Editorial do Jornal do Brasil
A história recente mostra que o país já pagou preços altos pelo abandono das instituições por seus dirigentes. Assim como é difícil recuperar mendigos renitentes, é penoso resgatar organizações ultrajadas por pretensos protetores e depois expostas a espancamentos de brutamontes de ocasião e à exploração dos oportunistas de sempre. O caso do Congresso é exemplar. Sangra pelos mais recentes maus-tratos sem que ainda tenha cicatrizado as feridas do passado.
Em uma sucessão de providências canhestras, a Casa tenta abafar as investigações sobre as finanças de seu presidente, o senador Renan Calheiros, que teima em se manter no cargo. Não bastasse isso e o também senador Joaquim Roriz é flagrado em bizarra comunicação com um banqueiro sobre um negócio bilionário mal explicado. Para piorar, é só lembrar o fato de que o Tribunal Superior Eleitoral analisa a cassação de mandato de quatro senadores e 25 deputados federais eleitos em outubro de 2006.
Está recorrente protestar contra a impunidade com que são agraciados suspeitos, acusados, processados e sentenciados no Brasil, mas talvez poucos percebam que a conseqüência é uma sensação generalizada de que a lei não é igual para todos. Não se trata apenas do antigo estigma de que o dinheiro pode tudo, mas também a vigência do código das ruas, pelo qual sempre se deve obedecer ao ocupante do poder arbitrário. Que outra explicação há para episódios bárbaros como o espancamento de uma doméstica por cinco jovens desocupados em um ponto de ônibus na Barra da Tijuca?
A epidemia de violência nas grandes cidades (causa de vergonha para brasileiros, como comprova recente pesquisa CNT/Sensus) e a falta de rumo da juventude em todas as classes sociais já se tornaram banais.
No episódio da Barra da Tijuca, tentou se explicar o crime informando que os agressores confundiram a vítima com uma prostituta - como se o país tivesse regredido à época em que a mulher era surrada de acordo com a vontade do proprietário masculino. Infelizmente, trata-se de algo talvez mais perigoso do que o machismo. O que de fato agrava o quadro de desorientação de valores não é apenas a certeza da impunidade ou o privilégio de alguns cidadãos. Afinal, de onde vêm as lições de barbárie aprendidas por esses jovens? De onde tiram a sensação da impunidade?
Uma das fontes mais fartas de referências péssimas é o desempenho de alguns dos eleitos nas urnas. Como se nota, o Senado hesita em resolver seus problemas internos com a aplicação do Código Penal.
Os parlamentares parecem depositar esperança no surgimento de uma mágica regimental que apague suspeitas e estabeleça um faz-de-conta providencial sobre os representantes do poder popular. Desse modo, essa Casa doutrina a juventude do país para o mal. Ensina que a negociação privada está acima da lei e que qualquer acordo é melhor do que obedecer à norma estabelecida.
Tal espancamento institucional só é praticado porque há uma fé inabalável na memória curta do eleitor que cravou seus nomes nas urnas eletrônicas por acreditar que poderiam servir de exemplo do bem, jamais do mal maior. Pode o Senado, e a Câmara, lecionar matéria diferente do que a apologia da impunidade, a defesa do privilégio, o gosto pelo acordo e a aposta na desmemória? Claro que pode. Mas quer?
A história recente mostra que o país já pagou preços altos pelo abandono das instituições por seus dirigentes. Assim como é difícil recuperar mendigos renitentes, é penoso resgatar organizações ultrajadas por pretensos protetores e depois expostas a espancamentos de brutamontes de ocasião e à exploração dos oportunistas de sempre. O caso do Congresso é exemplar. Sangra pelos mais recentes maus-tratos sem que ainda tenha cicatrizado as feridas do passado.
Em uma sucessão de providências canhestras, a Casa tenta abafar as investigações sobre as finanças de seu presidente, o senador Renan Calheiros, que teima em se manter no cargo. Não bastasse isso e o também senador Joaquim Roriz é flagrado em bizarra comunicação com um banqueiro sobre um negócio bilionário mal explicado. Para piorar, é só lembrar o fato de que o Tribunal Superior Eleitoral analisa a cassação de mandato de quatro senadores e 25 deputados federais eleitos em outubro de 2006.
Está recorrente protestar contra a impunidade com que são agraciados suspeitos, acusados, processados e sentenciados no Brasil, mas talvez poucos percebam que a conseqüência é uma sensação generalizada de que a lei não é igual para todos. Não se trata apenas do antigo estigma de que o dinheiro pode tudo, mas também a vigência do código das ruas, pelo qual sempre se deve obedecer ao ocupante do poder arbitrário. Que outra explicação há para episódios bárbaros como o espancamento de uma doméstica por cinco jovens desocupados em um ponto de ônibus na Barra da Tijuca?
A epidemia de violência nas grandes cidades (causa de vergonha para brasileiros, como comprova recente pesquisa CNT/Sensus) e a falta de rumo da juventude em todas as classes sociais já se tornaram banais.
No episódio da Barra da Tijuca, tentou se explicar o crime informando que os agressores confundiram a vítima com uma prostituta - como se o país tivesse regredido à época em que a mulher era surrada de acordo com a vontade do proprietário masculino. Infelizmente, trata-se de algo talvez mais perigoso do que o machismo. O que de fato agrava o quadro de desorientação de valores não é apenas a certeza da impunidade ou o privilégio de alguns cidadãos. Afinal, de onde vêm as lições de barbárie aprendidas por esses jovens? De onde tiram a sensação da impunidade?
Uma das fontes mais fartas de referências péssimas é o desempenho de alguns dos eleitos nas urnas. Como se nota, o Senado hesita em resolver seus problemas internos com a aplicação do Código Penal.
Os parlamentares parecem depositar esperança no surgimento de uma mágica regimental que apague suspeitas e estabeleça um faz-de-conta providencial sobre os representantes do poder popular. Desse modo, essa Casa doutrina a juventude do país para o mal. Ensina que a negociação privada está acima da lei e que qualquer acordo é melhor do que obedecer à norma estabelecida.
Tal espancamento institucional só é praticado porque há uma fé inabalável na memória curta do eleitor que cravou seus nomes nas urnas eletrônicas por acreditar que poderiam servir de exemplo do bem, jamais do mal maior. Pode o Senado, e a Câmara, lecionar matéria diferente do que a apologia da impunidade, a defesa do privilégio, o gosto pelo acordo e a aposta na desmemória? Claro que pode. Mas quer?