quarta-feira, agosto 20, 2014

It’s the economy, stupid!… Só falta explicar

Geraldo Samor
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O pai de família Israel Araújo, de 41 anos, trabalha como pedreiro numa cidade de 50 mil habitantes do interior de Minas — o Estado que Aécio Neves governou e de onde, costuma lembrar, saiu com 92% de aprovação.

Em outubro, seu Israel, como é conhecido, pretende votar em Dilma Rousseff. 

“Acho que ela está dando um bom seguimento ao governo do Lula,” disse ele à coluna em duas horas de conversa. “Não é tão bom quanto o do Lula, mas é bom.”

Apesar dos avanços dos outros dois candidatos e de seus próprios tropeços — como sua aparição de ontem no Jornal Nacional — a Presidente Dilma continua sendo a favorita para outubro, evidenciando a dificuldade da oposição em comunicar à maioria da sociedade, com eficácia, os problemas econômicos que se avolumam após 11 anos e meio de PT no poder.

A crítica à política econômica de Dilma é conhecida de quem lê os jornais e paga impostos: a economia cresce quase nada, a inflação está assanhada há anos, o gasto público explodiu, e os empresários só investem se forem ‘loucos’ (segundo um dos mais governistas da classe). Por fim, o partido que está no poder inspira dúvidas sobre seu compromisso com as liberdades individuais, o que afeta o ambiente econômico no longo prazo.

Seu Israel, no entanto, vê a coisa de forma diferente.

A coluna perguntou por que ele aprova o Governo Dilma. Em vez de apontar uma ou outra iniciativa do governo, Israel emitiu um veredito sobre os últimos 10 anos: “O brasileiro hoje come melhor do que uns 10 anos atrás. A alimentação melhorou muito. Antes o café da manhã era só um cafezinho mesmo, hoje já tem pão, leite, manteiga…”

Seu Israel, que mora no alto de um morro na periferia da cidade, tem uma renda mensal de 1.800 reais, além dos 60 reais que recebe do Bolsa Família para um de seus três filhos, a menina de oito anos. (O mais velho já saiu da idade elegível, e o do meio, de 16, foi cortado do programa por não ter ido à escola regularmente).

 Nas eleições majoritárias, a busca da vitória é uma cruzada pelo Santo Gral do Mínimo Denominador Comum e pelo convencimento do “homem médio”, aquele centro de gravidade onde se sedimentam os raros consensos sociais, que então se transformam em mandatos e legitimidade.

Na campanha que elegeu Bill Clinton em 1992, o marketeiro James Carville fez história ao cunhar a expressão: “It’s the economy, stupid!“. Tudo que Clinton tinha que fazer era explorar o PIBinho de George Bush.

Mas com o Brasil ainda próximo do pleno emprego, a inadimplência ainda em patamares razoáveis e os ganhos de consumo da nova classe média ainda criando uma sensação de bem estar, a tarefa da oposição é mais difícil:  falar dos problemas que ainda não estão à vista de muitos — mas que irão complicar a vida de todos a partir do ano que vem.

Seu Israel, o “homem médio” a ser convencido, entende de racionalidade econômica. Antes de se tornar pedreiro, ganhava a vida como pintor, mas resolveu mudar de profissão porque “todo mundo que perdia o emprego virava pintor, e aí não dava pra tirar a mesma coisa que antes”, disse ele. Além disso, a pintura de um apartamento dura apenas alguns dias, enquanto uma obra qualquer o mantém empregado por muitos meses.

Apesar de tomar decisões econômicas racionais, ele não consegue analisar a política econômica sob a mesma ótica.

A coluna perguntou a seu Israel se ele estava incomodado com a inflação e quem era responsável por isso. Sua resposta: “Acho que isso aí são os grandes empresários”. 

Um banqueiro que acredita que Dilma será reeleita diz: “O boom econômico ainda não acabou, pelo menos na cabeça das pessoas. Ela foi eleita pelo boom e vai ser reeleita por isso. Você tem uma deterioração [da economia], e quem é mais sofisticado vê isso, mas essa piora ainda não é determinante para o povão.”

A cabeça do seu Israel é, assim, o campo de batalha onde as chances de vitória da oposição exigem o melhor do marketing político.

Como converter o voto deste brasileiro médio, mais decisivo para o resultado das urnas do que os partidários que fazem a guerrilha diária nos blogs, no Twitter e no Facebook?

 Como mostrar para seu Israel que o bem-estar que ele sente hoje foi comprado com uma hipoteca sobre o futuro — e, pior, que a conta está prestes a chegar?

Como falar para este trabalhador sobre os esqueletos dos juros subsidiados, a distorção de preços que existe hoje na economia, como explicar que a inflação já está fazendo o trabalho que as políticas fiscal e monetária não fizeram, e que, se o rumo atual for mantido, sua renda amanhã será menor que a de hoje?

Os economistas sempre disseram que a grande dúvida desta eleição é se a economia vai enfraquecer rápido o suficiente para expor as más escolhas econômicas do Governo Dilma, e com isso virar o jogo… ou se a Presidente vai escapar por pouco.

Com as últimas pesquisas e o ‘fenômeno Marina’, muita gente já acha que a Era Dilma está chegando ao fim, mas, por via das dúvidas, convém combinar com seu Israel.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

No texto, muito bem exposto por sinal, há um aspecto que até pode passar despercebido pelo leitor menos atento, mas convém grudarmos nele por ser elemento chave nesta eleição, como também o mesmo fator pesou em 2006 e 2010. Vejam lá: o senhor Israel tem uma renda de R$ 1.800,00, ou quase três salários mínimos. Ou seja, uma renda média superior a um grande lote de brasileiros que trabalham. Mas, mesmo assim, ele recebe um “bolsa família” de R$ 60,00. Se o filho do meio, não tivesse deixado de frequentar (por que deixou?) de estudar, e seu Israel receberia duas bolsas.  É claro que só a renda mensal, já seria possível manter a família com café da manhã com pão e leite. Talvez a renda não pudesse cobrir alguns outros gastos, não tão essenciais, mas para o básico, certamente, ela cobriria. Mas ele ganha “bolsa família” e isto faz muita diferença na cabeça das pessoas.

Outro aspecto que se extrai do texto do Geraldo, é que cerca de 2/3 da população brasileira convergem em duas formações deficientes: a educacional, quando o indivíduo tem pouco discernimento de questões de economia, por exemplo, e a de informação, derivada da deficiência educacional. Assim, este enorme contingente de pessoas – são muitos milhões – não pensa além do vencimento da última prestação a pagar. Para eles, pouco importam as dificuldades que advirão de um governo medíocre que comprometeu oi futuro do país com escolhas ruins. A exemplo do senhor Israel, os culpados da inflação são os empresários e não o governo que gasta mais do que arrecada. Para ele que, provavelmente, tenha uma formação escolar deficiente, serviços como educação, saúde e segurança não são questões aflitivas.   Na saúde, por exemplo, enquanto ele não tiver que penar para buscar assistência a ele próprio ou um dos seus, vendo  pessoas nas portas dos hospitais desesperadas tentando ser atendidas, ou até requerendo na Justiça o direito à uma internação, a questão não existe. 

Esta gente toda se acostumou nos últimos anos a viver precariamente, mesmo que com menos dificuldades do que no passado. São pessoas limitadas em seus anseios. Somente despertarão para a dura realidade que as aguarda quando esta, de fato, lhes bater à porta.  O discurso terrorista pregado pelos petistas de que as oposições, se eleitas,  suprimirão direitos e programas sociais tem um peso enorme.

Seu Israel tem trabalho hoje, para ele isto é o que mais importa, mesmo que amigos e vizinhos seus que trabalham na indústria estejam sem ocupação. Mudar este quadro, que é cultural também, não é tarefa das mais fáceis. O discurso para derrubar o muro da ignorância e da desinformação precisa de muito mais do que aquele que a oposição tem oferecido. Para qualquer pessoa mediamente formada e informada, é indiscutível avaliar o governo Dilma como medíocre. ele é. Algumas das escolhas feitas nestes últimos quatro anos, no plano econômico, são bombas relógio que irão explodir no futuro próximo.  Porém, pessoas como o senhor Israel não tem este alcance de consciência. Para eles, o importante é apenas o presente, e isto por ora está garantida relativa segurança, muito embora esta relativa segurança não tenha suas raízes fincadas pelo petismo, mas foi este partido que melhor soube vender seu peixe, mesmo que tenha roubado a isca, a vara e o anzol do vizinho.