sábado, janeiro 06, 2007

A saúde em estado terminal

Soraia Costa, Congresso em Foco
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Problemas de gestão e financiamento no sistema público de saúde deixam especialistas pessimistas em relação aos próximos quatro anos
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O governo Lula terá de superar grandes desafios nos próximos quatro anos para conseguir recuperar o sistema público de saúde. Apesar de os recursos destinados ao setor terem aumentado no primeiro mandato, o resultado dos investimentos ficou aquém do modelo que se anunciava na campanha eleitoral de 2002. Além de hospitais sucateados e sem equipamentos, há problemas graves no financiamento e na fiscalização e conflitos de competência entre a União, os estados e os municípios.
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Não bastassem as dificuldades técnicas, os recursos da saúde ainda são alvos de verdadeiros saques de quadrilhas especializadas. Só a máfia dos vampiros sugou, ao longo de 12 anos, cerca de R$ 2 bilhões que deveriam ter sido usados na compra de produtos hemoderivados. Já a máfia das ambulâncias, que teve o apoio até de parlamentares, desviou ao menos R$ 110 milhões dos recursos do orçamento da saúde desde 2001.
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Para profissionais da área ouvidos pelo Congresso em Foco, ainda falta um projeto nacional que estabeleça normas claras de fiscalização e destinação dos recursos públicos. O modelo de atenção adotado pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mais voltado para a cura de doenças já estabelecidas do que para a prevenção, é um dos principais alvos das críticas.
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“O modelo de atenção que temos é absolutamente distorcido. Privilegia o aspecto coletivo e a cultura do hospital, da doença, dos tratamentos de alta complexidade”, considera o presidente do Conselho Nacional de Saúde, o farmacêutico Francisco Batista Júnior. Procurada pela reportagem, a assessoria do Ministério da Saúde encaminhou dados sobre a gestão no primeiro governo Lula. Ninguém da pasta, porém, prontificou-se a falar sobre o assunto.
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“Devemos priorizar a saúde, não a doença. Manter esse modelo atual só interessa aos grandes grupos econômicos, pois são eles os responsáveis pelos tratamentos de alto custo, os transplantes, e os exames de média e alta complexidade”, defende Francisco. O Conselho Nacional de Saúde é formado por representantes de usuários, do governo e especialistas da área, que se reúnem para avaliar e sugerir políticas públicas de saúde.