sexta-feira, dezembro 01, 2006

Previdência, uma reforma absurda

Pedro do Coutto, na Tribuna da Imprensa

Reportagem da jornalista Suely Caldas, no "O Estado de S. Paulo" de 26 de novembro, revela que a Confederação Nacional da Indústria, a Confederação Nacional do Comércio, a Confederação Nacional da Agricultura, a Federação Brasileira dos Bancos, além da Federação Nacional das Empresas de Seguro prepararam um projeto de reforma da Previdência Social. Mais um a propor cortes de direitos legítimos.
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Desinteressadamente, estas entidades patronais oferecem a iniciativa ao governo Lula. A Comissão de Valores Mobiliários, vinculada ao Ministério da Fazenda, não sei porque, entra na história e assina o estudo. Para surpresa geral, a idéia de "reforma" tem o apoio da CGT e da Força Sindical. A CUT, pelo menos isso, rejeitou a iniciativa. A proposta, clara como água, é conservadora, restringe direitos. Para início de conversa, fixa a idade mínima para aposentadoria, tanto de homens quanto de mulheres, em 67 anos.
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Em segundo lugar, iguala o regime dos funcionários públicos aos dos trabalhadores particulares. Terceiro: fixa o teto de contribuição, portanto o da aposentadoria e pensão, em 2.801 reais aos preços atuais. Hoje, o teto da aposentadoria dos empregados particulares é de 3 mil e 500 reais, dez vezes o salário mínimo. Em quarto lugar, reduz a contribuição dos segurados da média de 10 por cento sobre o teto (3.500 reais) para 7 por cento. Mantém a dos empregadores em 20 por cento sem limite.
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Finalmente, numa quinta escala, o absurdo dos absurdos: desvincula o reajuste dos aposentados do INSS do salário mínimo. Como? Impossível. Atualmente 75 por cento dos 24 milhões dos aposentados e pensionistas do INSS recebem o salário mínimo. Não há como, em relação a estes, fazer a desvinculação.
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Só através de emenda constitucional estabelecendo que o salário mínimo para os trabalhadores em atividade não vale para os inativos. Quanto aos 25 por cento restantes, os que ganham acima do piso, estão desvinculados do mínimo desde o governo FHC, portanto há doze anos. Um desastre, aliás. Quem se aposentou recebendo 10 salários mínimos, por exemplo, hoje recebe apenas sete pisos.
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A simples colocação da hipótese de separar o salário mínimo do reajuste dos aposentados e pensionistas acentua um desconhecimento total dos autores do projeto sobre o que são a Previdência e a Seguridade Social. Não sabem sequer separar o sistema previdenciário dos trabalhadores particulares do regime dos servidores públicos. O que está por trás da proposta oferecida?
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Ela visa nitidamente fazer a propaganda da previdência privada e coloca restrições para pretensamente reduzir despesas. Mas não revela a menor preocupação em elevar a receita, combater as fraudes em série que se verificam no INSS, diminuir fortemente a sonegação. Por que a sonegação não preocupa?
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Um mistério. Há preocupação, isso sim, em condicionar o direito da aposentadoria à idade. Os autores citados por Suely Caldas não entendem nada e confundem tudo. Vamos por partes. Como igualar os regimes do INSS com o dos funcionários públicos? As contribuições são completamente diferentes.
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Os empregados particulares contribuem mensalmente com a média de 10 por cento sobre os salários, até o limite de 3 mil e 500, pagando portanto 350 reais, no máximo. Os servidores públicos contribuem com 11 por cento sobre seus vencimentos, sem limite. Contribuições diferentes não podem conduzir ao mesmo resultado, é claro. No caso dos empregados particulares, as empresas recolhem não 20, mas 22 por cento sobre a folha de salários, sem limite.
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São os empregadores que sustentam praticamente 80 por cento do INSS. No caso do funcionalismo federal, estadual e municipal, os poderes públicos não entram com nada. Pelo fato de pagarem 11 por cento sobre o que ganham, os servidores têm direito à aposentadoria integral. Quando falo em servidores, incluo os civis e os militares.
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De uns tempos para cá, tecnocratas tentam apontar a existência de um déficit na Seguridade Social. É falso. Para chegar a este raciocínio, misturam as despesas do INSS com a relativa às aposentadorias pagas pelo Tesouro. Estas, no plano federal, somam um terço da folha de vencimentos que se eleva a 107 bilhões de reais. Aparece então o falso déficit.
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Os tecnocratas não levam em conta as contribuições de 11 por cento. O que os governos fazem e fizeram deste dinheiro? A resposta só pode ser uma: usaram para pagar parcialmente aos bancos os juros (179,5 bilhões por ano) que o governo paga à rede bancária para rolar a dívida interna. Mas o pagamento de juros não preocupa a CNI, a CNC, a Fenaseg, a CNA, muito menos - é óbvio - a Febraban. A preocupação concentra-se nos salários dos aposentados e pensionistas. Incrível.
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Finalmente, os reformadores previdenciários defendem o limite de idade. Não existe nada mais antidemocrático do que isso. Por uma razão muito simples. As pessoas de classe média começam a trabalhar em torno dos 20 anos de idade. As pessoas pobres aos 15 anos. Como se constata, a exigência do limite de idade faz com que os pobres tenham que recolher suas contribuições durante mais tempo do que os da classe média para assegurar o mesmo direito. Um absurdo.
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Os autores do "projeto" esquecem o essencial: a Previdência e a Seguridade arrecadam em cima das folhas de salário. Portanto, suas receitas dependem da expansão do mercado de trabalho e dos vencimentos não perderem para a inflação. Caso contrário, não há saída. Só a retomada do desenvolvimento econômico pode sustentar tanto a Previdência quanto a própria existência humana.