segunda-feira, abril 02, 2007

Fraquezas do forte

Almyr Gajardoni (*), Noblat

Fernando Rodrigues titulou seu artigo na Folha de S.Paulo de sábado assim: “Lula ainda mais forte”. Ele enumera uma série de ações, praticadas depois da reeleição, que mostram um presidente mais à vontade, fazendo e desfazendo como lhe apetece. A maior parte do texto contém a enumeração das pessoas que o presidente, de uma maneira ou outra, afrontou e dobrou. Essa me parece uma visão militar da questão – os outros são inimigos e devem ser eliminados. Os clássicos da guerra e da política já ensinaram que esta não é aquela, ainda que de outra forma, mas uma alternativa para ela. A política não é uma disputa a ser vencida, ainda que renhidas batalhas eleitorais sejam sua marca mais evidente. Política, finda essa batalha pelos votos, é negociação e conciliação. Até com os adversários, pois a democracia não pode ser a ditadura da maioria.

O articulista enumera episódios em que o presidente reeleito tratou aliados diversos de forma implacável. Marta Suplicy fritada em público, Renan Calheiros humilhado (o presidente não atendeu seu telefonema), o PMDB da Câmara não atendido como desejava, Ciro Gomes à míngua. Por isso, “parece hoje mais à vontade e forte do que em 2003, quando tomou posse pela primeira vez”. São todas ações que diminuem aliados do presidente, não adversários – para estes, ele oferece uma frase que pode ser atribuída ao próprio Lula: “Nunca neste país a oposição foi tão fraca”. Essa linha de raciocínio comporta uma pergunta que não está no artigo: o que o presidente ganhou com tudo isso?

Nessa longa, aparentemente interminável arrumação do novo Ministério, parece-me que Lula, além de não ganhar nada, perdeu muita coisa. Perdeu Furlan e não conseguiu Gerdau, e isso bem pode significar que o empresariado de peso não parece mais disposto a brincar de política com ele. Perdeu Márcio Tomás Bastos, um dos mais sólidos pilares do primeiro governo, e não conseguiu substituto; teve de se virar com um político que esteve cogitado para várias funções, pois não é especialista em nada. Perdeu Paloci, perdeu Dirceu, está mandando para a coordenação política outro polivalente que antes de chegar lá comandou o Turismo e quase foi para o Planejamento. Tem aliados feridos nas presidências do Senado e da Câmara. Fez um agrado ao clã Sarney que soa quase como uma afronta, ao nomear Roseana líder do governo no Congresso. Indispôs-se com seu próprio partido e com seu mais fiel aliado, o PCdoB. Deixou Ciro Gomes ao relento.

Assim, o segundo governo dependerá muito da boa vontade do PMDB, um partido que tem folha corrida expressiva nesse quesito das lealdades: puxou o tapete de seu quadro mais forte eleitoralmente (Garotinho), colocou-se à margem da impopularidade do final do segundo mandato de Fernando Henrique, não moveu uma palha para defender Collor, deixou seu mais poderoso cacique na época, Orestes Quércia, sozinho na campanha – traição que havia reservado, na eleição anterior, ao seu maior herói, Ulysses Guimarães.

Sim, a oposição a Lula está mais fraca do que nunca. Mas quem tem correligionários desse tipo, para que precisa de oposição?

(*) Jornalista, chefe do Núcleo de Redação da Imprensa Oficial de São Paulo