sábado, dezembro 16, 2006

O sumiço do comandante

Por Augusto Nunes
Coisas da Política - JB

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A habilidade em lidar com o mau tempo transformou Luiz Inácio Lula da Silva no Grande Timoneiro do PT. O apreço por tempestades desapareceu com a promoção a comandante da nau do Planalto. O clarão do primeiro relâmpago o emudece. O estrondo do primeiro raio o impele a recolher-se à cabine do capitão e ali ficar enfurnado até que a tormenta amaine. Só então se ouvirá de novo o falante compulsivo.
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Encerrado o sumiço, dirá que não foi informado a tempo da iminência do temporal. Que não o alertaram para o conteúdo perturbador das previsões meteorológicas. Que não ouviu a trovoada. Que a rota foi traçada por tripulantes aloprados. Que é ocupado demais para prevenir trapalhadas do imediato, do ordenança e do grumete.
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Em casos especialmente complicados, trata de atirar às ondas algum velho companheiro, e viagem que segue. Os insatisfeitos que se queixem ao capelão. O capitão sempre reassume o leme com a expressão beatífica de quem não terá contas a ajustar no dia do Juízo Final.
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Adotado na chuvarada do mensalão, o truque funcionou razoavelmente. Reprisado à exaustão nestes quatro anos, livrou Lula de exposições constrangedoras e permitiu-lhe prolongar até 2010 a permanência no posto. É compreensível que o comandante tenha recorrido à mesma tática para contornar o apagão aéreo, cujas turbulências afligem há quase 50 dias multidões de brasileiros.
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Nesse período, pediu votos para o amigo Hugo Chávez, fez cafunés no meninão Evo Morales, descansou numa praia, jogou conversa fora com o terrorista em recesso Muammar al Khaddafi, passou pitos no PT, adulou o PMDB, brincou de presidente eleito entretido na montagem do novo ministério.
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Sobre a conflagração nas áreas de embarque, nenhuma palavra. Mas o chefe só pensa nisso, juram assessores. Em encontros reservados com ministros de estimação, critica os ausentes, exige explicações sobre a imensa confusão, cobra respostas claras e providências urgentes, estabelece prazos improrrogáveis. Faz e acontece. De vez em quando, sublinha manifestações de impaciência com socos na mesa. O homem está indignado, informam jornalistas federais.
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Indignados estão centenas de milhares de passageiros insultados pelo triunfo da incompetência. Lula deveria estar é envergonhado com o que fez e faz. "Quem decide os rumos da política econômica sou eu", avisou quando o ministro Tarso Genro anunciou "o fim da era Palocci". Foi ele, portanto, quem resolveu sacrificar investimentos essenciais no altar do superávit primário.
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Desta vez, só colunistas de aluguel ousam atribuir culpas à herança maldita produzida por FH, o Grande Satã. Lula atolou no próprio legado. Desde 2003, o governo reduziu dramaticamente despesas com estradas, portos, rodovias, ferrovias, hidrovias. Há pelo menos três anos, autoridades minimamente sensatas advertem a cúpula do governo para a erosão do sistema de controle de vôos. Os donos do dinheiro resolveram desperdiçá-lo em obras cosméticas e bijuterias arquitetônicas. Deu no que deu.
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Lula já percebeu que o truque agora não funcionou. Terá de explicar-se ao país. O problema é que não sabe o que dizer.