Sebastião Nery, Tribuna da Imprensa
Eram estudantes, muito jovens, recém-chegados à nova, pequena e pacata Belo Horizonte da década de 40. Um de Diamantina, 1920. O outro de Montes Claros, 1922. Um, Celso Brant. O outro, Darcy Ribeiro. Dividiam um quarto numa pensão da Rua Ceará. Darcy vivia inventando histórias de jagunços lá do seu norte de Minas, sempre dizendo que carregava nas veias o sangue destemido e a coragem indômita daqueles sertanejos. Celso, seresteiro e introvertido, cansado daquelas bazófias, desafiou o amigo: - Pára com isso, Darcy. Você é um sujeito de paz, não mata uma mosca.- Pois você está muito enganado. Se cruzar no meu caminho, atiro.
Darcy
Celso sabia que o também estudante e companheiro de pensão Geraldo Correia tinha um revólver escondido no quarto, embaixo do colchão. Foi lá, pegou a arma, entregou a Darcy, desabotoou a camisa, mostrou o peito: - Vamos lá, Darcy. Quero ver se você atira mesmo. Pode atirar aqui! Darcy pegou o revólver sem jeito e, com a arma em punho, mirou bem, começou a suar frio, encostou-se no guarda-roupa e deu uma gargalhada: - Atirar eu atiro. Só não sei em quê. Em gente é que não sei atirar.
A dona da pensão apareceu exatamente na hora, deu um grito, caiu no chão desmaiada, saiu carregada pelos dois. E os expulsou da pensão.
Dirceu
Ao contrário do saudoso e magistral Darcy, o PT desde o começo aprendeu em quem atirar: no dinheiro público. Houve dinheiro público, o PT mira, atira e acerta. E não é como pensa Lula, que tudo no Brasil começou com ele e o PT. É evidente que a corrupção no País não nasceu com o PT.
Mas com o PT é que a corrupção se tornou uma opção ideológica, um método oficializado, uma prática inexorável de partido e de governo. Outros, tantos, sempre se corromperam. Mas individualmente. Com o PT é que veio a corrupção em massa, sistemática, como projeto político, como programa para chegar ao poder. Uma corrupção ampla, geral, irrestrita e anistiada.
Desde que ganhou as primeiras prefeituras importantes, no País e sobretudo em São Paulo, a partir da década de 80, o PT nelas instalou, em cada uma, sem exceção, máquinas de fazer dinheiro para financiar o caminho do poder: São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Santos, Ribeirão Preto, Campinas, Santo André, Mauá, Contagem (MG), Camaçari (BA), Jaguaquara (BA), etc.
E o gênio de José Dirceu "chefiando a quadrilha", como denunciou o procurador geral. Estavam plantando as primeiras roças de mensalão.
Zuleido
Na operação navalha pela independência, competência e firmeza da Polícia Federal, voltou aos jornais o escândalo de Mauá, em São Paulo, uma das ricas cidades do PT, já entre 2001 e 2005 (com Osvaldo Dias):
"Dois bancários do Banco Santander em Mauá, no ABC paulista, contaram ao Ministério Público que a secretária de Finanças da prefeitura petista, Valdirene Dardin, sacou R$ 230 mil no caixa, em dinheiro, de uma conta da prefeitura. Pegou, levou e não deixou nenhum documento para explicar ou justificar o saque" ("Folha", setembro de 2005).
Agora, "o Tribunal de Contas do Estado (de São Paulo) julgou irregular e o Ministério Público pode pedir a anulação da licitação de R$ 1,6 bilhão para serviços de captação e tratamento de esgoto com duração de 30 anos, ganha (em 2002) pela empresa Ecosama (com esse nome de pomada para pereba), pertencente à Gautama de Zuleido Veras" ("O Globo").
Wagner
Como é que uma nova, pequena e desconhecida empresa, lá da distante Bahia, filial de outra também desconhecida, ganha fraudulentamente uma concorrência de um bilhão e meio, numa prefeitura do interior de São Paulo? Que referências e ligações poderia ter? Aí é que está o ovo da serpente.
Em 2002, o atual governador da Bahia, Jaques Wagner, que disputava pela primeira vez o governo do Estado, era deputado federal do PT, eleito desde 90 por Camaçari, onde tinha sido presidente do Sindicato Petroquímico. Foi candidato à prefeitura em 2002, conseguindo 31% dos votos, apoiado pelo ex-prefeito Luís Caetano, também do PT, que foi novamente eleito em 2004.
Nesse tempo todo, Wagner e Caetano tiveram o fácil apoio financeiro de um dileto amigo dos dois, Zuleido Veras, empreiteiro de suspeitosas obras públicas em vários estados do Norte e do Nordeste, na Prefeitura de Camaçari e também na Prefeitura de Mauá (SP), dois feudos políticos do PT. Quem levou Zuleido para Mauá em 2002? Macacos nos mordam se não foram eles. Zuleido e Caetano estão presos e Wagner sumiu como avião fora do radar.
Propinas
Experiente advogado de cabeludas causas me dizia ontem: "No Brasil, empresário só dá propina, a assessores e segundo escalão, de até R$ 10 mil. Daí para cima, vai para quem decide, assina e publica no Diario Oficial".
Eram estudantes, muito jovens, recém-chegados à nova, pequena e pacata Belo Horizonte da década de 40. Um de Diamantina, 1920. O outro de Montes Claros, 1922. Um, Celso Brant. O outro, Darcy Ribeiro. Dividiam um quarto numa pensão da Rua Ceará. Darcy vivia inventando histórias de jagunços lá do seu norte de Minas, sempre dizendo que carregava nas veias o sangue destemido e a coragem indômita daqueles sertanejos. Celso, seresteiro e introvertido, cansado daquelas bazófias, desafiou o amigo: - Pára com isso, Darcy. Você é um sujeito de paz, não mata uma mosca.- Pois você está muito enganado. Se cruzar no meu caminho, atiro.
Darcy
Celso sabia que o também estudante e companheiro de pensão Geraldo Correia tinha um revólver escondido no quarto, embaixo do colchão. Foi lá, pegou a arma, entregou a Darcy, desabotoou a camisa, mostrou o peito: - Vamos lá, Darcy. Quero ver se você atira mesmo. Pode atirar aqui! Darcy pegou o revólver sem jeito e, com a arma em punho, mirou bem, começou a suar frio, encostou-se no guarda-roupa e deu uma gargalhada: - Atirar eu atiro. Só não sei em quê. Em gente é que não sei atirar.
A dona da pensão apareceu exatamente na hora, deu um grito, caiu no chão desmaiada, saiu carregada pelos dois. E os expulsou da pensão.
Dirceu
Ao contrário do saudoso e magistral Darcy, o PT desde o começo aprendeu em quem atirar: no dinheiro público. Houve dinheiro público, o PT mira, atira e acerta. E não é como pensa Lula, que tudo no Brasil começou com ele e o PT. É evidente que a corrupção no País não nasceu com o PT.
Mas com o PT é que a corrupção se tornou uma opção ideológica, um método oficializado, uma prática inexorável de partido e de governo. Outros, tantos, sempre se corromperam. Mas individualmente. Com o PT é que veio a corrupção em massa, sistemática, como projeto político, como programa para chegar ao poder. Uma corrupção ampla, geral, irrestrita e anistiada.
Desde que ganhou as primeiras prefeituras importantes, no País e sobretudo em São Paulo, a partir da década de 80, o PT nelas instalou, em cada uma, sem exceção, máquinas de fazer dinheiro para financiar o caminho do poder: São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Santos, Ribeirão Preto, Campinas, Santo André, Mauá, Contagem (MG), Camaçari (BA), Jaguaquara (BA), etc.
E o gênio de José Dirceu "chefiando a quadrilha", como denunciou o procurador geral. Estavam plantando as primeiras roças de mensalão.
Zuleido
Na operação navalha pela independência, competência e firmeza da Polícia Federal, voltou aos jornais o escândalo de Mauá, em São Paulo, uma das ricas cidades do PT, já entre 2001 e 2005 (com Osvaldo Dias):
"Dois bancários do Banco Santander em Mauá, no ABC paulista, contaram ao Ministério Público que a secretária de Finanças da prefeitura petista, Valdirene Dardin, sacou R$ 230 mil no caixa, em dinheiro, de uma conta da prefeitura. Pegou, levou e não deixou nenhum documento para explicar ou justificar o saque" ("Folha", setembro de 2005).
Agora, "o Tribunal de Contas do Estado (de São Paulo) julgou irregular e o Ministério Público pode pedir a anulação da licitação de R$ 1,6 bilhão para serviços de captação e tratamento de esgoto com duração de 30 anos, ganha (em 2002) pela empresa Ecosama (com esse nome de pomada para pereba), pertencente à Gautama de Zuleido Veras" ("O Globo").
Wagner
Como é que uma nova, pequena e desconhecida empresa, lá da distante Bahia, filial de outra também desconhecida, ganha fraudulentamente uma concorrência de um bilhão e meio, numa prefeitura do interior de São Paulo? Que referências e ligações poderia ter? Aí é que está o ovo da serpente.
Em 2002, o atual governador da Bahia, Jaques Wagner, que disputava pela primeira vez o governo do Estado, era deputado federal do PT, eleito desde 90 por Camaçari, onde tinha sido presidente do Sindicato Petroquímico. Foi candidato à prefeitura em 2002, conseguindo 31% dos votos, apoiado pelo ex-prefeito Luís Caetano, também do PT, que foi novamente eleito em 2004.
Nesse tempo todo, Wagner e Caetano tiveram o fácil apoio financeiro de um dileto amigo dos dois, Zuleido Veras, empreiteiro de suspeitosas obras públicas em vários estados do Norte e do Nordeste, na Prefeitura de Camaçari e também na Prefeitura de Mauá (SP), dois feudos políticos do PT. Quem levou Zuleido para Mauá em 2002? Macacos nos mordam se não foram eles. Zuleido e Caetano estão presos e Wagner sumiu como avião fora do radar.
Propinas
Experiente advogado de cabeludas causas me dizia ontem: "No Brasil, empresário só dá propina, a assessores e segundo escalão, de até R$ 10 mil. Daí para cima, vai para quem decide, assina e publica no Diario Oficial".