quinta-feira, maio 24, 2007

Os últimos dias da voz de oposição

Nina Negrón AFP

CARACAS. A rede venezuelana privada de televisão, RCTV, fortemente alinhada à oposição, sai do ar daqui a uma semana, depois de 53 anos de transmissões. A não-renovação da concessão do canal é considerada uma das decisões mais polêmicas dos oito anos de governo do presidente Hugo Chávez.

A Radio Caracas Televisão (RCTV), que combina os segmentos de informação e opinião com os de entretenimento 24 horas por dia, é a única cadeia televisiva de alcance nacional, em banda VHF, que ainda mantinha uma linha editorial de oposição ao governo Chávez.

O outro canal de linha crítica, Globovisión, uma estação de notícias 24 horas, tem alcance limitado, na banda UHF, a Caracas e à próxima cidade de Valencia.

O cancelamento da licença de transmissão da RCTV, anunciada pelo próprio Chávez em dezembro, é até agora a medida mais impopular do presidente, com crítica de 70% a 80% da população. Segundo as pesquisas, a maioria dos venezuelanos considera a medida do líder "arbitrária e pessoal".

Eduardo Sapene, diretor do canal, sustenta que as únicas razões capazes de motivar o fechamento da RCTV são as políticas.

- É contra quem pensa diferente do governo, é uma atitude ilegal e arbitrária. Isto se chama abuso de poder e totalitarismo - completa Sapene.

O governo, entretanto, afirma que precisa da freqüência para cedê-la a um novo canal de serviço público, que começará a operar no dia 28, dez ou quinze minutos depois de acabar o sinal da RCTV.

Andrés Izarra, ex-ministro de Comunicação e atual diretor da rede televisiva multiestatal Telesur, explica que o espectro radiolétrico é um "bem limitado" e com esta decisão ganha-se um espaço para "democratizar a comunicação na Venezuela".

- O que era antes um bem privado explorado por uma família será agora um espaço no qual possam se desenvolver atores distintos do panorama comunicacional - disse Izarra.

Para o diretor, "não se perde muito pouco" com a saída do ar da RCTV, porque "a televisão de péssima qualidade é o que dominava nesses espaços de puro entretenimento".

Para ocupar o espaço vazio que a RCTV deixará, o governo de Hugo Chávez criou uma fundação chamada Teves, que receberá um capital inicial de US$ 4 milhões (R$ 7,8 milhões) e cuja junta diretiva será nomeada pelo ministério de Comunicação e Informação. Entretanto, ainda não se sabe quem fará parte da junta diretiva e qual será a programação inicial do novo canal.

Com a criação da Teves, o Estado controlará os canais de alcance nacional na freqüência VHF, e outros três continuarão a ser privados.

Sobre o fato de o governo incidir diretamente na formação do novo canal, Izarra opinou que "um serviço público não pode nascer sem apoio do Estado". Em referência à nomeação dos diretores, lembrou que na França existe o Conselho Superior Audiovisual, para o qual o presidente, o Senado e a Assembléia Nacional nomeiam três membros cada um:

- Os meios de comunicação são um reflexo da situação política de um país - completou.

Sobre o risco de perda de palco para a expressão de idéias contrárias à linha oficial, o ministro Andrés Izarra assinalou que o "espaço natural de confluência de fatores na democracia é na Assembléia Nacional":

- A oposição decidiu não ir às eleições legislativas de 2005. Se fizeram um harakiri, não é problema nosso. Eles que decidiram isso - ironizou. - Se nem sequer comparecem aos espaços mais elementares de debate político, os naturais, o que vão dizer dos meios de comunicação? A mídia é um espaço de expressão das opiniões políticas, mas não é um ator político.

A oposição realizou ontem uma grande marcha em Caracas contra o fim da concessão da RCTV, enquanto o ministro de Comunicação, Willian Lara, anuncia uma "festa popular em toda Venezuela" para as noites de 27 e 28 de maio.