quarta-feira, janeiro 03, 2007

Enterro do modelo

José Paulo Kupfer, no Blog NoMínimo
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Discurso é discurso, mas se discurso vale alguma coisa, o presidente da República e o governador do estado mais poderoso (e desde já natural concorrente a uma indicação para a Presidência em 2010) convergiram nos discursos ao tomar posse neste 1º. de janeiro. Desossados das obrigações institucionais e partidárias a que cada um tinha de se render, Lula e José Serra, fizeram o enterro do modelo de estabilidade estagnacionista dos últimos três governos.
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Um, no caso Lula, reafirmou a preferência pelo desenvolvimento na base de metas e compromissos mais pragmáticos. O outro, no caso Serra, foi conceitual e até mais incisivo na defesa de uma economia que rompa com o ciclo de estabilidade e estagnação em que o País se meteu – ruptura que, segundo ele, tem de ser também intelectual.
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Lula falou explicitamente em baixar os juros a um ponto que não fique acima da taxa média de retorno dos investimentos. Falou também em expandir o crédito, ao longo do segundo mandato, para 50% do PIB (hoje, mal passa de 30%). Voltou a prometer uma política industrial ativa, coisa que não conseguiu colocar de pé no primeiro mandato e pode não acontecer no segundo, mas serve como indicativo da intenção de fazer um governo menos amarrado aos desígnios fatalistas do mercado.
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Quanto a esse ponto, aliás, Serra foi longe. “O livre mercado globalizado não oferece respostas para todos os nossos problemas”, declarou, defendendo um “ativismo governamental”, na procura do desenvolvimento e da maior igualdade social”.
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Depois desse discurso, se fosse Serra o presidente, os pregões, nos mercados financeiros, abririam em queda livre nesta terça-feira, primeiro dia útil do ano.