Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa
BRASÍLIA - A viagem do presidente Lula aos Estados Unidos, hoje, faz baixar a poeira rala da política interna e nos remete, outra vez, às relações com nossos irmãos do Norte. Não houve presidente brasileiro que deixasse de ver momentaneamente estremecidas nossas relações com o governo de Washington.
Para ficar nos tempos modernos, Getúlio Vargas, em 1952, negou o envio de tropas brasileiras para a guerra da Coréia, sofrendo depois, coincidência ou não, pressão imensurável das multinacionais americanas pelo sacrilégio de haver criado a Petrobrás e estabelecido o monopólio do petróleo. Viu-se levado ao suicídio para não ser deposto quando tentava estabelecer a Eletrobrás e deixou invulgar protesto em sua carta-testamento, contra a ilimitada remessa de lucros para o exterior.
O general Eurico Dutra, apesar do "How tu you tu, Trumann", depois do "How do you do, Dutra", insurgiu-se quando os Estados Unidos impuseram ao Brasil trocar o crédito externo de que dispúnhamos, por conta da participação da Segunda Guerra, por bonecas de plástico, vitrolas, chicletes e geladeiras. Obteve pequeno sucesso através do recebimento de locomotivas e caminhões.
BRASÍLIA - A viagem do presidente Lula aos Estados Unidos, hoje, faz baixar a poeira rala da política interna e nos remete, outra vez, às relações com nossos irmãos do Norte. Não houve presidente brasileiro que deixasse de ver momentaneamente estremecidas nossas relações com o governo de Washington.
Para ficar nos tempos modernos, Getúlio Vargas, em 1952, negou o envio de tropas brasileiras para a guerra da Coréia, sofrendo depois, coincidência ou não, pressão imensurável das multinacionais americanas pelo sacrilégio de haver criado a Petrobrás e estabelecido o monopólio do petróleo. Viu-se levado ao suicídio para não ser deposto quando tentava estabelecer a Eletrobrás e deixou invulgar protesto em sua carta-testamento, contra a ilimitada remessa de lucros para o exterior.
O general Eurico Dutra, apesar do "How tu you tu, Trumann", depois do "How do you do, Dutra", insurgiu-se quando os Estados Unidos impuseram ao Brasil trocar o crédito externo de que dispúnhamos, por conta da participação da Segunda Guerra, por bonecas de plástico, vitrolas, chicletes e geladeiras. Obteve pequeno sucesso através do recebimento de locomotivas e caminhões.
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Juscelino Kubitschek favoreceu as multinacionais, mas em determinado momento rompeu relações com o FMI e preparou-se para o que desse e viesse. Veio pouca coisa, mas deu certo, dados os cinqüenta anos em cinco por ele estabelecidos, apesar das resistências lá de cima.
Jânio Quadros botou para fora de seu gabinete, no Planalto, o embaixador americano que veio protestar contra o reatamento de relações do Brasil com a União Soviética e contra a política externa independente. Riu muito quando o embaixador, desarvorado, em vez de sair pela porta principal, entrou sem querer no banheiro presidencial privativo e teve que esperar alguns minutos para escafeder-se.
João Goulart enfrentou pressão superior à desenvolvida contra Getúlio Vargas, por conta das reformas de base. Desapropriou empresas americanas, estimulado por Leonel Brizola. Acabou deposto por uma conspiração na qual Washington se envolveu até o pescoço, conforme depoimentos que hoje colocam o então coronel Wernon Walters no centro do furacão.
Mesmo no tempo dos militares anticomunistas, reagimos. O marechal Castello Branco negou-se a ceder tropas brasileiras para a guerra do Vietnã, não obstante as pressões. Costa e Silva, visitando a capital americana antes de tomar posse, botou o indicador na cara do embaixador Lincoln Gordon, então subsecretário de Estado para a América Latina, que pretendia impor a continuação de Roberto Campos no Ministério do Planejamento.
Exigiu que ele se retirasse da Blair House, dizendo: "Olha aqui, mister, quem vai mandar no Brasil sou eu!" E nomeou Delfim Neto para chefe da equipe econômica. Mesmo Garrastazu Médici reagiu quando os Estados Unidos estimularam o governo argentino a opor-se à construção de Itaipu.
Ernesto Geisel não teve conversa: rompeu os acordos militares com os Estados Unidos e, pela vinda de Jimmy Carter a Brasília, determinou que nenhuma bandeira americana enfeitasse a Esplanada dos Ministérios, como era costume mesmo quando da visita de qualquer potentado africano. João Figueiredo negou-se a trazer Roberto Campos de volta, quando da demissão de Mário Henrique Simonsen, e entregou outra vez o controle da economia a Delfim Neto. Resistiu às pressões.
Tancredo Neves era malandro, jamais bateu de frente com a política americana, enquanto primeiro-ministro e, depois, governador e senador, mas lembrava sempre Juscelino, para quem "eles eram eles, e nós, nós..." José Sarney iniciou a ferrovia Norte-Sul contra a opinião das multinacionais, e, mesmo Fernando Collor, introdutor da "modernidade", obrigou as montadoras a parar de fabricar "carroções" no Brasil e adotar as modernas técnicas que só aplicavam nas matrizes. Itamar Franco não quis conversa quando se falou na continuação das privatizações. Foi ridicularizado lá e cá, mas deixou o governo com 84% de popularidade.
Depois... Bem, depois, Fernando Henrique Cardoso foi o presidente mais elogiado por Washington e arredores, porque fez tudo o que seu mestre mandou. Entregou a maior parte do patrimônio público nacional às multinacionais, extinguiu direitos sociais aos montes, preparou a venda da Amazônia e tornou-se, até, comensal do presidente Bill Clinton.
Chegou o Lula. E o Lula vai outra vez aos Estados Unidos. Conseguirá reduzir as tarifas americanas ao ingresso do etanol brasileiro? Acreditará que o presidente George W. Bush vai mesmo abandonar o petróleo, fortuna dele, de sua família e de seus amigos, em troca do álcool que o Brasil produz e produzirá como ninguém? Ou acabará concordando em transformar o Brasil num imenso canavial, onde os americanos controlarão a produção, a comercialização, a distribuição e os lucros? Com todo o respeito, se uma frase pode inserir-se no contexto, é: "ACORDA, LULA!"
Juscelino Kubitschek favoreceu as multinacionais, mas em determinado momento rompeu relações com o FMI e preparou-se para o que desse e viesse. Veio pouca coisa, mas deu certo, dados os cinqüenta anos em cinco por ele estabelecidos, apesar das resistências lá de cima.
Jânio Quadros botou para fora de seu gabinete, no Planalto, o embaixador americano que veio protestar contra o reatamento de relações do Brasil com a União Soviética e contra a política externa independente. Riu muito quando o embaixador, desarvorado, em vez de sair pela porta principal, entrou sem querer no banheiro presidencial privativo e teve que esperar alguns minutos para escafeder-se.
João Goulart enfrentou pressão superior à desenvolvida contra Getúlio Vargas, por conta das reformas de base. Desapropriou empresas americanas, estimulado por Leonel Brizola. Acabou deposto por uma conspiração na qual Washington se envolveu até o pescoço, conforme depoimentos que hoje colocam o então coronel Wernon Walters no centro do furacão.
Mesmo no tempo dos militares anticomunistas, reagimos. O marechal Castello Branco negou-se a ceder tropas brasileiras para a guerra do Vietnã, não obstante as pressões. Costa e Silva, visitando a capital americana antes de tomar posse, botou o indicador na cara do embaixador Lincoln Gordon, então subsecretário de Estado para a América Latina, que pretendia impor a continuação de Roberto Campos no Ministério do Planejamento.
Exigiu que ele se retirasse da Blair House, dizendo: "Olha aqui, mister, quem vai mandar no Brasil sou eu!" E nomeou Delfim Neto para chefe da equipe econômica. Mesmo Garrastazu Médici reagiu quando os Estados Unidos estimularam o governo argentino a opor-se à construção de Itaipu.
Ernesto Geisel não teve conversa: rompeu os acordos militares com os Estados Unidos e, pela vinda de Jimmy Carter a Brasília, determinou que nenhuma bandeira americana enfeitasse a Esplanada dos Ministérios, como era costume mesmo quando da visita de qualquer potentado africano. João Figueiredo negou-se a trazer Roberto Campos de volta, quando da demissão de Mário Henrique Simonsen, e entregou outra vez o controle da economia a Delfim Neto. Resistiu às pressões.
Tancredo Neves era malandro, jamais bateu de frente com a política americana, enquanto primeiro-ministro e, depois, governador e senador, mas lembrava sempre Juscelino, para quem "eles eram eles, e nós, nós..." José Sarney iniciou a ferrovia Norte-Sul contra a opinião das multinacionais, e, mesmo Fernando Collor, introdutor da "modernidade", obrigou as montadoras a parar de fabricar "carroções" no Brasil e adotar as modernas técnicas que só aplicavam nas matrizes. Itamar Franco não quis conversa quando se falou na continuação das privatizações. Foi ridicularizado lá e cá, mas deixou o governo com 84% de popularidade.
Depois... Bem, depois, Fernando Henrique Cardoso foi o presidente mais elogiado por Washington e arredores, porque fez tudo o que seu mestre mandou. Entregou a maior parte do patrimônio público nacional às multinacionais, extinguiu direitos sociais aos montes, preparou a venda da Amazônia e tornou-se, até, comensal do presidente Bill Clinton.
Chegou o Lula. E o Lula vai outra vez aos Estados Unidos. Conseguirá reduzir as tarifas americanas ao ingresso do etanol brasileiro? Acreditará que o presidente George W. Bush vai mesmo abandonar o petróleo, fortuna dele, de sua família e de seus amigos, em troca do álcool que o Brasil produz e produzirá como ninguém? Ou acabará concordando em transformar o Brasil num imenso canavial, onde os americanos controlarão a produção, a comercialização, a distribuição e os lucros? Com todo o respeito, se uma frase pode inserir-se no contexto, é: "ACORDA, LULA!"