quarta-feira, agosto 20, 2014

Clima econômico no Brasil é o pior desde o governo Collor

Toni Sciarretta
Folha de São Paulo

O clima econômico no Brasil está com a pior avaliação desde janeiro 1991, época de hiperinflação e 21 meses antes de o Congresso Nacional afastar o então presidente Fernando Collor de Mello no processo de impeachment.

É o que mostra o ICE (Indicador de Clima Econômico) de julho da FGV (Fundação Getúlio Vargas), um índice mundial feito a partir de pesquisa qualitativa com economistas independentes (não ligados a governos), desenvolvido pelo instituto alemão IFO desde 1989.

Na pesquisa, o Brasil aparece com 55 pontos em julho, a pior avaliação desde os 54 pontos de janeiro de 1991. Indicadores acima de 100 são considerados "favoráveis", indicando expansão e confiança na economia; abaixo desse patamar indicam tendência recessiva. Na avaliação anterior, feita em abril, o país aparecia com 71 pontos.

Segundo a professora Lia Valls, responsável pela pesquisa no Brasil, a deterioração do indicador em julho decorre das sucessivas revisões para baixo do crescimento econômico, das perspectivas de investimento, das contas externas, gastos públicos e da resistência da inflação. "Isso apareceu nas outras pesquisas de confiança na economia como da CNI (Confederação Nacional da Indústria)", disse.

ÍNDICE DE CLIMA ECONÔMICO (em pontos)

PAÍS
jan.13
abr.13
jul.13
out.13
jan.14
abr.14
jul.14
BRASIL
118
111
75
95
89
71
55
Argentina
104
67
72
77
77
75
57
Bolívia
108
107
107
108
124
140
113
Chile
132
127
88
104
104
95
89
Colômbia
106
106
122
113
138
137
131
Equador
80
120
100
100
107
100
73
México
113
114
106
89
103
98
102
Paraguai
140
162
145
128
140
130
105
Peru
140
133
111
119
132
134
112
Uruguai
126
95
105
95
100
109
104
Venezuela
30
28
20
20
20
20
20
América Latina
109
103
88
88
95
90
84
Fonte: FGV

O número é feito a partir de questionários respondidos por economistas. O clima econômico é uma combinação de dois subitens: situação atual e expectativas nos próximos seis meses.

A queda mais acentuada foi da situação atual –o indicador desceu de 68 para 42 pontos de abril para julho, lembrando que a média brasileira nos últimos dez anos era de 121 pontos. Já no indicador de expectativas, o recuo foi menos acentuado: 74 para 68 pontos, enquanto a média em dez anos era de 113 pontos.

A avaliação do mundo como um todo vem melhorando, resultado da retomada das economias americana e asiática (a desaceleração na China foi comedida), além de certa estabilidade na Europa.

Segundo a professora da FGV, o pessimismo no Brasil acelera desde janeiro deste ano passado e "contaminou" a avaliação de toda a América Latina que, com exceção de Argentina e Venezuela, têm indicadores considerados favoráveis. O indicador latino-americano é ponderado pelo peso de cada país no comércio exterior, sendo que o Brasil responde por 23% e o México, por 35%. Chile, Argentina e Venezuela têm 7% cada.