quarta-feira, janeiro 03, 2007

É hora de trabalhar

Editorial Jornal do Brasil
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Apesar de alguns chavões e das vagas mensagens que habitualmente integram seu arsenal retórico, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva exibiu, no discurso de posse, sinais relevantes de que tem condições de aplacar as inquietações sobre os próximos quatro anos. Suspensas, por ora, as manifestações de ceticismo em relação ao governo e com a torcida de que seja correspondida a confiança nele depositada pela população, é possível iniciar o quadriênio com alguma dose de esperança. Lula terá menos tempo para cumprir o que de mais substancioso prometeu - o desenvolvimento com inclusão social.
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Numa das passagens mais importantes do discurso, o presidente disse que "o Brasil não pode continuar como uma fera presa numa rede de ação invisível - debatendo-se, exaurindo-se, sem enxergar a teia que o aprisiona". Sublinhou que "acelerar, crescer e incluir" vão reger o país nos próximos quatro anos. Pregou "pressa, ousadia, coragem e criatividade". Assegurou que o desenvolvimento com inclusão social demarcará as mudanças da nova fase de seu governo.
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São diagnósticos corretos. Entre o desejo, a ação e as conquistas, no entanto, ainda há um vasto hiato a preencher. Terá o Palácio do Planalto condições de enxergar de fato a teia que continua aprisionando o país? O presidente repetiu a convicção demonstrada antes, durante e depois da reeleição sobre os fins a atingir. Promete perseguir um crescimento mais acelerado, com acentuada redução das desigualdades sociais e regionais. Mas os meios dependerão da eliminação das zonas cinzentas que ensombrecem o futuro.
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Há dúvida se o presidente terá coragem para fazer o que tem de ser feito: retirar da gaveta a agenda de reformas institucionais que abandonou no primeiro mandato. Reforma da Previdência, da legislação trabalhista e do sistema tributário é condição essencial para assegurar competitividade da economia.
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O momento é mais do que propício. O presidente inicia o segundo mandato com uma enorme popularidade, prova de que o desprestígio do PT e aliados não reduziu as expectativas da população. Lula lembrou que é preciso avançar em padrões éticos e em práticas políticas. Assim desejam os brasileiros de bem. Também esperam que o presidente abandone o palanque. Em nada contribui, por exemplo, a cansativa repetição do discurso em torno de uma fantasiosa cisão entre povo e elite.
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A popularidade se deve à virtuosa combinação entre responsabilidade na economia e consolidação de uma bem-sucedida política social. Lula celebra também circunstâncias bem mais favoráveis do que há quatro anos. A inflação está controlada, o Risco Brasil chegou ao nível mais baixo e há saudáveis indicadores de que eles se conjugam em um positivo ambiente econômico internacional. Enquanto tomava posse, por exemplo, veio a notícia de que o país fechou 2006 com um superávit primário recorde nas contas públicas.
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O crescimento não veio porque mantemos um modelo de Estado que caducou diante da competitividade global. A despeito das mudanças realizadas no país nos anos 90, o Estado brasileiro entrou no século 21 com feições concebidas cinco décadas atrás. Remodelá-lo aos padrões contemporâneos significa alterar um setor público assentado em privilégios - tão caro e ineficiente que, para sustentá-lo, é preciso drenar quase 40% da riqueza produzida no país.
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À parte a certeza de que o presidente necessitará de montar uma base consistente de apoio no Congresso, Lula tem uma oportunidade histórica para promover essas mudanças. Não pode desperdiçá-la. Ao trabalho, portanto.