aprofundado sobre o tema desde o início do conflito, em março de 2011.

- Já tínhamos uma ideia do que tem acontecido nos campos de refugiados, mas a pesquisa mostra os dados duros, detalha a situação. O futuro da Síria também está em crise e toda uma geração poderá se tornar vitima dessa guerra terrível - diz ao GLOBO o representante do Acnur no Brasil, Andrés Ramirez. - O relatório mostra o quanto os apoios financeiros internacionais são fundamentais para ajudar essas crianças. Uma coisa é falar que crianças estão sendo feridas na guerra, outra é especificar que, nos primeiros seis meses de 2013, 741 menores sírios refugiados no Líbano tiveram de receber tratamento hospitalar por traumas físicos.


Na Jordânia, mais de mil crianças vivendo no campo de refugiados de Za’atri foram atendidas no ano passado por causa de ferimentos relacionados ao conflito, diz o estudo. A violência também deixa marcas invisíveis. Os responsáveis pela pesquisa alertaram que, em conversas com menores refugiados no Líbano e na Jordânia, alguns expressaram o desejo de voltar à Síria para lutar na guerra.

- É uma questão muito séria, porque o conflito continua lá. Então muitas das crianças ficam preocupadas porque parte de suas famílias permanece na Síria. Elas salvaram suas vidas, mas os parentes continuam numa situação trágica. Por outro lado, ainda há as forças envolvidas na guerra, que estão sempre vendo como recrutar mais contingente para o conflito - comenta o representante do Acnur no Brasil.

Crianças no trabalho
A travessia da fronteira não é garantia de uma vida mais tranquila para as famílias sírias. Segundo a pesquisa, em mais de 70 mil famílias de refugiados são as mães que dirigem os lares, na ausência de uma figura paterna. Em muitos casos, são os menores os responsáveis pelo sustento da casa onde vivem. Uma avaliação feita em 11 das 12 regiões administrativas da Jordânia descobriu que cerca de metade das residências de refugiados pesquisadas dependem parcialmente ou totalmente da renda gerada por suas crianças. De acordo com o estudo, no campo de refugiados de Za’atri, na Jordânia, mais de 680 pequenos estabelecimentos comerciais empregam menores.

Nessas condições, frequentar a escola tem sido um luxo para poucos. Mais da metade das crianças vivendo na Jordânia está fora das salas de aula. No Líbano, estima-se que mais de 200 mil crianças em idade escolar permanecerão longe da escola até o final deste ano.

- Estamos falando de países pequenos, a Jordânia com seis milhões de habitantes, e o Líbano, com quatro milhões, que em pouco tempo receberam um grande fluxo de refugiados. Isso tem um impacto muito grande em seu desenvolvimento, na infraestrutura, e claro, na escola. Já não há como garantir o acesso aos estudos das crianças refugiadas - alerta Ramírez.

Soundos, de 9 anos, foi atingida na cabeça por tiros de metralhadora em junho de 2011. 
Ela e sua família vivem agora em uma barraca no campo de refugiados de Za'atari. 
A bala continua alojada na cabeça da menina, já que removê-la seria um processo muito arriscado.

Sem certidão de nascimento
A pesquisa foi concentrada no Líbano e na Jordânia, dois dos países que mais têm recebido vítimas do conflito: eles contam hoje com 385 mil e 291 mil menores refugiados, respectivamente. Entre as crianças entrevistadas, 29% disseram que saem de casa uma vez por semana ou menos. O que elas chamam de casa, especifica o estudo, “é geralmente um apartamento abarrotado de moradores, um abrigo improvisado ou uma tenda”.
Outro dado preocupante diz respeito às crianças nos acampamentos sem certidão de nascimento. O estudo do Acnur indica que 77% dos 781 menores pesquisados não tinham o documento. Entre janeiro e meados de outubro deste ano, apenas 68 certidões de nascimento foram expedidas no acampamento de Za’atri, na Jordânia.
- Muitas crianças correm grave risco de não poder voltar a seu país, e de se tornarem apátridas. É uma das piores circunstâncias que pode haver porque, sem documento, elas perdem também seus direitos. Há crianças que chegam aos acampamentos muito pequenas, e os pais acham que elas devem ser registradas na Síria. Mas é arriscado - conta o representante do Acnur no Brasil.
O relatório insiste ainda na importância da solidariedade dos países vizinhos e da comunidade internacional para reverter o quadro. E cita os esforços feitos pelo Acnur, Unicef, Save the Children e outras ONGs para que as crianças sírias retomem seus estudos.
- Tem sido feito um trabalho de sensibilização com a população local, em parceria com o Unicef, para reforçar que os refugiados não são criminosos, nem perigosos. São vítimas de um conflito que tiveram que fugir em condições precárias - diz Ramírez.
Em algumas comunidades, crianças sírias refugiadas vão em grupo às escolas para dificultar que sofram bullying no caminho - outro relato frequente no amplo leque de desafios desses menores.