segunda-feira, abril 02, 2007

Fidel ataca o etanol

Correio Braziliense
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Às vésperas da chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aos Estados Unidos, onde será recebido no sábado pelo colega George W. Bush, Fidel Castro fez sua reestréia na primeira página do Granma, diário oficial do Partido Comunista de Cuba, lançando uma cruzada contra o tema que domina a agenda Brasil-EUA — a parceria para a produção e comercialização de etanol na América Latina. “Condenados à morte prematura por sede e fome mais de 3 bilhões de pessoas no mundo”, começa o texto, apresentado como “reflexões do presidente Fidel Castro”. O líder cubano ataca a “idéia sinistra de transformar os alimentos em combustível”, que representaria “a linha econômica da política externa” da Casa Branca.
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Em Brasília, onde assistiu à posse de novos colegas no ministério de Lula e depois compareceu a uma audiência no Senado, o chanceler Celso Amorim rebateu as acusações de Fidel, com a ressalva de que “não acredito que isso tenha sido contra o governo brasileiro ou o Brasil”. Amorim classificou as idéias de Fidel sobre o álcool combustível como “antigas” e afirmou que elas estão sendo desmentidas “pelo êxito do etanol” como alternativa para os derivados de petróleo. “O Brasil é visto hoje quase como objeto de romaria, ou como uma Meca de todos os países desenvolvidos ou em desenvolvimento, que vêm buscar no biocombustível uma saída — todo mundo sabe que o petróleo vai acabar.”O artigo, publicado na edição de ontem, foi o primeiro assinado pelo Comandante desde o final de julho, quando se submeteu a uma cirurgia no abdômen e transferiu o poder ao irmão Raúl. Nesses oito meses, suas únicas aparições foram em fotografias publicadas pela imprensa oficial, durante as poucas visitas que recebeu de amigos estrangeiros — as mais recentes com o escritor colombiano Gabriel García Márquez.
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No texto, o líder cubano toma como ponto de partida o encontro de Bush com dirigentes da indústria automobilística, que foram à Casa Branca mostrar modelos de carros movidos a energias renováveis. Fidel cita longos trechos de agências de notícias, enfileira cálculos sobre a massa de milho e outras culturas exigida para produzir o volume de etanol proposto por Bush e desafia: “Aplique-se essa receita aos países do terceiro mundo e verão quantas pessoas deixarão de comer milho”. Além disso, prevê, “não sobrará uma árvore para defender a humanidade das mudanças climáticas”.
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Frente com Chávez
A linha de argumentação do presidente cubano acompanha as críticas de seu principal aliado na região. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, foi o primeiro a denunciar o plano de Bush para o etanol, imediatamente após a assinatura do memorando de entendimento com o Brasil, no início do mês.
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“Ele (Fidel) tem idéias que sei que são antigas, porque por acaso eu acompanhei o ministro da Ciência e Tecnologia (brasileiro) em Havana, 20 anos atrás, e ele já dizia que o álcool não daria certo”, respondeu o chanceler brasileiro. “É a opinião dele, e vamos respeitar. Cada um tem a liberdade de expressar a sua opinião”, disse Amorim. “Mas ela tem que ser contrabalanceada com outras opiniões, inclusive de muitos cientistas”, argumentou o chanceler. “O que o mundo vê hoje é um grande futuro para o etanol.”