quarta-feira, janeiro 03, 2007

Mais um ano morno

Editorial da Folha de S. Paulo
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Mais um ano de crescimento tímido, inflação sob controle, juros em queda e cotação do dólar quase estagnada. É o que esperam para a economia brasileira em 2007 os analistas de bancos e consultorias cujas projeções são compiladas pelo Banco Central.
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Sabe-se que a maioria dos especialistas trabalha com a hipótese de que 2007 será mais um ano benigno na economia global. Deverão prevalecer a forte expansão do comércio, a manutenção do preço das commodities em patamares elevados e a farta disponibilidade de capitais para as economias ditas emergentes.
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Supõe-se que a desaceleração da atividade ora em curso nos EUA -liderada pelo arrefecimento no mercado de construções residenciais- não evoluirá para uma recessão, o que tenderia a abalar o ciclo de bonança iniciado em 2003. No quadriênio que se encerrou no domingo, o PIB mundial cresceu a um ritmo médio muito próximo aos 4,9% que o FMI projeta para 2007.
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Os ralos 3,5% de crescimento esperados para a economia brasileira neste ano, se não forem mais uma vez desmentidos pela realidade, não estarão relacionados a dificuldades externas. Caso as estimativas se confirmem, 2007 terá sido o 12º ano seguido em que a produção no Brasil terá crescido menos que a média mundial. Desde 1996 a expansão do PIB brasileiro nem sequer consegue superar a metade do ritmo global.
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O grau de conformismo que se percebe em relação a um desempenho tão pífio preocupa. É sintoma de um marcante rebaixamento de expectativas em relação ao país -em particular da sua capacidade de gerar empregos, propiciar elevação do padrão de vida da população e evoluir para uma distribuição menos iníqua de sua renda.
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Diversas análises têm convergido, por caminhos variados, à constatação de que parcela das dificuldades para a aceleração do crescimento brasileiro decorre da evolução do câmbio. Em 2006, em particular, estima-se que a aceleração das importações e a perda de ímpeto das exportações tenham reduzido a taxa de crescimento do PIB em mais de um ponto percentual.
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Outro gargalo diz respeito à renitente fragilidade financeira do setor público. A despeito de impor uma carga tributária muito alta às empresas e aos consumidores, o Estado ainda se mostra incapaz de investir e de fornecer estímulos ao investimento privado de modo suficiente.
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É exasperante observar que o segundo mandato de Lula começa agora sem nenhuma proposta capaz de tirar o país da rota do crescimento medíocre.