Comentando a Notícia
A imprensa brasileira deu destaque a duas declarações de Joseph Blatter, presidente da FIFA, de tal forma que, a segunda pareceu ser um recuo, quando na verdade não há recuo algum.
Vamos lá. Primeiro, Blatter afirmou, com todas as letras que jamais, desde que é dirigente, e isto começou em 1975, jamais viu tamanho atraso de um país para a realização de obras relacionadas à Copa do Mundo.
Façamos um ato de contrição: onde está o exagero no que afirmou o dirigente? Não são estes atrasos fruto de matérias quase diárias na imprensa do país, há praticamente dois anos?
Aliás, perdoem-me a falta de modéstia, mas fui um dos primeiros a chamar atenção desta realidade. Fiz isto em 2008, 2009 e em 2010, ano este em que o país deu os primeiros passos para cumprir o caderno de encargos que a FIFA impõem aos países que sediarão o Mundial.
Afirmei que o projeto apresentado pelo Brasil para tentar ganhar a corrida, em 2007, não peça de uma peça de puro marketing. Grande parte dos projetos e obras não passavam de pura ilusão, feitos apenas para agradar os olhos, mas distantes daquilo que o país realmente poderia executar e concluir. Tanto é assim que hoje, quase 40% do previsto ou já foi abandonado ou sequer saiu do papel.
E a afirmação de Blatter sobre o tamanho do atraso, não é portanto, nenhum desrespeito para com o Brasil, é apenas uma advertência focada na realidade que se vê, se sente e se percebe no dia a dia.
E é aí que começa o nosso grande erro. Para impulsionar o desenvolvimento, se acreditou que bancar eventos do porte de uma Copa do Mundo faria do Brasil um receptador de muitos bilhões de dólares de investimentos. O diabo é que o ambiente de negócios é muito ruim, e tem se tornado cada dia pior. Em 2010, diante da perspectiva de um retumbante, os tais “bilhões” tiveram que sair dos cofres públicos, mais precisamente BNDES e Caixa Federal, porque do contrário, não conseguiríamos atender as obrigações assumidas. Diante da escassez de recursos fruto da nossa falta de atratividade, precisou o governo brasileiro rever o plano de obras, decidindo por adiar para depois da Copa muito do que estava previsto, cancelar definitivamente outras tantas, e concentrar seus esforços, primeiramente, nos estádios, e depois, em algumas poucas obras realmente indispensáveis, apenas para dizer que cumpriu com o prometido. O fato é, gostemos ou não, o projeto Copa 2014 vai se revelando num imenso fracasso. Podemos até ganhá-la dentro do campo, o que atenuaria a nossa incapacidade de realização fora dele.
A segunda declaração veio na esteira da reação da senhora Rousseff que tentou se justificar afirmando que esta seria a “Copa das Copas”. Se pela desorganização, atrasos e falta de comprometimento, esta será a Copa de todas as copas. Diante disso, Blatter disse que, apesar dos atrasos, sua primeira declaração, acreditava que a Copa no Brasil seria um sucesso. Ora, em momento o presidente da FIFA se contradiz entre as duas declarações. Uma revela uma constatação, a dos atrasos, e a outra traduz mais do que um sentimento, mas uma esperança que ao cabo tudo corra bem.
Nesta altura do campeonato, ninguém mais fala em legado, que legado mesmo, se restringirá a alguns elefantes brancos e as dívidas a serem pagas no longo prazo. Restará, ainda, meia dúzia de obras que, passado o evento, já não mais serão realizadas na urgência inicial, arrastando sua conclusão no tempo e no seu valor a ser acrescido em sucessivos aditivos.
Fica claro, também, que a crítica feita quanto ao exagerado número de subsedes, vai se confirmando. Somente um governo devotado ao populismo rombudo poderia imaginar ser possível bancar , com eficiência, o custo de 12 cidades sedes. Apenas a metade já seria suficiente. Não somente se reduziria o custo total, mas também a concentração de esforços e foco dos investimentos em um número menor de cidades, permitindo realizarmos uma Copa da qual nos orgulhássemos. E orgulho, como se vê, só se concretizará se, dentro de campo, nossa seleção for campeã. Fora dele, haverá muito para nos arrependermos.
Uma última observação: alguém, aí e agora, faltando menos de seis meses para início do evento, saber dizer ao certo o custo total desta brincadeira? Reparem num detalhe: o estádio de Brasília, o mais caro de todos, precisará de alguns “arranjos”, coisa de mais uns cento e poucos milhões de gastos, para arrumar os vazamentos que ocorrem em dias de chuva. E, vale registrar, que o estádio já foi entregue como concluído e sediou jogos da Copa das Confederações em 2013.
Não, ninguém sabe afirmar com exatidão o quanto nos custou, até agora, sediar a Copa de 2014. Talvez nem cheguemos a saber ao certo. E o constrangedor é perceber que as tais obras de mobilidade urbana, além de portos e aeroportos, permanecerão na mesma inhaca de antes. E isto ficou claro nas festas de fim de ano, quando os aeroportos se transformaram no inferno dos infernos. E o que dizer do serviço de péssimo atendimento aos turistas no Rio de Janeiro na passagem de ano?
Portanto, seria muito mais honroso se o país fizesse uma profunda reflexão sobre suas prioridades e parasse de querer bancar algo para o qual ele, definitivamente, não está preparado. Somos ainda um país pobre, com imensas necessidades sociais, com imensas carências nos serviços públicos básicos, com indicadores educacionais vergonhosos e que merecem ser atendidas à frente de qualquer coisa. Enquanto não nos convencermos da nossa própria realidade e não atendermos, primeiramente, todas estas imensas carências, devemos dar às costas para eventos desta grandeza. Chega de mascararmos nossa própria miséria, principalmente as de natureza moral.
Não são apenas as obras da Copa que estão em atraso: todas as obras dos governos petistas padecem do mesmo mal, sofrem com os custos em permanente elevação e ritmo de execução em triste desaceleração. O lançamento de cada obra ou programa é festejado em cerimoniais onerosos cujo único propósito é serem exibidos no horário eleitoral e apresentados nas campanhas de marketing de pura enganação. O resumo desta ópera bufa que se chama governo Dilma é o atraso em que o país vem mergulhando.
E, para encerrar, o que não faltam às oposições, são argumentos e fatos irrefutáveis, e a má organização da Copa é apenas um dentre muitos, para desconstruir a candidatura da senhora Rousseff à reeleição. Conceder-lhe mais quatro anos é conduzir o Brasil para mais quatro anos de mediocridade, farsas, imposturas, mentiras, feitiçarias econômicas e abandono completo daquilo que nos é essencial para sair da pasmaceira em que o petismo colocou o Brasil, deixando completamente travado seu desenvolvimento em todos os níveis. Foram quatro anos de um primeiro mandato em que se teve verdadeiros absurdos em matéria de gestão pública. Havia espaço para a desconstrução. Infelizmente, primeiro, escolheram desconstruir a si mesmos e, segundo, escolheram fazer oposição apenas durante a campanha. Enquanto o governo da senhora Rousseff está hás mais de um ano mergulhada em pré-campanha, a oposição ainda discute alianças, estratégias e discurso.
Portanto, corre o risco de apanhar de novo. Se da eleição presidencial deste ano se pode apontar uma marca esta é a da mediocridade. A da candidata vencedora para mais quatro anos de desgoverno superando a mediocridade de uma oposição covarde e omissa. Sinceramente, não sei o que é pior, porque a democracia só se realiza diante da presença vigorosa da oposição, coisa que no Brasil está se convertendo em entidade fantasma.
Texto da Folha de São Paulo, informou que “...O contraste entre planos para a Copa e realidade não é pequeno...” Precisamente esta foi a grande crítica que fizemos desde o anúncio, em 2007, a qual juntamos a afirmação de que o país tinha outras prioridades mais urgentes para serem atendidas, e nas quais deveria empregar o volumoso dinheiro que iria apenas para atender as exigências da FIFA. Pois bem, ao longo deste tempo, muitos dos que aplaudiram a decisão do governo Lula de investir num projeto megalômano para acolher a Copa, foram se dando conta de que nossas críticas, não apenas eram bem embasadas, mas eram oportunas em face da realidade brasileira.
E o legado disto tudo talvez nem possamos sentir imediatamente após o término do evento. A grande lição que fica é que chegou o momento em que o Brasil terá de escolher entre o secular pão e circo da política carcomida pela imoralidade, e a necessária modernização do Estado onde tamanho nunca foi sinônimo de eficiência. Pelo contrário. Sabemos, hoje, que o governo destinou, entre 2010 e 2013, nas cidades de São Paulo, Rio e Brasília, mais recursos para a construção de estádios do que para a educação. Apenas isto já bastaria para um despertar permanente de consciências. Terá sido suficiente?