sexta-feira, dezembro 01, 2006

Nem o Mandrake

Por Carlos Chagas, na Tribuna de Imprensa
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BRASÍLIA - Os mais velhos lembrarão do Mandrake, herói das antigas histórias em quadrinhos, aquele que combatia os criminosos através de gestos hipnóticos, usava fraque e cartola e era acompanhado pelo Lothar, no começo um escravo beiçudo que falava errado, mas nos anos finais transformado em príncipe etíope de ampla cultura geral.
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Pois é. Nem o Mandrake daria jeito na confusão feita pelo presidente Lula na noite de terça-feira, em discurso que passou meio despercebido pelo avançado da hora, na posse de Armando Monteiro Neto para mais um mandato na Confederação Nacional da Indústria. Irritado com o discurso do anfitrião, Lula improvisou criticando a imprensa, "que só divulga desgraceiras", os adversários políticos, "que aprovaram o décimo-terceiro salário para o Bolsa Família" e, em seguida, o empresariado, ao enfatizar "que só um bando de mágicos seria capaz de encontrar mecanismos para fazer a economia do País voltar a crescer".
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Governo anda em círculos
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Insurgiu-se contra seu governo ao apontar como entraves que prejudicam o crescimento a Lei de Responsabilidade Fiscal e a meta do superávit primário, esquecido de que o PT apoiou a lei, no período FHC, ou de que foi sua equipe a responsável pela elevação do superávit primário para 4,75% do PIB.
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A confusão foi geral, na frente de governadores, parlamentares, ministros e industriais. A postura do presidente não deixava dúvidas de sua irritação. Diversas vezes deu socos no ar, ficou vermelho e queixou-se da volubilidade dos políticos. Só não explicou por que não manda reduzir os índices do superávit primário nem enviou projeto ao Congresso reformulando a Lei de Responsabilidade Fiscal. Como também preferiu ignorar as exigências de Armando Monteiro Neto pelas reformas tributária, trabalhista, previdenciária e política.
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É claro que o empresariado quer pagar menos impostos. Como também deseja desonerar as folhas de pagamento, ver reduzidos os benefícios da Previdência e aprovados o financiamento público das campanhas eleitorais, a fidelidade partidária, a reeleição e a votação em listas partidárias. À exceção da reeleição, as demais são elitistas.
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O presidente relutou em criticá-las, ainda que no mesmo dia confuso da posse na CNI tenha recebido o PDT e prometido que não se mexe na Previdência para prejudicar os trabalhadores e os aposentados. Lembrando o saudoso senador Vitorino Freire, a situação está "de vaca não conhecer bezerro". O presidente lamentou que há vinte dias não faz outra coisa senão discutir como destravar o País, mas, pelo jeito, seu governo anda em círculos, feito peru às vésperas do Natal.
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Pandemônio
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As águas de março chegaram em novembro, levando o caos ao Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Como não dá para impedir a chuva, a solução seria as prefeituras, os governos estaduais e a própria União juntarem esforços para ampliar galerias pluviais, limpar rios e organizar a coleta do lixo de modo a não deixá-lo amontoado nas ruas. Como essas obras pouco aparecem e não rendem votos, vêm sendo sistematicamente proteladas.
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O resultado aí está: populações inteiras em pandemônio, transporte sem funcionar, tráfego parado, enchentes destruindo casas e prejuízo para todos. O remédio é olhar o céu e rezar para que São Pedro contenha a mania de limpar o Brasil com água. O diabo é que o próprio poderá sugerir que se limpe com fogo...
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Espelho
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A fisionomia do senador Jefferson Peres disse tudo, na reunião do Conselho de Ética do Senado, antes mesmo da absolvição do senador Ney Suassuna da acusação de ter recebido R$ 222 mil da família Vedoin. Decisões parlamentares são para ser cumpridas, ainda que possam ser discutidas, ao contrário das tomadas pelo STF. Como relator do processo contra Suassuna, Peres sabia que teria seu parecer rejeitado. Opinou pela cassação do mandato do colega conhecendo o voto contrário da maioria dos companheiros.
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Mesmo assim, não recuou e sustentou o relatório. Era, no entanto, a imagem da frustração. Seu rosto era o espelho de sua alma. Com todo o respeito e sem a emissão de juízos de valor sobre a decisão do Conselho de Ética, fica a dúvida, acrescida pela absolvição, também, da senadora Serys Schlessarenko e do senador Magno Malta: em conjunto, Suas Excelências estarão acima do bem e do mal, imunes, apesar de isoladamente poderem ser absolvidos por falta de provas?