sábado, dezembro 16, 2006

Eles são tudo de bom

Por Percival Puggina, para jornal Zero Hora
.
Acabo de ler um livro recém lançado na Itália, país onde vários setores de atividade estão sendo afetados pelo furacão chinês. O autor de "Chi ha paura della Cina" ("Quem tem medo da China"), Francesco Sisci, é um jornalista nascido na Puglia, que há mais de duas décadas decidiu mudar-se para Beijing. Lá, além de correspondente da Stampa, tornou-se o primeiro estrangeiro a integrar a Escola Superior da Academia Chinesa de Ciências Sociais. Pode-se questionar os conceitos que inspiram a obra, mas não parece sensato duvidar das informações que presta. O livro, cujo título contraria o texto, é assustador, pois mostra que está em curso um processo de transformação global como os que sucederam ao desmanche do Império Romano, às Grandes Navegações e à Revolução Industrial. Com a enorme diferença de que transcorre num mundo muito mais populoso, menor e veloz.
.
Sisci sustenta a idéia de que Mao foi uma bênção para o Ocidente. Em 1949, observa ele, os PIB da China e do Japão se equivaliam. Um quarto de século mais tarde, graças ao comunismo, o PIB chinês era uma nona parte do japonês. Houvesse evoluído no ritmo de Taiwan, por exemplo, já em fins dos anos 70 a economia chinesa teria superado a norte-americana e é inimaginável o que teria ocorrido com a geopolítica planetária. Pois é exatamente isso que vem por aí. Estima-se que dentro de 14 anos, mantidos os ritmos atuais, a economia chinesa alcançará um porte igual à ianque, e manterá um potencial de crescimento muito superior: 80% do atual PIB chinês é produzido por 400 milhões de trabalhadores, mas o país tem um bilhão na fila de espera. E a Índia entrou na mesma balada, com suas taxas avançando de modo consistente, já se aproximando dos 10% anuais, e se perfilando como potência produtiva e consumidora. A Índia, caro leitor, chegará à metade do século com dois bilhões de habitantes. E nesse momento – se as coisas andarem bem no Ocidente – a Ásia responderá por bem mais de dois terços do PIB do planeta.
.
No início deste milênio, dizia-se que o futuro da economia mundial se inclinava para um bloco que recebeu a alcunha de BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China). Dos quatro, o Brasil é o único que ficou parado no box porque marcou encontro com o passado. E compareceu. Nos últimos seis anos, enquanto a economia chinesa dobrava de tamanho, a nossa avançou esquálidos 17%. Lula pede que não lhe perguntem como isso vai mudar e Fernando Henrique Cardoso arruma o nó da gravata para seu quarto mandato.
.
Estou exagerando? Leia em ZH da última terça-feira, página 20, a matéria sobre os países em desenvolvimento. Ali poderá ver, em números, o que nos separa das potências mundiais emergentes. Só faltaria acrescentar que chegamos ao fim de 2006 crescendo, outra vez, menos de 3% (e apenas 0,5% no último trimestre). Mas convencidos de que Mao, Lênin, Che, e seus discípulos Chávez, Evo e Lula, são tudo de bom.