quinta-feira, março 29, 2007

A Chíndia vai atropelar o Brasil

Gilson Schwartz, Revista Época Negócios

O Brasil pegou carona, nos últimos anos, no chamado bloco dos Brics – também integrado por Rússia, Índia e China. A sigla ganhou popularidade em 2003, quando o banco americano de investimentos Goldman Sachs, que enxerga nesses países o pelotão de frente dos emergentes, projetou um desempenho espetacular do grupo até 2050. A sigla é um jogo de palavras – brick, em inglês, é tijolo. Investir nos Brics seria participar da grande e sólida fronteira de expansão da economia global. Recentemente surgiu outra sigla que ameaça o brilho dos Brics. É Chíndia, marca de um fundo gerenciado pela consultoria de investimentos Ashburton. Como sugere o rótulo, o futuro está reservado para a China e a Índia. Brasil e Rússia seriam coadjuvantes, meros fornecedores de commodities. Pesa na opção pelos asiáticos o tamanho do mercado consumidor, fator decisivo para o retorno dos investimentos nesse fundo. Nos próximos 15 anos, os dois países chegariam à condição de segunda força econômica mundial, com PIB de US$ 16 trilhões e consumo de 25% da energia do planeta. Quem aposta na Chíndia levou um susto com a queda recorde nas bolsas em fevereiro, devido à mudança de humor quanto à economia chinesa. Mas não foi suficiente para abalar a crença no futuro dos gigantescos mercados internos da China e da Índia. Brics versus Chíndia é, atualmente, o jogo que mais chama a atenção quando o mundo dos negócios exercita a futurologia da competição global. Vale a pena esmiuçar o desempenho do pelotão de frente dos emergentes com base em alguns dos principais indicadores. Com isso, será possível tornar mais evidentes tanto as vantagens comparativas, quanto suas vulnerabilidades. Dos cinco principais indicadores conhecidos (veja os quadros), dois deixam aberta a porta para Brasil e Rússia, dois jogam água no moinho do modelo Chíndia e, no quinto, o jogo empata. Tanto no cenário traçado a partir dos dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) como no índice da Economia do Conhecimento, desenhado pelo Banco Mundial, acreditar nos Brics faz sentido. Os fatores valorizados por ambas as instituições dizem respeito a crescimento, infra-estrutura, educação, saúde, tecnologia e inovação. Nos quatro países há boas chances de prosperarem arranjos produtivos regionais (das zonas especiais chinesas aos APLs brasileiros). Todos apostam, em graus variados, na vocação de operar como plataformas comerciais e infra-estruturas estratégicas para os mercados de consumo globais, tanto para atender às suas empresas globalizadas cujas matrizes estão nos Estados Unidos, Europa e Japão, quanto para apoiar as multinacionais locais na conquista de mercados externos.

O Brasil é o único membro do “quadrado mágico” que está fora do clube nuclear e é retardatário no setor aeroespacial. Mesmo sem uma retaguarda industrial-militar de peso, o desempenho do Brasil no índice da Economia do Conhecimento é notável e promissor. Engenheiros e outros profissionais chineses e indianos freqüentam há décadas, em volumes crescentes, os bancos escolares dos principais centros de ensino e pesquisa do mundo. Formam redes de contatos tecnológicos e empresariais. São portadores da globalização do capital humano e intelectual, altamente qualificados no uso de redes digitais. Rússia e Brasil são gigantes com menor número de expatriados, ou seja, relativamente menos gente investindo em aprendizado e redes de relacionamentos nas principais universidades e pólos empresariais do mundo. Mas isso não significa menor globalização – em termos de participação do investimento estrangeiro no PIB, Brasil e China estão ombro a ombro, muito à frente de Índia e Rússia. Em síntese: no geral, as forças se equilibram. Os quatro emergentes estão no meio do caminho para ganhar o jogo da competição global.

O cenário é bem diferente quando se analisam os indicadores de competitividade empresarial das instituições privadas, como os suíços Fórum Econômico Mundial e IMD (Instituto para o Desenvolvimento da Gestão). Neles, o que conta são fatores que facilitam os negócios, como legislação, crédito, relações trabalhistas, defesa da propriedade e respeito aos contratos. Não basta ser uma economia do tipo baleia, ou seja, grande e temida. É fundamental não encalhar, não morrer na praia da competição por mercados abertos. O tamanho dos territórios e das populações impressiona, mas se fazer negócios é uma tortura, se faltam leis ou crédito, a atratividade dos mercados despenca. Nas notas do IMD, China e Índia são cerca de quatro vezes superiores a Brasil e Rússia.

Processos de liberalização, desestatização, desburocratização e desregulamentação foram mais profundos e rápidos na Rússia, na China e mesmo na Índia, comparados à resistência a choques capitalistas e ao reformismo envergonhado do Brasil. Mas o jogo fica empatado quando se examina o cenário com a lente do indicador de ambiente empresarial do Banco Mundial, o “Doing Business”. O ambiente de negócios na Índia e no Brasil é claramente inferior ao da Rússia e da China, mas as diferenças não são tão gritantes quanto no painel do IMD.

Quem vai dar as cartas no futuro: Brics ou Chíndia? Até o Goldman Sachs, que cunhou o termo Brics, refez os cálculos e diz que a Índia surpreendeu para melhor. A China enfrenta riscos tanto de excesso de investimento (e de capacidade produtiva) quanto de especulação (bolha financeira).

Portanto, apesar da ascensão midiática da Chíndia, o jogo está longe do final. Seu desfecho depende do domínio das novas tecnologias, especialmente das redes digitais, como a internet, que criam e continuarão criando novos mercados, consumidores e oportunidades de investimentos.

Para não perder de vez o trem, brasileiros e russos precisam se conectar mais e melhor às redes digitais de conhecimento, melhorar seus ambientes de negócios e cuidar da infra-estrutura.