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Torturador, assassino, covarde e ladrão. Os adjetivos adornam, à perfeição, a personalidade sinistra do general Augusto Pinochet, sanguinário ditador do Chile (1973-90), quando assumiu o poder depois de chefiar golpe militar que derrubou Salvador Allende (1970-73). Pinochet morreu domingo.
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Mas, responsabilizá-lo sozinho é conferir crédito além da medida a um facínora que jamais conseguiria se movimentar além da extensão dos cordéis manipulados por seus patrocinadores, à frente os EUA.
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É como dizer que Adolfo Hitler é o único culpado pelas atrocidades cometidas contra o povo judeu, durante a Segunda Guerra Mundial.
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Ou afirmar que a chacina ora cometida contra a população civil iraquiana, na mutilação e extermínio indiscriminado de homens, mulheres e crianças (por conta de milhares de bombas despejadas sob as ordens do presidente norte-americano, George Bush), deve-se, tão-somente, a crimes anteriores praticados por Saddam Hussein.
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Quando ainda se respirava o ar da chamada guerra fria, tudo se permitia para impedir o avanço de ideologias estranhas no quintal de cada qual. No “bloco comunista”, a extinta União Soviética cuidava de seus interesses com mão de ferro, ameaçando e invadindo países satélites que rejeitassem seguir sua cartilha..No bloco ocidental (sob disfarce de sistema democrático cuja representação se conquista a peso de ouro), nuvens negras se abateram sobre o continente sul-americano (no final dos anos 60). Mesmo com a “redemocratização” do poente do século, os crimes cometidos permanecem impunes, com a hipocrisia emitindo sinais de vitória.
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O então deputado federal Chico Pinto, em 1974, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal e preso por seis meses (com base na Lei de Segurança Nacional), por ter feito discurso na tribuna onde chamou Pinochet de “assassino”..O parlamentar não sabia que o general era também ladrão. No ano de 2004, o Senado norte-americano revelou contas secretas mantidas por Augusto Pinochet nas instituições financeiras da terra do Tio Sam, nas quais milhões de dólares circularam.
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E o ex-ditador, recentemente declarado “demente” pela (in) justiça de seu país, foi reabilitado judicialmente como “são”, sem sofrer embora qualquer condenação por crimes cometidos.
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Hoje, ainda se aguarda a reforma daquela sentença esdrúxula, depois de confirmada a veracidade das palavras de Chico Pinto.
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Hoje, ainda se aguarda a reforma daquela sentença esdrúxula, depois de confirmada a veracidade das palavras de Chico Pinto.
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É um mundo louco esse em que o único animal aparentemente capaz de raciocinar insiste em aprimorar estratagemas e esquemas com a finalidade única de subjugar o semelhante. As religiões pregam a paz, mas seus seguidores agem com violência. As instituições, de maneira geral, vão em sentido contrário às proposições.
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O que se percebe no mundo todo é o Estado ser conduzido por quadrilheiros que pregam determinadas regras, mas seguem na direção oposta. Eles nada têm a ver com os ditos representados, pois alcançam o poder depois de tantas manobras e circunvoluções que nada mais resta da identidade original.
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Nos anos de chumbo das ditaduras no nosso continente, a maioria dos militares foi confundida e usada pela mesma inteligência manipuladora que elegeu o lucro como deus supremo, sem se importar com os desastres causados. Mudam-se as máscaras, os objetivos permanecem.
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O general Augusto Pinochet foi apenas uma pequena peça na aviltante engrenagem da miséria humana. A existência nos condena a tal degradante convivência.
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Márcio Accioly é jornalista.