José Paulo Kupfer, No Mínimo
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Como certos mulherões de mãos grandes que ficam à noite nas esquinas escuras das avenidas, também na economia muita coisa não é o que parece. O ingresso recorde de dólares em 2006 é só o exemplo mais recente. Computadas entradas e saídas de dólares, sobraram US$ 37,3 bilhões líquidos e positivos. É um volume de dinheiro que deixa no chinelo o recorde anterior, de US$ 20,7 bilhões, registrado há já longínquos 15 anos.
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À primeira vista, trata-se de uma prova irrefutável da força da economia brasileira e da confiança dos investidores estrangeiros no Brasil. Mas, a verdade não é assim tão risonha. O que essa enxurrada de dólares realmente revela é que os juros, no Brasil, continuam excessivamente altos.
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A chamada “arbitragem” que as altas taxas de juros propiciam não se limita ao conhecido expediente de tomar recursos no exterior a taxas camaradas e aplicá-los no mercado financeiro brasileiro aos juros excessivos com que convivemos. Os juros altos, não necessariamente apenas os representados pela taxa básica, piso das taxas em geral, mas também os de mercado, estimulam a aceleração do ingresso de dólares das exportações e retardam a saída dos dólares das importações. Ainda que, com isso, o dólar tenda a se desvalorizar frente o real, incentivando as remessas de lucros e os investimentos brasileiros no exterior, o saldo resultante acaba sendo positivo.
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O mecanismo é até simples. Os exportadores correm para fechar contratos de adiantamento de câmbio (ACC), mesmo antes de produzir a mercadoria cuja exportação já está contratada, porque, com isso, conseguem utilizar reais financiados a 6% ou 8% em lugar de usar reais ao custo de 50% anuais, que é o que os bancos cobram no financiamento normal de capital de giro.
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Nas importações, o incentivo opera no sentido inverso. O importador é estimulado a trazer a mercadoria e financiá-la com o vendedor externo, no prazo mais longo possível. Daí vende o produto aqui o mais rápido que possa, aplicando o montante das vendas no mercado financeiro doméstico, às belas taxas oferecidas, pelo prazo do financiamento externo.
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Resumindo: o exportador traz os dólares o quanto antes e o importador adia o pagamento efetivo em dólares o quanto pode. No meio tempo, ambos transformam sua atividade, tipicamente industrial e comercial, num atraente negócio financeiro. Apenas para dar uma idéia do que isso significa, a diferença entre o câmbio contratado nas exportações e importações e o valor efetivo das mercadorias exportadas e importadas superou, em 2006, US$ 10 bilhões.
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É uma pressão adicional no sentido da valorização do real. Para evitar que o dólar derreta frente à moeda nacional, ocasionando estragos ainda maiores na competitividade dos produtos brasileiros, o governo “suja” o regime de câmbio flutuante, comprando dólares no mercado. Só o Banco Central comprou, em 2006, cercas de US$ 35 bilhões, elevando as reservas cambiais a US$ 85 bilhões.
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Isso é pouco menos do que o total das importações no ano (as compras do exterior superaram ligeiramente US$ 90 bilhões) e expressa um espantoso avanço de cinco vezes em relação ao volume total de reservas há meros três anos. Com toda a intervenção, ainda assim, em 2006, o real valorizou-se quase 9% diante do dólar.
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E pensar que há quem sustente que a política monetária – e os juros que a refletem – não tem nada a ver com essa confusão toda.
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Como certos mulherões de mãos grandes que ficam à noite nas esquinas escuras das avenidas, também na economia muita coisa não é o que parece. O ingresso recorde de dólares em 2006 é só o exemplo mais recente. Computadas entradas e saídas de dólares, sobraram US$ 37,3 bilhões líquidos e positivos. É um volume de dinheiro que deixa no chinelo o recorde anterior, de US$ 20,7 bilhões, registrado há já longínquos 15 anos.
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À primeira vista, trata-se de uma prova irrefutável da força da economia brasileira e da confiança dos investidores estrangeiros no Brasil. Mas, a verdade não é assim tão risonha. O que essa enxurrada de dólares realmente revela é que os juros, no Brasil, continuam excessivamente altos.
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A chamada “arbitragem” que as altas taxas de juros propiciam não se limita ao conhecido expediente de tomar recursos no exterior a taxas camaradas e aplicá-los no mercado financeiro brasileiro aos juros excessivos com que convivemos. Os juros altos, não necessariamente apenas os representados pela taxa básica, piso das taxas em geral, mas também os de mercado, estimulam a aceleração do ingresso de dólares das exportações e retardam a saída dos dólares das importações. Ainda que, com isso, o dólar tenda a se desvalorizar frente o real, incentivando as remessas de lucros e os investimentos brasileiros no exterior, o saldo resultante acaba sendo positivo.
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O mecanismo é até simples. Os exportadores correm para fechar contratos de adiantamento de câmbio (ACC), mesmo antes de produzir a mercadoria cuja exportação já está contratada, porque, com isso, conseguem utilizar reais financiados a 6% ou 8% em lugar de usar reais ao custo de 50% anuais, que é o que os bancos cobram no financiamento normal de capital de giro.
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Nas importações, o incentivo opera no sentido inverso. O importador é estimulado a trazer a mercadoria e financiá-la com o vendedor externo, no prazo mais longo possível. Daí vende o produto aqui o mais rápido que possa, aplicando o montante das vendas no mercado financeiro doméstico, às belas taxas oferecidas, pelo prazo do financiamento externo.
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Resumindo: o exportador traz os dólares o quanto antes e o importador adia o pagamento efetivo em dólares o quanto pode. No meio tempo, ambos transformam sua atividade, tipicamente industrial e comercial, num atraente negócio financeiro. Apenas para dar uma idéia do que isso significa, a diferença entre o câmbio contratado nas exportações e importações e o valor efetivo das mercadorias exportadas e importadas superou, em 2006, US$ 10 bilhões.
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É uma pressão adicional no sentido da valorização do real. Para evitar que o dólar derreta frente à moeda nacional, ocasionando estragos ainda maiores na competitividade dos produtos brasileiros, o governo “suja” o regime de câmbio flutuante, comprando dólares no mercado. Só o Banco Central comprou, em 2006, cercas de US$ 35 bilhões, elevando as reservas cambiais a US$ 85 bilhões.
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Isso é pouco menos do que o total das importações no ano (as compras do exterior superaram ligeiramente US$ 90 bilhões) e expressa um espantoso avanço de cinco vezes em relação ao volume total de reservas há meros três anos. Com toda a intervenção, ainda assim, em 2006, o real valorizou-se quase 9% diante do dólar.
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E pensar que há quem sustente que a política monetária – e os juros que a refletem – não tem nada a ver com essa confusão toda.