sábado, janeiro 20, 2007

Metrô: a derrota dos abutres

Metrô: a derrota dos abutres
Por Reinaldo Azevedo

Os consumidores de cadáveres devem estar chateados. A semana termina, e foi muito mal-sucedida a operação para politizar o acidente na estação do Metrô. Certo jornalismo ficou soterrado, e não há busca que possa salvá-lo. Houve cobertura responsável, sim, mas também prosperou o jornalismo da opinião em “off”, coisa que não chega a ser inédita, mas que constrange. E, é claro, não havia ninguém para dizer em off que as regras estavam sendo cumpridas. Em off, só se condena, se acusa, se buscam bodes expiatórios. Criou-se a ficção de que obras construídas pelo sistema “turn key” são necessariamente menos seguras. Não são. Mas esse é um debate que não vai terminar agora. O PT correu para pedir CPI. Testou a opinião pública. Não colou. Sindicatos ligados ao PC do B e ao PSOL tentaram arrancar dos cadáveres uma causa. Falhou de novo. Boa parte do malogro da operação se deveu ao comportamento correto do governador José Serra em todo o episódio.
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Serra fez o que devia. Foi ao local do acidente, desceu ao túnel, acompanhou o enterro das vítimas, suspendeu o pagamento às empreiteiras por aquele trecho parado, reuniu-se com a empresa de seguro para ter informações sobre o prazo do ressarcimento às famílias das vítimas e àqueles que tiveram de abandonar suas casas, determinou que o consórcio faça um reforço de segurança nas demais estações — em suma, fez o que deve fazer um governante. Estava no poder havia 12 dias quando a obra desabou. Ok, dirão, cumpriu a sua obrigação. Também acho. Não se pode dizer que seja um hábito.
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Leio que uma comissão de metroviários e representantes de entidades ligadas a engenheiros e arquitetos encaminhou um pedido ao governador para acompanhar as investigações. É mesmo? Com que autoridade? Representam quem? O Brasil será agora governador por guildas, por corporações de ofício? Se Serra vai deixar ou não, isso eu não sei. Fosse eu, daria um pé no traseiro dessa gente, a menos que esses caras me provassem que o IPT não está técnica ou moralmente habilitado para fazer seu trabalho. Sem contar que já há uma frente de investigação na Polícia Civil e outra no Ministério Público.Na carta ao governador, a prova da má-fé política: “Esse procedimento se faz necessário para que não paire sobre o laudo a ser elaborado pelo competente IPT nenhuma suspeição". Quer dizer que o IPT é “competente”, mas só a presença dos signatários eliminaria a “suspeição” do laudo? Suspeição vinda de quem, cara pálida? Os sindicalistas estariam, então, preocupados, é com a reputação do governo e do IPT? E se o instituto disser que estava tudo errado, que se usou a metade do cimento previsto, que houve economia ilegal de ferragens, que as empresas foram negligentes? Ainda assim, esses valentes diriam que o laudo é suspeito? Ou eles só duvidarão do parecer caso ele não esteja de acordo com aquilo que querem ler?
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É o segundo tempo de uma operação destinada a satanizar o governo e as empresas do consórcio. Essa gente já disse a que veio. O Sindicato dos Metroviários deixou prosperar a mistificação de que os problemas do Metrô decorreram da Parceria Público-Privada, que nada tem a ver com a construção da obra. O erro foi adotado por parte do jornalismo. O governador teve de responder a uma pergunta na TV sobre o assunto. Alguns engenheiros, em off, investiram no mito de que acidentes só acontecem quando o Estado não está presente para fiscalizar. Os 154 mortos do avião da Gol que o digam... Nada disso! Essa gente já deu sua contribuição à empulhação, à mistificação, à baixa exploração da tragédia. Que meta o rabo entre as pernas e faça proselitismo em outra freguesia.
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Finalmente, louve-se o trabalho dos bombeiros, sim. Todo mundo que circulou no canteiro da obra sabe que todos eles correram risco a maior parte do tempo. Essa é sua tarefa, sei disso. Mas não há um roteiro definido a seguir em casos assim. A única coisa corriqueira nas tragédias é não seguirem um padrão. Nessas horas, o que conta é a disposição para servir ao público, certo sentido de missão, excepcional desde sempre — cada vez mais raro no país. Não estou aqui tirando lição de tragédias. Elas não existem para aprimorar ou testar nosso humanismo. Em casos como o do Metrô, decorrem de alguma falha. É preciso saber como e por que ela se deu e estreitar ainda mais as margens de erro. Precisamos de ciência — inclusive para punir, se for o caso —, não de proselitismo vagabundo.
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Os abutres perderam.
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COMENTANDO A NOTÍCIA: Para encerrar o papo furado com o derradeiro chute no traseiro desta malta de vagabundos, restaria acrescentar uma nota publicada no Cláudio Humberto e que a seguir:
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Generosidade
As empreiteiras do metrô não fizeram doações à campanha do governador José Serra (PSDB), segundo o TSE. Mas foram generosas com Aloizio Mercadante (PT): Odebrecht deu R$ 200 mil e Camargo Corrêa R$ 300 mil. “

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Pois é, né...