Cássio Bruno
O Globo
Segundo promotora, os dois tentavam provar trabalho que não exerciam na Uerj
André Coelho / Agência O Globo
Deputada Benedita da Silva
RIO — Para justificar os salários que receberam da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) sem nunca terem ido trabalhar, os filhos da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), candidata à reeleição, fraudaram o relatório final de uma pesquisa sobre usuários de drogas supostamente realizada pela instituição. Foi o que concluiu o Ministério Público do estado, que já apresentou denúncia à Justiça.
Pedro Paulo Souza e Silva, de 50 anos, e Nilcea Aldano Pereira da Silva, de 51 anos, viraram réus de um processo sobre o caso na 1ª Vara de Fazenda Pública, em 29 de maio deste ano, como revelou O GLOBO semana passada. Segundo o MP, os dois foram beneficiados irregularmente, entre abril de 2010 e fevereiro de 2011, com vencimentos que somaram R$ 143 mil no período.
Na ação civil pública, a promotora Gláucia Maria da Costa Santana concluiu que os dois filhos de Benedita da Silva não produziram o trabalho com dependentes de crack no bairro do Leme, na Zona Sul, reduto eleitoral de Benedita. De acordo com a promotora, o relatório não possui data, não foi gerado a partir de um processo administrativo formal e não possuía os nomes de Pedro Paulo e Nilcea, entre outras irregularidades.
Nos depoimentos ao MP, Pedro Paulo e Nilcea disseram que passavam todas as informações obtidas no desenvolvimento do projeto para um servidor da Uerj, que seria o responsável para elaborar o relatório final. Para a promotora, porém, criou-se uma “história fantasiosa” para tentar fundamentar o “dano ao erário com o pagamento de remuneração a servidores que não compareciam ao trabalho e não prestavam qualquer serviço à instituição”.
Procurada pelo GLOBO, Benedita da Silva, ex-governadora, irritou-se:
— Não quero falar sobre esse assunto. Não vou ficar alimentando coisas que não vão ajudar a ninguém. Deixa eles (Pedro Paulo e Nilcea) resolverem isso.
Na investigação, o MP ressalta que a deputada do PT fez tráfico de influência para beneficiar os filhos na Uerj, já que a parlamentar é amiga desde os anos de 1970 do reitor Ricardo Vieiralves de Castro, também réu no mesmo processo.
TRÁFICO DE INFLUÊNCIA NEGADO
Benedita negou ter feito tráfico de influência. Pedro Paulo e Nilcea não foram encontrados pelo GLOBO. Já Vieiralves não retornou as ligações.
Os filhos de Benedita são funcionários da Câmara dos Vereadores do Rio desde 1987. Os irmãos foram cedidos à Uerj em 1º de abril de 2010. Os dois foram lotados no gabinete do reitor da universidade, mas admitiram, em depoimento, não saber o nome dele e de servidores que trabalham no local.
Atualmente, Pedro Paulo está lotado na diretoria de material e serviço da Câmara, com salário de aproximadamente R$ 13 mil. Ele entrou de licença especial por nove meses. Já Nilcea aparece como funcionária da diretoria geral de administração da Casa, com vencimento de R$ 11 mil, e está de licença até o fim de outubro.
Em 1992, Pedro Paulo foi acusado de falsificar diploma de nível superior para ser contratado como assessor parlamentar na Câmara. Na época, Benedita, então candidata à prefeitura, disse que desconhecia o fato.
