quarta-feira, janeiro 03, 2007

Dialética da empulhação

Por Reinaldo Azevedo
.
Abaixo a pasmaceira! Também na política. Não é só a economia que vive assaltada (às vezes, literalmente) pela falta de imaginação. O debate de idéias também está de pé descalço. As duas realidades se conjugam. Os nossos “conservadores”, como escrevi ontem, acreditam ser possível um lulismo sem Lula. Por isso boa parte das oposições faz um discurso que gira em falso. Ora, se você acredita que Lula está certo nos fundamentos, trocar por quê? Se é assim, deixe o homem trabalhar... Essa conversa de evitar a crítica para “colaborar com o Brasil” é má-fé, cálculo político ou ausência do que dizer.
.
O que Lula e o PT pretendem? Naturalizar, por assim dizer, as suas escolhas econômicas e políticas, como se tivessem caído, a exemplo do que observou Serra em um de seus discursos, da árvore dos acontecimentos, da árvore da vida. De sorte que se opor a eles corresponderia a atuar contra o Brasil e contra o bom senso. É o que também desejam muitos “especialistas” em economia, descontentes, eventualmente, apenas com o manejo pouco sustentado que Lula faz da gramática. Ou com seu desassombro nas políticas assistencialistas. Ou com a pouca qualidade dos gastos públicos.Corrigidas essas distorções, tudo estaria bem.
.
Pois é. Não estaria. E por isso saudei e saúdo a fala de Serra: quando menos, pode romper o represamento do debate. É claro que não dá para ficar esperando um discurso por dia contra a política econômica ou em defesa de um outro padrão ético na vida pública. Mas já deu para perceber, até pela reação dos petistas (ver abaixo), que está criado um outro pólo que pode aglutinar idéias. Para 2010? É evidente que sim. Afinal, o Brasil não acaba até lá. Mas a questão do crescimento econômico, ou da virtude da estabilidade com o vício da estagnação, é pra já.
.
Os petistas reagiram com a prepotência habitual. Tarso Genro resolveu pescar em águas turvas e fazer futrica no ninho tucano. Segundo ele, Serra está se posicionando para um embate com Aécio Neves. Trata-se de uma simplificação um tanto rasteira para quem ambiciona vôos teóricos, mas ainda, vá lá, está fora do campo da delinqüência intelectual. Esta ficou mesmo por conta de Marco Aurélio Garcia, que jamais deixa de cavalgar o corcel da tolice. Segundo ele, o discurso do governador demonstra que o PSDB se tornou o partido da direita.
.
Não satanizo palavras, como vocês sabem. Segundo os meus valores, “direitista” pode ser um adjetivo muito menos ofensivo do que “esquerdistas”. No mínimo, você tem menos cadáveres a arrastar história afora. Mas o ponto não é este. MAG está é fazendo chicana. Ao se referir à “direita”, busca desqualificar a crítica com uma palavra-caixa, posta em circulação para assustar. Por oposição, então, Lula representaria uma esquerda que, na versão petista, é a encarnação do bem, da virtude, da justiça social, tudo devidamente monopolizado pelo petismo.
.
O segredo deste discurso, então, “esquerdista”, “progressista” ou o que seja é o conservadorismo bocó de Lula na economia, o que tem pacificado, silenciado e, sobretudo, remunerado aquelas que seriam as bases sociais naturalmente opostas a um governo de esquerda. MAG está fazendo uma piada, e ele sabe disso. Os setores que, em qualquer país do mundo, têm afinidades com a direita econômica estão com Lula e apoiaram vivamente a sua reeleição. E não dão a mínima para o viés autoritário do governo ou para o seu lixão ético. Fingem acreditar, a exemplo do Babalorixá, que ética mesmo é “promover a igualdade”...
.
Ora, quando surge um discurso que rompe com essa dialética da empulhação, o petismo fica nervoso. A pasmaceira econômica e política é hoje o maior ativo de Lula.