segunda-feira, abril 02, 2007

Biocombustíveis são fraude, diz colunista do "Guardian"

da BBC
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Em artigo publicado nesta terça-feira no jornal britânico "The Guardian", o jornalista e ativista ambiental George Monbiot afirma que utilizar biocombustíveis --como o álcool-- para combater o aquecimento global "é uma fraude". "Se quisermos salvar o planeta, precisamos adiar por cinco anos os projetos em biocombustível", defende Monbiot, conhecido por suas posições contrárias à globalização. Para o jornalista, os programas de incentivo "são uma fórmula para desastres ambientais e humanitários".
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"Em 2004, eu alertava que biocombustíveis estabeleceriam uma competição entre os carros e as pessoas. As pessoas inevitavelmente perderiam: aqueles que podem pagar para dirigir são mais ricos que aqueles à beira da fome", escreve Monbiot.
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Para o autor, o Brasil é um exemplo que ilustra o "impacto" de se transformar recursos naturais em combustíveis. "Produtores de cana-de-açúcar estão avançando sobre o cerrado no Brasil, e plantadores de soja estão destruindo a floresta amazônica. Agora que o presidente (americano, George W.) Bush acabou de assinar um acordo de biocombustíveis com o presidente Lula, deve piorar.”

COMENTANDO A NOTÍCIA: Já li muitos irados comentários contra o jornalista britânico. Ouvi muita “autoridade” falando tolices. Em parte, Monbiot faz um alerta que, pelo menos, deveríamos refletir com mais cuidado e menos emoção. Muito embora, Monbiot não tenha lá muitos argumentos sólidos para defender uma bandeira de “adiamento” nos projetos de biocombustíveis. Se trata, como sabemos, de um ambientalistas a praticar terrorismo apocalíptico.

È claro que a nossa política de biocombustíveis sinaliza para um caminho sem volta, ou seja, a lenta substituição pelo mundo todo de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, por combustíveis renováveis, não apenas por serem menos poluidores, mas porque o petróleo tem data e hora para acabar. E, neste caso, se fará o que, deixar o mundo parar ? Desejar que todos voltem a andar de carroça, e usarem lampião para iluminação ?

Porém o interesse mundial pela biocombustível cuja tecnologia o Brasil desenvolveu e domina, pode ensejar a uma desequilíbrio nefasto de se priorizar o cultivo de culturas destinadas exclusivamente ao atendimento da demanda na área de energia, deixando-se de lado culturas indispensáveis ao alimento humano. É a política da monocultura, a partir da ganância de ganhos fáceis. E aqui, COMENTANDO A NOTÍCIA já fez diversos alertas para o governo Lula desenvolver políticas de incentivo para aquelas culturas que poderiam ser afetadas. Não se trata, é bom dizer logo, de se aderir às tragicômicas sugestões recomendadas pelos malucos Hugo Chávez e Fidel Castro. Mas sim, de se procurar manter o equilíbrio na produção agrícola brasileira, para que uma demanda não prejudique a outra.

Também, insistimos, que o governo brasileiro fique atento porque há, e a tendência é a pressão aumentar cada vez mais, um desejo enorme dos países ricos como Estados Unidos, França, Japão, agora a Itália, em ter o domínio na área de biocombustíveis. Seríamos apenas, o que já fomos, os “grandes produtores” primários, enquanto eles dominariam a distribuição, a tecnologia e a comercialização. De certa forma, isto já está acontecendo, mesmo que ainda de forma inicial. Querem um exemplo disto? O Brasil é o maior produtor mundial de café em grãos, correto ? Pois bem, sabem quem é o maior exportador de café industrializado do mundo ? Pois é, a Alemanha, e pelo que se saiba lá não existe um miserável de pé capaz de produzir meia dúzia de grãos. Assim, como no passado, já tivemos o caso do Uruguai, é o Uruguai, vejam vocês, não ter uma única mina de ouro em seu diminuto território, e ser o maior exportador do minério na América Latina !

Biocombustíveis é uma oportunidade ímpar do Brasil ingressar num clube do qual está alijado desde sua fundação, a dos países dito ricos e dominadores. Portanto, precisamos ter a capacidade de negociação que nunca tivemos de sabermos defender sempre, e em primeiríssimo lugar, o interesse nacional. Mas, pelo andar da carruagem, da forma como o governo Lula vem agindo, dentro de pouco tempo, talvez quatro ou cinco anos, quando muito, estaremos, de novo, a reboque neste campo. A França, por exemplo, tem comprado usinas. Americanos têm comprado terras para o cultivo de cana. Japão e Itália estão chegando com a mesma intenção. Além disso, estão oferecendo parceria para o cultivo com tecnologia brasileira na América Latina e na África.

Portanto, cautela é preciso para que não percamos o bonde da história mais uma vez. Lembro outra situação semelhante vivida pelo país e que acabou tristemente para os brasileiros: o ciclo da borracha no início do século vinte !

Sobre o que comentamos aqui, leiam a crônica de Carlos Chagas na Tribuna da Imprensa, ACORDA LULA, e uma reportagem do Correio Braziliense, sobre as críticas de Fidel Castro, ambas reproduzidas a seguir. Esta última, é claro, Fidel está falando em nome de Chavez, que não quer ver reduzido seu poder. Quanto menor a dependência do mundo (e principalmente, dos americanos) pelo seu petróleo, menor seu poder político. E vale lembrar que 70% da produção venezuelana tem destino certo para o irmão do norte. Daí sua preocupação em não perder este rico mercado graças ao qual ele sustenta sua permanência no poder. E por que Fidel fala em nome de Chavez ? Porque Chavez é hoje o maior parceiro gratuito de Fidel. Depois da perda da receita-doação da antiga URSS, Fidel e Cuba entraram em declínio. Chavez, buscando se auto-promover e estender seu poder político sobre os latinos, passou a fazer doações regulares para Cuba. Portanto, a crítica de Fidel não vai além do que fazer um agrado ao amigo doador. O ditador cubano está, na verdade, garantindo seu sustento proveniente do petróleo venezuelano.