sábado, janeiro 20, 2007

O ano não começou

Por Carlos Chagas, na Tribuna da Imprensa
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No Palácio do Planalto, as tendências mudam como biruta de aeroporto. A moda do dia, que amanhã poderá ser outra, é de que o presidente Lula não deverá anunciar de uma vez as mudanças ministeriais. Poderá nomear ministros a conta-gotas, quem sabe começando pelo da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que meio de má vontade aceitou ficar até o dia 31, mesmo de férias. Queria ter saído a 31 de dezembro e não permanecerá mais. É possível que na próxima semana o presidente Lula nomeie Tarso Genro ou Sepúlveda Pertence, cujas cotações oscilam como as tendências políticas do governo.
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Sobre o muro
"Enganação. Nenhuma palavra reflete melhor o que foi a reunião das bancadas do PMDB, terça-feira, para decidir quem apoiar para a presidência da Câmara. Não é certo que o partido ficou com Arlindo Chinaglia. E por razão muito simples: da bancada de 90 deputados que começarão a trabalhar em fevereiro, e que elegerão o novo presidente da Casa, 40 votaram no candidato do PT e seis mandaram seus votos por escrito, também para o petista. Significa que a metade mais um fecha realmente com Chinaglia, caso tenham votado sem possibilidade de revisão posterior. E os outros 44?
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Estarão livres para votar em Aldo Rebelo, Inocêncio Oliveira, Ciro Nogueira, Fernando Gabeira ou qualquer outro. Porque ficou resolvido, meio à socapa, que ninguém será punido caso deixe de seguir a orientação dessa precária maioria.
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Há uma segunda leitura para a reunião: se o partido está de braços abertos para aderir ao governo, como explicar que vá, por unanimidade, votar num candidato que não é da preferência de Lula? Porque não constitui segredo algum que o presidente manifestou-se um monte de vezes pela reeleição de Rebelo.
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A união PT-PSDB representaria uma espécie de alerta ao Planalto, pela formação de um bloco capaz de desrespeitar a vontade do trono mediante o acordo de que, em 2008, os petistas ajudariam a eleger um peemedebista para a presidência da Câmara. E se não for esse o interesse do governo?
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Em suma, houve uma decisão do PMDB adotada para a imprensa, para efeito externo, mas outra, encoberta, de acordo com a trajetória histórica do partido, de permanecer dividido e em cima do muro. São lições de política, que os amadores deveriam prestar atenção."
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Terceiro mandato?
Não é hora de tocar no assunto, todo mundo dirá tratar-se de especulação desmedida. Dos líderes do PT aos auxiliares do presidente da República, dos partidos da situação aos da oposição, das classes produtoras às entidades sociais - não há quem deixe de dar de ombros e rotular de absurda a simples menção a um terceiro mandato. A começar por Lula.
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Vamos deixar o tempo passar, fazendo votos para que se trate mesmo de uma ilação imprópria. Lembremos, porém, estarmos no Brasil, onde conforme mestre Gilberto Freire costumava dizer, o impossível acontece.
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"Lembrai-vos de 37!" já constituiu grito de alerta da maior importância, repetido pelo então deputado Café Filho todos os dias em que assumia a tribuna da Câmara. A frio, é claro, o terceiro mandato não existe, mas no bojo de uma crise, quem sabe? Como crises podem ser fabricadas, é bom não afastar a hipótese.
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O PT carece de lideranças capazes de substituir Luiz Inácio Lula da Silva, inexistindo sinais de que poderá criar algum, até 2010. O eleitorado já demonstrou estar com Lula e não abrir, prevalecendo a regra, no entanto, de que lideranças populares e votos não se transferem. Vai daí que a equação pode estar armada, apesar dos protestos gerais sobre ser o tema simples especulação.