quarta-feira, janeiro 03, 2007

A economia cordial de Lula

por Vinicius Torres Freire, na Folha de S. Paulo
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Um clichê da formação política de Lula é a descrição de suas entradas no estádio em que se decidiam as greves metalúrgicas. Antes de ir ao palanque, o líder sindical gostava de entrar em campo, de ser envolvido pela multidão.
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Lula queria escutar o rumorejo da peãozada, impregnar-se da voz da massa e assim temperar o que muito ouvia de outros líderes, de políticos e, relutantemente, de intelectuais. Lula encarnava mais a resultante desse vozerio do que ditava princípios. Lula continua o mesmo.
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Agora, porém, Lula assumiu a liderança do pensamento econômico de seu governo, por assim dizer. Nunca esteve tão só, e talvez por isso nunca antes tão angustiado e desorientado sobre os contínuos e, para ele, incompreensíveis reveses das promessas de crescimento espetacular. Seu "pensamento desejante" e sua estratégia de encarnar a voz do povo não bastam para elaborar planos e liderar equipes articuladas. Resta-lhe a ansiedade.
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Preconceito? Perceba-se a desorientação neste balanço do que Lula disse em 2006 sobre economia.
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"O Lula é uma parte do povo deste país que adquiriu consciência política. É por isso que eu não caio. Porque não sou sozinho. A hora que tirarem minhas pernas, vou andar pelas pernas de vocês; a hora que tirarem meus braços, vou gesticular pelos braços de vocês; a hora que tirarem meu coração, vou amar pelo coração de vocês. E, a hora que tirarem minha cabeça, vou pensar pela cabeça de vocês", dizia o presidente em comício, no dia 26 de setembro.
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"O governo não precisa saber tudo, não precisa compreender tudo. Tem apenas de ter sensibilidade para deixar que as pessoas digam ao país o que é melhor para o próprio país": Lula, 3 de março.
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"Não é possível governar o país só com a racionalidade das pesquisas e dos números. O Brasil já foi governado assim durante um século, e os resultados não foram os melhores. É preciso que a gente governe com a racionalidade, com a verdade dos números, com a realidade do país, mas é preciso que a gente tenha sensibilidade", 21 de dezembro, sobre o novo aumento do salário mínimo.
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"Vocês percebem que precisa mais do que um economista, precisa de um bando de mágicos para que a gente tente encontrar uma saída para fazer esse país voltar a crescer. E, sem mágica, nós vamos fazê-lo voltar a crescer", 28 de novembro.
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"E não me pergunte o que é ainda, que eu não sei, e não me pergunte a solução, que eu não a tenho, mas vou encontrar, porque o país precisa crescer", 21 de novembro, ao dizer que até o final do ano anunciaria um plano para destravar a economia.
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"Sou contra a política de voluntarismo, oba-oba. Prefiro as políticas estruturantes, que são mais demoradas, porque têm de ser mais cautelosas, então são mais responsáveis", início de dezembro.
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"Você depara com as leis, com as questões ambientais, com o Congresso, com a oposição (...) e com a burocracia", 25 de agosto, sobre os "entraves ao desenvolvimento".
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"O crescimento que nós queremos não vai se dar em um mandato presidencial. É preciso que a gente pense numa geração ou quem sabe até um pouco mais se nós quisermos fazer uma coisa sólida, madura, que não tenha retorno", 6 de novembro.