Carlos Sardenberg, Portal G1
Ao definir a meta de inflação para 2009, hoje, o Conselho Monetário Nacional fez a mesma confusão que o presidente Lula fizera na semana passada, em entrevista ao jornal Valor Econômico (21/06).
Perguntado se queria manter a meta de inflação dos últimos três anos (4,5%) ou reduzi-la, Lula disse então que era favorável aos 4,5%, pois o Brasil já fizera muito sacrifício para chegar até aqui.
Os jornalistas lembraram, então, que a inflação corrente estava em 3,5%, de modo que uma meta de 4,5% poderia sinalizar que o governo estava optando por “inflacionar”.
Foi aí que Lula usou aquela tática de flexibilizar suas declarações, de dizer que é assim, mas pode ser assado. E fez a mistura hoje endossada pelo CMN.
O presidente começou dizendo que “se mantivermos uma inflação de 4,5% ou 4% por dez anos, será uma benção para o país”. E já indicou que uma meta de 4,5% não é assim para cravar. Acrescentou ainda: “você pode ter 4,5% ou 4% como meta mas reduzir (a inflação) a 2%”.
De modo que a pessoa pode perguntar: mas afinal qual é a meta de verdade? Pode-se fazer a mesma pergunta depois da decisão de hoje do CMN.
O Conselho confirmou a meta de 4,5% para 2008 e decidiu que, para 2009, também será de 4,5%, como queria o ministro Guido Mantega. Mas na entrevista após a reunião, Mantega disse e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, explicou que o objetivo do BC para 2008 e 2009 é, na verdade, de 4%.
Precisava dizer isso porque a inflação corrente é de 3,5% e as expectativas para os próximos dois anos são de inflação de 4%. Se cravada a meta de 4,5%, isso indicaria ao mercado e aos agentes econômicos (investidores, poupadores e consumidores) que o governo tolerava e até estimulava uma alta da inflação.
Então, ficamos assim: o centro da meta de inflação para este e os próximos dois anos é de 4,5%, com tolerância de dois pontos para cima ou para baixo. O intervalo, portanto, vai de 2,5% a 6,5%, amplo o suficiente para absorver choques.Mas o objetivo do BC para os próximos dois anos é inflação de 4%. E, segundo o presidente Lula, pode ser ainda menor.
Tudo arranjado para não desmentir Lula e para acomodar as posições de Mantega (pró-4,5%) e de Paulo Bernardo e Meirelles (pró-4%).
Má decisão. Essas coisas têm que se claras e firmes.
Além disso, os demais países têm meta de inflação entre 2% e 3%. Perdemos uma boa oportunidade de aproveitar uma inflação já baixa e cravar esse patamar sem necessidade de sacrifícios adicionais.