quarta-feira, janeiro 03, 2007

Hipocrisia, não

Fabio Grecchi, na Tribuna da Imprensa
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Ser humano é ser, principalmente, contraditório. Vários foram os países que se manifestaram contrários à execução de Saddam Hussein, apesar de todos os males que ele causou. Não que a Lei de Talião seja a solução para os conflitos morais e filosóficos dos homens, mas fica difícil acreditar que haja outra maneira de punir tamanha reencarnação do mal. Quantos anos o ex-ditador ficaria preso caso fosse condenado à pena perpétua? Difícil prever, mas os curdos e os xiitas que matou com requintes de sadismo - além de milhares de outros civis ou adversários políticos - não tiveram a mesma chance. Não cometeram crime algum, a não ser pertencer a outra etnia ou uma facção islâmica que não a sunita.
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As manchetes dos jornais alardearam, quando Augusto Pinochet morreu depois de viver protegido por leis que fez em favor próprio e por um Estado que ainda teme seus seguidores, que o ex-ditador não pagou por seus crimes. Ficou a impressão de que devemos sempre confiar na Justiça divina - ainda que isto seja verdadeiro -, pois a dos homens é, por vezes, incapaz. Então, para que serve? Acaba se tornando uma instituição vazia, sem sentido, se os criminosos, os facínoras deixam de enfrentar o tribunal composto por seus iguais.
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Dos chefes nazistas, Adolf Hitler, Josef Goebbels, Heinrich Himmler e Hermann Goering escaparam colocando fim à própria vida. Jamais se saberá o que teriam a dizer num tribunal, provavelmente o de Nuremberg. Pode ser que se acovardassem e negassem as monstruosidades que cometeram, como Hans Frank, Wilhelm Keitel ou Robert Ley, mas pode ser que desafiassem, rejeitassem a autoridade do julgamento. Como Saddam fez.
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A Justiça é sempre a dos vencedores, em qualquer processo político ou pós-guerra. Daí que seria ingenuidade acreditar que o ex-ditador teria um julgamento justo. Jamais, como os nazistas não tiveram, como Nicolae Ceausescu não teve, como Slobodan Milosevic não tem. Mas, pelo menos, não ficaram incólumes como Pinochet, Stalin, Pol Pot, Mobutu, Idi Amin, Francisco Franco, Stroessner, Papa e Baby Doc. A lista de criminosos que escaparam, numa gargalhada final e estridente na cara da humanidade, é vasta.
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Se Saddam vai se tornar um ícone, um mártir, é muito mais por causa do envolvimento dos Estados Unidos na questão e por puro oportunismo político de alguns chefetes religiosos islâmicos, que vão se aproveitar da situação para galvanizar o apoio de massas de ignorantes em favor da causa antiamericana e antiocidental. No Irã, muçulmano e xiita, dificilmente o ex-ditador iraquiano passará à condição de símbolo.
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E alguém tem dúvidas sobre a ascendência de Teerã sobre o Hamas, o Hizbollah e a Jihad Islâmica? Os ditos líderes muçulmanos que protestaram contra a morte de Saddam o fizeram porque temem, um dia, estar na mesma condição. O que esperar dos talibãs a não ser que se movimentassem no sentido contrário ao da Justiça? Ou será que a memória de todos é tão seletiva assim a ponto de esquecer o que havia no Afeganistão, com mulheres, meninas, crianças, tratadas de maneira pior que a um animal?
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Saddam já foi tarde. Quero, sim, que os genocidas respondam pelos seus crimes e paguem a pena a que forem condenados. Deixo para Deus a grandeza de uma Justiça que os facínoras jamais tiveram.
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Mudou o Natal
O prefeito de Niterói, Godofredo Pinto, não se reelege mais, porém está perdendo preciosos votos em favor do candidato que lançar à sua sucessão. Ele e mais uma turma de gente endinheirada levam suas fabulosas motocicletas, todos os sábados, para um estabelecimento chamado Empório Icaraí, bem no coração do bairro do mesmo nome. Ali, entre goles da melhor Paraty ou de cervejas importadas, tiram a paciência dos moradores vizinhos com conversa alta e demonstração de potência das máquinas que pilotam. Sem contar que com elas tomam toda a calçada.
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E pensar que Godofredo foi um simples professor, proprietário de um pouco vistoso Lada vermelho.
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Passado a limpo
O Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) promove a partir deste ano o primeiro censo para avaliar benefícios por invalidez. O objetivo é que 2,8 milhões de segurados passem por nova perícia médica. Será feita uma reavaliação das condições de trabalho dos beneficiados com aposentadorias deste gênero. Aqueles que podem se locomover, receberão em casa convocação do INSS marcando hora e local da consulta. Além disso, técnicos do Instituto visitarão cada residência quando o aposentado tiver dificuldade de se locomover ou não possa andar.
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Segundo o diretor de benefícios do Ministério da Previdência Social, Benedito Brunca, o censo possibilitará a redução dos gastos previdenciários. A medida evita que não ocorra aquele caos da gestão de Ricardo Berzoini, que obrigou os idosos a comparecer aos postos do INSS para confirmar que não eram fantasmas.