terça-feira, abril 03, 2007

Elle está de volta

por João Mellão Neto, no Estadão

Na História republicana do Brasil, três presidentes chegaram ao poder antes de completarem 50 anos de idade. E nenhum logrou terminar o seu mandato. Jânio Quadros renunciou, João Goulart foi deposto e Fernando Collor de Mello sofreu impeachment. Dá para arriscar uma teoria: na faixa dos 40 anos os homens ainda não estão suficientemente amadurecidos; ainda guardam algo da impetuosidade e da exagerada autoconfiança da juventude e isso acaba por prejudicá-los. Comandar o Brasil não é tarefa simples. Exige do governante muita paciência, cálculo e humildade. Seria a tal da “ética da responsabilidade”, uma expressão criada por Max Weber para se contrapor à juvenil “ética da convicção”. Imbuídos desta última, os governantes não medem as conseqüências de seus atos, desde que estes estejam de acordo com seus desígnios e suas crenças. São açodados, incontinentes, julgam-se infalíveis e, por isso, quase sempre se dão mal. Collor assumiu a Presidência da República com 40 anos de idade recém-completados. Foi vítima da húbris e caiu com apenas dois anos e meio de mandato.
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Agora, mais maduro e comedido, ele volta ao centro do poder como senador da República. Quinze anos se passaram desde a sua derrocada. Os mais jovens pouco sabem sobre o que representou a sua passagem pela Presidência. Vale a pena recordar o que foram aqueles anos.
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Ao tomar posse, em 15 de março de 1990, já no dia seguinte o presidente, sob o pretexto de conter a hiperinflação da época - que chegava aos 80% ao mês - tomou uma série de medidas drásticas, que ficaram conhecidas como o famigerado Plano Collor. A mais traumática delas foi o confisco de toda a poupança dos cidadãos que excedesse 50 mil cruzados novos. Ele se comprometeu a devolver o dinheiro um ano e meio depois, mas isso não foi suficiente para tranqüilizar a população. Paradoxalmente, o plano foi recebido pela opinião pública com grande entusiasmo. Adeptos da tese de que “mertiolate que não arde também não cura”, os brasileiros acreditaram, a princípio, que aquela atitude radical, de tão dolorosa, representasse, de fato, a solução para estancar a alta dos preços. Diagnóstico errado. A inflação, concordam hoje todos os economistas, tem a sua principal causa no déficit público, o que ocorre quando o governa gasta mais do que arrecada e para fazer frente aos seus compromissos emite dinheiro sem um aumento equivalente no volume de bens e serviços produzidos pela economia. O resultado inevitável é o aumento dos preços. É a lei da oferta e da procura, que até hoje nenhum governo conseguiu revogar. Numa comparação simplista, o confisco das poupanças foi como esvaziar a banheira e, ao mesmo tempo, deixar a torneira jorrando água em volume maior do que o ralo é capaz de drenar. Em pouco tempo a banheira se enche de novo.
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Ousei escrever isso na época e quase fui linchado pelos leitores. Recebi inúmeras cartas me tachando de impatriótico e afirmando que, se eu não gostava do Brasil, que fosse embora daqui. A minha profecia se cumpriu. Menos de um ano depois, a hiperinflação estava de volta.
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Mas o governo Collor não foi apenas isso. Havia um lado muito positivo, que foi a abertura comercial para o mundo e a conseqüente modernização do parque produtivo do País. Com o fim do protecionismo, os empresários brasileiros, premidos pela concorrência das mercadorias importadas, foram obrigados a tornar mais eficientes as suas fábricas e a oferecer produtos melhores a preços menores. O governo estimulava esse processo oferecendo crédito barato para que as indústrias importassem máquinas mais modernas.
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O mundo dá voltas. Ainda no ano de 1990, fui eleito deputado federal com uma soma considerável de votos. Fui o quarto deputado mais votado do Brasil e, o mais importante, obtive tal votação defendendo exclusivamente a Doutrina Liberal. O presidente Collor se interessou em me conhecer, convidou-me a visitá-lo no Palácio do Planalto e, surpreendentemente, nos tornamos amigos. Creio que ele nunca leu nenhum dos inúmeros artigos que escrevi, aqui, no Estadão, desancando o seu governo...
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Em abril de 1992, cansado das recorrentes denúncias de corrupção que rondavam a maioria dos seus ministros, o presidente provocou uma renúncia coletiva de seu Ministério e convocou Jorge Bornhausen para a missão de formar uma nova equipe, composta exclusivamente por nomes cujo passado era inatacável. Fui convidado para assumir a pasta do Trabalho e da Administração e aceitei. Estava criado o “Ministério ético”, como foi, então, intitulado pela imprensa. Era uma equipe excelente. Pena que foi formada tarde demais. Em junho foi criada a CPI mista do Congresso para apurar as denúncias que pairavam sobre PC Farias, tesoureiro de Collor, e, em finais de setembro, o presidente Collor foi afastado do poder pela Câmara dos Deputados para sofrer o processo de impeachment.
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Qual é a avaliação que faço do que foi o governo Collor? Posso testemunhar que, a mim, como seu ministro, ele jamais pediu algo que fosse escuso ou mesmo antiético. Pertence a ele o mérito de ter iniciado as reformas modernizantes da economia brasileira. Quanto às denúncias de corrupção, elas pouco representam se comparadas aos escândalos que varreram o primeiro mandato do presidente Lula.
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Faço minhas as considerações que ouvi do então presidente Fernando Henrique numa das audiências que ele me concedeu: “Como senador, votei a favor do impeachment porque entendia que Collor não reunia mais, àquela altura, as mínimas condições de governabilidade para seguir na Presidência. Mas como posso falar mal de Collor? Todas as reformas que estou promovendo na economia foram iniciadas no governo dele...”
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Por bem ou por mal, Fernando Collor está de volta. O que o destino lhe reserva é algo que só saberemos depois. Inteligência e carisma ele, inegavelmente, possui. E ainda é jovem. Eu, que num triste dia o acompanhei até a porta do helicóptero, lhe desejo boa sorte.